domingo, 15 de março de 2026

Bastidores da guerra no Brasil, por Míriam Leitão

O Globo

Navios com diesel desviam do Brasil por destinos mais lucrativos. Milho e soja começam a subir. Governo age para atenuar alta do petróleo

Navios que estavam vindo para o Brasil com diesel mudaram a rota para outros portos, em busca de preços maiores. Isso foi detectado pelo monitoramento do governo. Uma sala de situação no Ministério de Minas e Energia acompanha o mercado. O petróleo que o Brasil importa da Arábia Saudita, e que passaria pelo Estreito de Ormuz, está vindo em parte pelo Mar Vermelho e em parte pelo Mediterrâneo. Esta segunda rota é exigente. Um trecho do trajeto se faz por caminhão, e depois é preciso usar embarcações menores. O agronegócio brasileiro já havia comprado fertilizantes, mas milho e soja começam a subir. A guerra contra o Irã produziu uma crise complexa. Ela é tudo menos o que Donald Trump tem dito.

Na noite de domingo passado, quando a cotação do petróleo disparou chegando a US$ 120 o barril, o presidente Lula chamou a equipe e pediu uma resposta. Queria uma fórmula para atenuar o custo. Os integrantes do governo disseram que não se podia repetir o que foi feito na época da presidente Dilma, que segurou preços e tarifas. Lula concordou. Avisaram que também não repetiriam Bolsonaro, que deixou uma bomba fiscal. Foi então formulado o pacote com a isenção de PIS/Cofins sobre diesel, imposto de exportação de petróleo e uma transferência direta de dinheiro para empresas denominada de “subvenção”, que terá que chegar ao consumidor atenuando o aumento.

Por que não transferir diretamente ao consumidor de diesel? Uma autoridade me respondeu com uma pergunta: “em ano eleitoral dar um voucher para caminhoneiros?”. A decisão, então, foi direcionar para as importadoras e distribuidoras que, ao aderirem ao programa, se comprometem a repassar a vantagem para o consumidor final. Houve uma reunião em Brasília com Raízen, Vibra e Ipiranga, os três grandes importadores privados de diesel. Elas disseram que sabem do problema e se comprometem a, de forma transparente, com a Receita e a Agência Nacional do Petróleo, mostrar a transferência da subvenção para o preço final.

O Brasil importa 20% do petróleo que consome, porque precisamos do óleo leve dos sauditas para misturar com o nosso, fazer o blend, e aumentar a eficiência das refinarias. E importa 30% do diesel. O problema é que muitos navios que estavam contratados para entregar aqui os carregamentos de diesel, quando viram o preço subir, desviaram do Brasil e foram entregar a quem pagava mais.

O navio Jin Hui chegou a Paranaguá em 14 de fevereiro, não descarregou e retomou a viagem. Na sexta-feira, estava na altura de Fortaleza. Trazia 50 milhões de litros. Velos Forza seguia para a Turquia. Frank Light, tinha que descarregar no dia 19 de fevereiro, mas no dia 27 estava entre a Inglaterra e a França. Captain Leon, que trazia também 50 milhões de litros, na Grécia. O navio Jane seguia para a Turquia. O monitoramento a que a coluna teve acesso mostra essas mudanças de rota.

— O que aconteceu? Desviou-se a carga que vinha para o Brasil. O navio comprado lá atrás, mas que agora, no atual contexto, se pergunta: “tem alguém pagando mais?” — explicou uma fonte que acompanha o monitoramento do comércio.

O diesel é fundamental para escoar a safra, para o transporte de passageiros, e o mercado é abastecido por várias empresas. O governo sabe que, além desse desvio, algumas estão fazendo estoques. Mesmo assim, garante-se que não faltará o combustível.

A informação que o mercado de produtos agrícolas tem é que já há altas de 8,6% no preço da soja e milho em um mês, por causa do aumento de custos. Mas os efeitos no Brasil são mais leves.

— O primeiro impacto negativo forte está ocorrendo na agricultura americana. Eles estão danados porque vão plantar agora em abril. O grande produto nos Estados Unidos é o milho, que é um forte usuário de fertilizantes nitrogenados. Isso e o diesel representam um aumento forte de custo. Aqui a safra de verão já foi, a safra de inverno está sendo plantada e o fertilizante já havia sido comprado, só precisaremos de mais fertilizantes no próximo semestre — explica o economista José Roberto Mendonça de Barros. Ou seja, o Brasil pode esperar um pouco.

Nas conversas com autoridades, empresas, economistas, o que eu ouvi é que a guerra criou muitas complicações. Nesse ambiente, o Brasil viverá sua eleição. “Mesmo se a guerra terminar hoje, sentiremos o impacto por pelo menos um mês”, me disse uma fonte do governo. A preocupação é geral.


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