quarta-feira, 4 de março de 2026

Agro, petróleo e minérios evitaram PIB menor em 2025, mas essa história vem de longe, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

País não cresceu na metade final do ano passado, mas resultado foi bom, dadas as condições

Juros altos apenas não explicam padrão e dificuldades do crescimento neste século

economia parou de crescer no segundo semestre do ano passado. Ainda assim, o PIB (Produto Interno Bruto) aumentou 2,3% em 2025. Razoável. Entre a Grande Recessão (2014-2016) e antes da epidemia (2020), a taxa média foi de 1,4% ao ano.

A queda de ritmo em relação aos 3,4% de 2024 era esperada, dadas as taxas de juros e limites da capacidade de produzir. O consumo privado parou de crescer na metade final do ano, o que não anima o humor da população.

O que ajudou a economia a não andar ainda mais devagar? A agropecuária contribuiu com 32,83% do aumento do PIB; a indústria extrativa, com 15,27%. Ou seja, grãos, carnes, petróleo e minérios deram aquela força, 48% da alta do PIB. Agropecuária e indústria extrativa são menos de 11% do valor do PIB.
A indústria de transformação ("fábricas") deu contribuição negativa; a construção civil, quase contribuição alguma.

O setor de serviços contribuiu com 52,42% do crescimento de 2025. É de baixa produtividade média e enorme, 69,5% do PIB. No entanto, note-se de passagem, está havendo um crescimento forte de serviços de informação e comunicação: alguma atualização tecnológica ocorre por aí.

Dando uma olhadinha em história mais antiga, agropecuária e petróleo se beneficiaram de anos de investimento (estatais, em boa parte) em ciência, tecnologia e formação de pessoal. Faz 20 anos se beneficiam muito do sucesso da China.

Para quem quiser pensar o longo prazo, conviria prestar atenção a essa história de agro, petróleo, decadência fabril e serviços.

Como aumentar a produtividade dos serviços, muitos deles primitivos, "bicos", ou empresinhas sem capital, crédito, trabalho qualificado? Por que falamos tão pouco de ciência, tecnologia e formação e por que achamos que, assim, vamos ter ainda alguma indústria (ou serviços mais produtivos)? Não vai dar certo.

Não vamos longe com uma taxa de investimento de 16,8% do PIB, que foi a de 2025. "Investimento", aqui, significa despesa em aumento da capacidade de produção de bens e serviços: habitações, instalações produtivas, infraestrutura, máquinas, equipamentos, tecnologia de informação etc.

A taxa de investimento no ano passado ou da média do triênio 2023-2025 não foi pior apenas do que as de 2016-2019, de depressão, considerados os dados para este século. Não vai dar certo.

Sim, juros prejudicaram fábricas e construção civil em 2025. Mas, nos três anos de Lula 3, a contribuição da agropecuária e da indústria extrativa foi de 28%. A parte das "fábricas" no avanço do PIB nesse triênio foi de perto de 4%. Não é circunstancial, pois.

O nível de produção do agro é recorde desde quando há dados comparáveis, segundo o IBGE (desde 1996). A indústria de transformação está 16% abaixo do pico, do maior nível, no terceiro trimestre de 2008. Convém ressaltar: faz 17 anos. Não é circunstancial.

Afora os anos de recuperação da epidemia, o aumento da renda (PIB) per capita no triênio Lula 3 foi o maior desde 2013. Melhor, mas pouco, dada a nossa pobreza.

Consumo privado e do governo estão no pico da série histórica desde 1996; o investimento produtivo, muito abaixo do pico de 2013. A taxa de poupança é muito baixa (aquela parte do PIB que não se consome).

Há variação excessiva e ruim do crescimento do PIB, em boa parte causada por inflações e altas (mais comuns) e baixas irracionais do gasto público. Muito pouco do gasto dos governos vai para investimento e ciência. Difícil.

 

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