O Globo
Tomados pelo autoengano de acreditarem-se
portadores da verdade mais certa, governo e partido quedam-se blasés
Em fevereiro de 2025, pesquisa Datafolha apontava 41% de desaprovação ao governo Lula, para uma aprovação de 24%. Neste mês de março, os números apurados foram 40% de desaprovação para 32% que o aprovam. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem, a desaprovação subiu de 49% em janeiro de 2025 para 51% neste mês; a aprovação caiu de 47% para 44%. Há resistente aversão ao governo petista de modo, talvez, intransponível. A Genial/Quaest mostra Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) empatados nas intenções de voto para presidente num eventual segundo turno, ambos com 41%.
Em artigo publicado no GLOBO, em fevereiro de
2025, eu entendia se tratar de um “governo navegado pelo mar”, que “não tem
senso de urgência, não articula relações com a sociedade”, não possui “poder de
agenda, ideias modernas e inovadoras capazes de despertar esperanças para além
da mesmice de políticas bem-sucedidas no passado; no geral, não há visão de
futuro sintonizada com o presente em transformação”.
A despeito da imagem internacional positiva
do presidente — e de números relativamente bons na economia —, na política
doméstica Lula não tem aproveitado os sorrisos que, no último ano, a sorte lhe
tem dirigido. Desculpa de todos os males, a comunicação não transpõe a
resistência de amplos setores sociais. Empresários em geral, agronegócio em
particular, jovens e evangélicos compõem um campo distante do cenário que os
olhos do PT preferem mirar. Envolvido numa bolha, o governo parece estar a meio
caminho do novo mundo e do velho Brasil real.
Mesmo eleitoralmente, rio em que deveria
nadar sem dificuldade, o governo é moroso, se não displicente. Os palanques
regionais estão em aberto, sem novidade nem alianças amplas a apresentar. Não
há estratégia para disputas eleitorais no Congresso. Sobretudo para o Senado,
espaço vital e alvo preferencial da oposição.
Tomados pelo autoengano de acreditarem-se
portadores da verdade mais certa, governo e partido quedam-se blasés. Confundem
como acertos seus os erros crassos de adversários desorientados, que acabaram
por ajudar muito mais que a maioria dos aliados. Quando se crê que os presentes
da fortuna serão aproveitados, Lula e companheiros procrastinam, deixam o tempo
passar e a maré refluir. O mar leva de volta as oferendas que vieram dar na
praia.
Não falta apenas estratégia; faltam
estrategistas. O comando de campanha é estreito — posto que exista comando para
além do instinto do presidente. Se é compreensível a prevenção quanto à
voracidade patrimonialista do Centrão, não há aproximação com setores que dele
se diferenciem e o isolem. Não há conexões e composição para além da esquerda:
a arte da política. Antes, parece haver repulsa à atração e à composição; a
morte da política.
É revelador o desfile da Acadêmicos
de Niterói, que, ao pretender ajudar, atrapalhou. Não pelas acusações de
campanha antecipada — coisa pouca diante das motociatas de Bolsonaro. Mas por
reafirmar visão de mundo autocentrada de uma esquerda já nostálgica do brilho
que teve um dia; ingenuamente encantada de si, de sua história e dos mitos que
produz. Desprezando a multiplicidade do país, fecha portas que precisariam ser
abertas. Quem sabe se levar, sabe que o mundo não é só aqui. Só que não.
Lula teve inúmeras chances de ampliar o
governo e dialogar com a maioria do país: na eleição de 2022, na composição
ministerial após a vitória; sobre os escombros deixados pelo 8 de Janeiro; por
ocasião do tarifaço decretado por Donald Trump, quando poderia atrair setores
produtivos reativos ao lulismo, estreitando laços em defesa da economia.
Mas o governo perde as chances que a sorte
dá. Talvez por se considerar predestinado; talvez por ainda se crer capaz de
vencer e governar sozinho. Autossuficiência que, com apoio do antibolsonarismo,
pode até sobreviver à batalha eleitoral, mas que sucumbirá à previsível guerra
do segundo mandato. Como os materiais, grupos políticos também sofrem fadiga. E
se decompõem.
*Carlos Melo, cientista político, é professor
do Insper

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.