O Globo
Navios com diesel desviam do Brasil por
destinos mais lucrativos. Milho e soja começam a subir. Governo age para
atenuar alta do petróleo
Navios que estavam vindo para o Brasil com diesel mudaram a rota para outros portos, em busca de preços maiores. Isso foi detectado pelo monitoramento do governo. Uma sala de situação no Ministério de Minas e Energia acompanha o mercado. O petróleo que o Brasil importa da Arábia Saudita, e que passaria pelo Estreito de Ormuz, está vindo em parte pelo Mar Vermelho e em parte pelo Mediterrâneo. Esta segunda rota é exigente. Um trecho do trajeto se faz por caminhão, e depois é preciso usar embarcações menores. O agronegócio brasileiro já havia comprado fertilizantes, mas milho e soja começam a subir. A guerra contra o Irã produziu uma crise complexa. Ela é tudo menos o que Donald Trump tem dito.
Na noite de domingo passado, quando a cotação
do petróleo disparou chegando a US$ 120 o barril, o presidente Lula chamou a
equipe e pediu uma resposta. Queria uma fórmula para atenuar o custo. Os
integrantes do governo disseram que não se podia repetir o que foi feito na
época da presidente Dilma, que segurou preços e tarifas. Lula concordou.
Avisaram que também não repetiriam Bolsonaro, que deixou uma bomba fiscal. Foi
então formulado o pacote com a isenção de PIS/Cofins sobre diesel, imposto de
exportação de petróleo e uma transferência direta de dinheiro para empresas
denominada de “subvenção”, que terá que chegar ao consumidor atenuando o
aumento.
Por que não transferir diretamente ao
consumidor de diesel? Uma autoridade me respondeu com uma pergunta: “em ano
eleitoral dar um voucher para caminhoneiros?”. A decisão, então, foi direcionar
para as importadoras e distribuidoras que, ao aderirem ao programa, se
comprometem a repassar a vantagem para o consumidor final. Houve uma reunião em
Brasília com Raízen, Vibra e Ipiranga, os três grandes importadores privados de
diesel. Elas disseram que sabem do problema e se comprometem a, de forma
transparente, com a Receita e a Agência Nacional do Petróleo, mostrar a transferência
da subvenção para o preço final.
O Brasil importa 20% do petróleo que consome,
porque precisamos do óleo leve dos sauditas para misturar com o nosso, fazer o
blend, e aumentar a eficiência das refinarias. E importa 30% do diesel. O
problema é que muitos navios que estavam contratados para entregar aqui os
carregamentos de diesel, quando viram o preço subir, desviaram do Brasil e
foram entregar a quem pagava mais.
O navio Jin Hui chegou a Paranaguá em 14 de
fevereiro, não descarregou e retomou a viagem. Na sexta-feira, estava na altura
de Fortaleza. Trazia 50 milhões de litros. Velos Forza seguia para a Turquia.
Frank Light, tinha que descarregar no dia 19 de fevereiro, mas no dia 27 estava
entre a Inglaterra e a França. Captain Leon, que trazia também 50 milhões de
litros, na Grécia. O navio Jane seguia para a Turquia. O monitoramento a que a
coluna teve acesso mostra essas mudanças de rota.
— O que aconteceu? Desviou-se a carga que
vinha para o Brasil. O navio comprado lá atrás, mas que agora, no atual
contexto, se pergunta: “tem alguém pagando mais?” — explicou uma fonte que
acompanha o monitoramento do comércio.
O diesel é fundamental para escoar a safra,
para o transporte de passageiros, e o mercado é abastecido por várias empresas.
O governo sabe que, além desse desvio, algumas estão fazendo estoques. Mesmo
assim, garante-se que não faltará o combustível.
A informação que o mercado de produtos
agrícolas tem é que já há altas de 8,6% no preço da soja e milho em um mês, por
causa do aumento de custos. Mas os efeitos no Brasil são mais leves.
— O primeiro impacto negativo forte está
ocorrendo na agricultura americana. Eles estão danados porque vão plantar agora
em abril. O grande produto nos Estados Unidos é o milho, que é um forte usuário
de fertilizantes nitrogenados. Isso e o diesel representam um aumento forte de
custo. Aqui a safra de verão já foi, a safra de inverno está sendo plantada e o
fertilizante já havia sido comprado, só precisaremos de mais fertilizantes no
próximo semestre — explica o economista José Roberto Mendonça de Barros. Ou
seja, o Brasil pode esperar um pouco.
Nas conversas com autoridades, empresas,
economistas, o que eu ouvi é que a guerra criou muitas complicações. Nesse
ambiente, o Brasil viverá sua eleição. “Mesmo se a guerra terminar hoje,
sentiremos o impacto por pelo menos um mês”, me disse uma fonte do governo. A
preocupação é geral.

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