quinta-feira, 12 de março de 2026

Aversão ao governo petista é resistente, por Carlos Melo

O Globo

Tomados pelo autoengano de acreditarem-se portadores da verdade mais certa, governo e partido quedam-se blasés

Em fevereiro de 2025, pesquisa Datafolha apontava 41% de desaprovação ao governo Lula, para uma aprovação de 24%. Neste mês de março, os números apurados foram 40% de desaprovação para 32% que o aprovam. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem, a desaprovação subiu de 49% em janeiro de 2025 para 51% neste mês; a aprovação caiu de 47% para 44%. Há resistente aversão ao governo petista de modo, talvez, intransponível. A Genial/Quaest mostra Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) empatados nas intenções de voto para presidente num eventual segundo turno, ambos com 41%.

Em artigo publicado no GLOBO, em fevereiro de 2025, eu entendia se tratar de um “governo navegado pelo mar”, que “não tem senso de urgência, não articula relações com a sociedade”, não possui “poder de agenda, ideias modernas e inovadoras capazes de despertar esperanças para além da mesmice de políticas bem-sucedidas no passado; no geral, não há visão de futuro sintonizada com o presente em transformação”.

A despeito da imagem internacional positiva do presidente — e de números relativamente bons na economia —, na política doméstica Lula não tem aproveitado os sorrisos que, no último ano, a sorte lhe tem dirigido. Desculpa de todos os males, a comunicação não transpõe a resistência de amplos setores sociais. Empresários em geral, agronegócio em particular, jovens e evangélicos compõem um campo distante do cenário que os olhos do PT preferem mirar. Envolvido numa bolha, o governo parece estar a meio caminho do novo mundo e do velho Brasil real.

Mesmo eleitoralmente, rio em que deveria nadar sem dificuldade, o governo é moroso, se não displicente. Os palanques regionais estão em aberto, sem novidade nem alianças amplas a apresentar. Não há estratégia para disputas eleitorais no Congresso. Sobretudo para o Senado, espaço vital e alvo preferencial da oposição.

Tomados pelo autoengano de acreditarem-se portadores da verdade mais certa, governo e partido quedam-se blasés. Confundem como acertos seus os erros crassos de adversários desorientados, que acabaram por ajudar muito mais que a maioria dos aliados. Quando se crê que os presentes da fortuna serão aproveitados, Lula e companheiros procrastinam, deixam o tempo passar e a maré refluir. O mar leva de volta as oferendas que vieram dar na praia.

Não falta apenas estratégia; faltam estrategistas. O comando de campanha é estreito — posto que exista comando para além do instinto do presidente. Se é compreensível a prevenção quanto à voracidade patrimonialista do Centrão, não há aproximação com setores que dele se diferenciem e o isolem. Não há conexões e composição para além da esquerda: a arte da política. Antes, parece haver repulsa à atração e à composição; a morte da política.

É revelador o desfile da Acadêmicos de Niterói, que, ao pretender ajudar, atrapalhou. Não pelas acusações de campanha antecipada — coisa pouca diante das motociatas de Bolsonaro. Mas por reafirmar visão de mundo autocentrada de uma esquerda já nostálgica do brilho que teve um dia; ingenuamente encantada de si, de sua história e dos mitos que produz. Desprezando a multiplicidade do país, fecha portas que precisariam ser abertas. Quem sabe se levar, sabe que o mundo não é só aqui. Só que não.

Lula teve inúmeras chances de ampliar o governo e dialogar com a maioria do país: na eleição de 2022, na composição ministerial após a vitória; sobre os escombros deixados pelo 8 de Janeiro; por ocasião do tarifaço decretado por Donald Trump, quando poderia atrair setores produtivos reativos ao lulismo, estreitando laços em defesa da economia.

Mas o governo perde as chances que a sorte dá. Talvez por se considerar predestinado; talvez por ainda se crer capaz de vencer e governar sozinho. Autossuficiência que, com apoio do antibolsonarismo, pode até sobreviver à batalha eleitoral, mas que sucumbirá à previsível guerra do segundo mandato. Como os materiais, grupos políticos também sofrem fadiga. E se decompõem.

*Carlos Melo, cientista político, é professor do Insper

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.