quinta-feira, 12 de março de 2026

As correntes profundas, por William Waack

O Estado de S. Paulo

As dificuldades de Lula para se reeleger não são apenas momentâneas

Mesmo com o desempenho recente de Flávio Bolsonaro, no fundo o cenário da eleição presidencial é estável, demonstram seguidas pesquisas de vários institutos. É essa estabilidade e o uso de modelos estatísticos que levam respeitadas agências de análise de risco (como a Eurásia, por exemplo) a dizer que Lula tem 60% de chances de ganhar.

Mas modelos estatísticos têm célebre dificuldade em captar movimentos subterrâneos e correntes estruturais, ainda que pesquisas acusem tendências e sofram oscilações. E a grande corrente está trabalhando contra os planos de reeleição de Lula.

É o que explica o fato de o enorme esforço de marketing e de bondades colocados em prática pelo governo não trazerem até aqui os resultados pretendidos. A imagem é forte: quem nada contra a corrente se esforça em dobro e, se tiver muita sorte, fica no mesmo lugar.

Essa grande corrente se compõe de dois elementos principais. O primeiro é político em sentido bem amplo e vem sendo descrito (inclusive em sistemas políticos europeus e na vizinhança) como “sentimento antissistema”. Por óbvio, prejudica o incumbente, não importam o nome dele, o partido ou o país.

No Brasil, esse primeiro fator é reforçado pelo cansaço do material Lula. Muita coisa mudou, menos ele. O antigo encantador de serpentes virou um personagem enfadonho.

O segundo componente da grande corrente contrária é claramente de natureza sociológica. Tem a ver com modificações profundas no mercado de trabalho (resultado de inovações tecnológicas), com a religião na formação de voto (o PT nunca soube lidar com isso) e o deslocamento de regiões dinâmicas da economia para outras áreas (simplificando: o arco de produção da agroindústria).

Chegou-se ao ponto no qual deveria estar claro para os estrategistas de Lula (parece ser apenas seu homem de marketing) que não há bala de prata para enfrentar situações desse tipo. Ou que seja apenas “questão de tempo” até que bondades eleitoreiras se traduzam em melhoria significativa nas pesquisas.

A alta volatilidade política, trazida por dois grandes escândalos, tem sido fator negativo para a reeleição. Ela aprofundou a crise institucional na qual o Planalto está longe, muito longe, de surgir como qualquer fator de equilíbrio ou estabilidade. Ao contrário: o abraço com o STF tem no momento as feições de um abraço de afogados.

Lula está derrotado? Não. Falta muito tempo ainda para a eleição e seus adversários não têm exibido grande habilidade política. Mas os dados atuais sugerem que uma vitória seria uma surpresa.

 

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