domingo, 15 de março de 2026

A segunda morte de Antonio Gramsci? Por Ivan Alves

O italiano Antonio Gramsci teve uma vida trágica. Nascido em 1891, ainda quando criança pastoreava ovelhas nas montanhas da sua Sardenha natal, passando meses a fio isolado de tudo e de todos. Aos 20 anos de idade, partiu para a região do Piemonte, destacando-se como articulista em um jornal socialista, até se tornar um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI), ao lado de Palmiro Togliatti e outros companheiros. Participou dos sovietes de Turim, influenciados pelo desenrolar dos acontecimentos que marcaram a Revolução de Outubro de 1917, na velha Rússia. Preso em 1926, quando era secretário-geral do PCI, Gramsci morreu em um hospital militar, após mais de dez anos na prisão. O ditador fascista Benito Mussolini dizia que era preciso fazer com que aquele cérebro parasse de pensar. 

Após a queda do fascismo, Palmiro Togliatti, que se encontrava à frente do Partido Comunista, se encarregou de divulgar o legado de Antonio Gramsci, sobretudo os textos escritos por ele no cárcere. 

Foi quando conceitos como hegemonia, bloco histórico, guerra de movimento, guerra de posição e tantos outros passaram a integrar o dia a dia da política, enriquecendo-a. No Brasil, não seria muito diferente: militantes do PCB como Gilvan Melo e Luiz Mário Gazzaneo começaram a ler os trabalhos de Gramsci ainda na década de 50. Mais adiante, incentivados por Ênio Silveira, o nosso extraordinário editor, tradutores e estudiosos como Carlos Nelson Coutinho, Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques, por exemplo, muito contribuíram para a divulgação das obras do pensador sardo entre nós. Intelectuais e dirigentes do porte de Armênio Guedes, Leandro Konder e Luiz Werneck Vianna se encarregaram de aplicar as suas ideias à vida política brasileira, no interior do Partido Comunista Brasileiro, em particular à luta contra a ditadura militar. Mais adiante, já na redemocratização, a Fundação Astrojildo Pereira, herdeira da tradição pecebista, fez igualmente um grande esforço para dar continuidade às ideias gramscianas em nosso país. Livros importantes do pensador e ativista italiano Giuseppe Vacca foram então publicados. Teve um papel fundamental nisso o histórico dirigente comunista Francisco Inácio de Almeida. 

Nesse meio tempo, ocorreu algo que tem que ser destacado: o PCB foi se enfraquecendo, em função da repressão e das divisões internas que sofreu, e as ideias de Antonio Gramsci deixaram pouco a pouco o campo político e passaram a se refugiar na Academia, um fenômeno que já apontava para a separação entre a luta de ideias e a luta pela transformação social. A filosofia da práxis recebia assim um baque, uma vez que o marxismo evolui em estreita ligação com o ambiente circundante, a união entre teoria e prática sendo a sua principal característica. Como sempre apontava Vladimir Lenin, o marxismo era, ao mesmo tempo, um método de análise e um guia para a ação. Na própria Rússia, essa tentativa de esvaziamento do conteúdo transformador do marxismo já havia existido, com os chamados "marxistas legais", ainda à época dos bolcheviques, no período pré-revolucionário.

Por que rememorei tudo isso? Pelo fato de que, ao ser capturado pela Academia, e, paralelamente, abandonado pelos partidos que se reivindicavam de alguma forma da experiência marxista, surge um Antonio Gramsci escolástico, um Gramsci de citações, totalmente esvaziado de seu conteúdo prático, mudancista. 

Senão vejamos. Em um tempo de ascensão do fascismo no mundo, por exemplo, convém recordar - e aplicar - a lição de Gramsci. Qual seja, diante do caos, segundo ele, o povo prefere uma ordem, ainda que injusta. Vale dizer, a Democracia tem que dar uma resposta firme às questões do seu tempo, sempre. Vejamos o caso do crime organizado, por exemplo. Ninguém vive na desordem e a Democracia é também uma ordem, nunca é demais lembrar. Quando ela deixa de se apresentar como solução aos problemas que recaem sobre a população - como estes do crime organizado, do tráfico e das milícias em quase todos os cantos do nosso país hoje -, a ordem injusta, isto é, a ditadura, rouba a cena. E ainda há quem trate criminoso como vítima social, quando na verdade a vítima é o trabalhador das áreas mais pobres do país, a começar pelas periferias das grandes e médias cidades, que perdeu seu direito de ir e vir. Daí ser essencial o combate, dentro da lei, ao crime e a essa burguesia do crime que foi se formando nas últimas décadas. E o mesmo vale para a corrupção, em todas as esferas. 

Segurança pública, de um lado, e descalabro administrativo, de outro, são duas portas de entrada para o fascismo hoje. O Campo Democrático precisa refletir com urgência sobre isso.

Em outras palavras, torna-se fundamental não esquecer a lição política daqueles que buscaram entender os caminhos do fascismo na Itália, sob pena de decretarmos a segunda morte de Antonio Gramsci.

*Ivan Alves Filho, historiador

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