O Globo
O escândalo do banco Master é uma ação
suprapartidária, que move políticos de todos os quilates e partidos, mais uma
vez para tentar estancar a sangria
Daniel Vorcaro é o único que pode esclarecer a barafunda em que se transformou o caso do Banco Master, maior escândalo financeiro do país até hoje, na definição do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Vorcaro, depois de um primeiro momento em que imaginou poder fazer uma delação premiada seletiva, já mandou dizer que está disposto a uma delação completa, sem poupar ninguém. Esse é o momento crucial dessas delações, em que o prisioneiro cai em si e constata estar diante de uma decisão definitiva: ou todos, ou nenhum. Tudo indica que ele tem condições de provar quem estava metido em seu esquema fraudulento.
Os danos colaterais, como as orgias em
Trancoso só com estrangeiras “que não entendem o que estamos falando”, segundo
declaração atribuída a um ministro frequentador dos bacanais vorcarianos,
ficarão de lado, para os sites de fofocas e para os processos judiciais que por
acaso surjam como consequência. O escândalo é uma ação suprapartidária, que
move políticos de todos os quilates e partidos, mais uma vez para tentar
estancar a sangria. Sendo incontrolável o desenrolar das investigações, cada
lado quer usar um pedaço do caso que lhe convém com fins políticos, achando que
pode render algum fruto eleitoral.
A turma do governo Lula busca alguma coisa
que aponte para a oposição. No lado da oposição, querem jogar para o Supremo
Tribunal Federal (STF), dando a entender que o mais grave é a acusação contra
os dois ministros, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, e a parte política é
desimportante. Todos esses setores pressionam a Polícia Federal (PF). Uma ala
do PT quer que o Centrão seja investigado; a direita quer saber qual a culpa do
PT nessa história. Enquanto Toffoli e Moraes não derem explicações convincentes
sobre seu envolvimento com Vorcaro, não haverá desfecho razoável para o caso.
Todos têm sua parte de razão. Ainda precisa
ser explicado o contrato milionário, fora da curva, da mulher de Moraes com o
Banco Master, que, a cada tentativa de esclarecimento, mais dúvidas levanta. Há
os contatos frequentes de Moraes com Vorcaro, até mesmo horas antes da prisão
deste, com a pergunta incriminadora: “Conseguiu bloquear?”. O mistério do
resort Tayayá, que ninguém explica como a família Toffoli conseguiu dinheiro
para construir. Nem por que foi vendido para um grupo ligado a Vorcaro.
A turma da direita, do Centrão, também tem
explicações a dar. O senador Ciro Nogueira, classificado por Vorcaro de “amigo
de vida”, apresentou uma proposta para quadruplicar o Fundo Garantidor de
Créditos, que depois Vorcaro confessou ser a base de seu plano de negócios. Fez
isso só por amizade? O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, também
aparece em diversos diálogos com Vorcaro. O PT da Bahia também precisa ser
investigado. O senador petista Jaques Wagner foi quem indicou os contatos com o
pessoal do Master, por meio de Augusto de Lima, que virou sócio de Vorcaro
depois de ter lançado o CredCesta no governo petista.
Todos estão duplamente interessados no que
sairá no final dessa conta, do ponto de vista eleitoral e criminal. Querem
ganhar votos à custa dos erros dos outros, mas não querem ir para a cadeia. A
PF também tem lados. Ligado a Lula, o diretor-geral Andrei Rodrigues está sob
escrutínio dos policiais ligados ao Centrão. O ministro do STF André Mendonça
proibiu que os investigadores da PF fizessem um relatório ao diretor-geral.
Sigilo tão alto, dizem, é por temer que Andrei passe as informações a Lula,
favorecendo um grupo em disputa. Mas Lula também é criticado por membros do PT,
que querem que ele controle a PF por meio de Andrei.

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