CartaCapital
Os EUA e o mundo flertam com o igualitarismo
totalitário do “se você não é igual a mim, não tem direito a existir”
Diante de mais um espetáculo empreendido pelo
projeto trumpista Make America Great Again, não faltam análises que insistem
no reducionismo que restringe um fenômeno sócio-histórico às idiossincrasias
amalucadas de Donald Trump. No entanto, há quem decrete a prevalência das
forças sociais que se movem nos subterrâneos das aparências do individualismo.
Homens e mulheres foram alcançados pelos terremotos recorrentes da vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massa capitalista. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política do capitalismo realmente existente.
Hannah Arendt, em As Origens do
Totalitarismo, abordou as transformações sociais e políticas na era do
capitalismo e da sociedade de massa.
Ao observar Donald Trump, seus símiles
europeus e os ululantes nativos, é legítimo perguntar se o Brasil e o mundo não
estariam prestes a reproduzir os processos sociais magistralmente analisados
pela pensadora alemã. Arendt ocupa-se, sobretudo, da emergência do nazismo e do
stalinismo como fenômenos do igualitarismo totalitário que vocifera “se você
não é igual a mim, não tem direito a existir”.
Esse igualitarismo de manada pressupõe,
paradoxalmente, a superioridade de um modo de ser sobre outros e culmina nas
tentativas de apagar, pela força, as diferenças de estilos de vida.
É o nivelamento pelos calcanhares, como dizia
meu professor de Filosofia do Direito, Miguel Reale, um conservador que seria
expulso das passeatas dos “igualitários” da Avenida Paulista.
A operação impessoal das forças econômicas
produziu, em simultâneo, o declínio do homem público e a ascensão do
“homem-massa, cuja principal característica não é a brutalidade ou a rudeza,
mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais”. (Hannah
Arendt)
Trata-se da abolição do sentimento de
pertinência, sem a supressão das relações de dominação. Seguimos com Hannah
Arendt para desvendar as raízes e as origens do totalitarismo: “As massas
surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cujas estruturas competitivas e
a solidão concomitante do indivíduo eram controladas quando se pertencia a uma
classe. O fato de que o ‘pecado original’ da acumulação primitiva de
capital tenha requerido novos pecados para manter o sistema em funcionamento
foi eficaz para persuadir a burguesia alemã a abandonar as coibições da
tradição ocidental… Foi esse fato que a levou a tirar a máscara da hipocrisia e
a confessar abertamente seu parentesco com a escória”.
A escória, na visão de Arendt, não tem a ver
com a situação econômica e educacional dos indivíduos, “pois até os indivíduos
altamente cultos se sentiam particularmente atraídos pelos movimentos da
ralé”. Hannah Arendt insiste:
“Talvez nada ilustre melhor a desintegração
geral da vida política do que esse ódio vago e generalizado a todos e a tudo,
sem foco para sua atenção apaixonada, sem ninguém para responsabilizar pelo
estado das coisas – nem o governo, nem a burguesia, nem um poder externo.
Consequentemente, ele virou em todas as direções, de forma desordenada e
imprevisível, incapaz de assumir um ar de indiferença saudável diante de
qualquer coisa sob o sol”.
Herbert Marcuse, autor do ensaio O Estado e o
Indivíduo no Nacional-Socialismo, considerava a ordem liberal um grande avanço
da humanidade. Sua emergência na história submeteu o exercício da soberania e
do poder ao constrangimento da lei impessoal.
No regime nazista, o Estado foi apropriado
pelo “movimento” racial e totalitário nascido nas entranhas da sociedade civil.
Os tribunais passaram a decidir como supremos censores e sentinelas do
“saudável sentimento popular”, definido atualmente por Trump para questionar a
legitimidade cidadã dos imigrantes.
A primeira vítima do populismo judiciário do
nazismo, assim como do fascismo americano, foi o princípio da legalidade, com o
esmaecimento das fronteiras entre o que é lícito e o que não é.
Aí estão os decretos de Trump destinados a
exigir fidelidade dos juízes às suas ordens desatinadas. •
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital,
em 11 de março de 2026.

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