Folha de S. Paulo
Supor que superioridade moral garante vitória
pode impedir a leitura correta do país
A crença no próprio merecimento não substitui
a necessidade de convencer maiorias reais
Pesquisas eleitorais recentes que projetam um
crescimento das intenções de voto em Flávio
Bolsonaro no segundo turno, em hipotético confronto direto
com Lula,
incomodaram bastante a esquerda. Ora, estamos falando de projeção de segundo
turno, que está entre as coisas mais hipotéticas e incertas do universo das
sondagens eleitorais, ainda mais a esta distância do pleito. Por que, então,
uma recepção tão alarmada da notícia?
Provavelmente porque muitos desse lado já andam, há tempo, de mãos dadas com a certeza de que Lula ganhará a eleição. Uma previsão eleitoral que não é vista como estimativa probabilística, mas como marcador moral e identitário: quem é do grupo tem que acreditar. Por isso, a informação que sugere que a derrota é possível produz tensão simbólica e afetiva notável, pois representa ameaça à identidade coletiva.
Diante dela, o primeiro movimento será, portanto,
o de defender as próprias certezas. As formas clássicas de fazê-lo incluem a
negação da evidência empírica, a desqualificação da fonte da informação e o
reforço do otimismo. Afinal, a previsão de que Lula vencerá a eleição integra
um conjunto de certezas identitárias: somos maioria, o povo está conosco, a
história está do nosso lado.
A hipótese da derrota desafia tudo isso e
instala um ceticismo desconfortável: talvez a esquerda não tenha o coração da
maioria. Talvez sua leitura do país esteja equivocada. Talvez não represente
"o povo". Pode ser que o adversário tenha base social real —e que a
esquerda hoje pregue apenas para os convertidos, distanciando-se de públicos decisivos
como o agro, o sistema financeiro, os evangélicos e os conservadores.
Acho até que a crença dominante é ainda mais
forte: "Lula não apenas vai ganhar; ele é o único que merece ganhar".
O conflito aqui se desloca para o plano moral. A hipótese de que Lula pode
perder a eleição não é mera previsão pessimista, mas desafio a uma convicção
normativa: a certeza de que ele é o candidato justo, legítimo e moralmente
superior.
Ora, para quem considera que mérito moral
deve coincidir com vitória eleitoral, um cenário que frustre isso é afronta à
ordem moral imaginada. Isso atinge em cheio a ideia de justiça política.
Admitir a derrota aqui será como admitir que a maioria pode estar equivocada;
que a própria leitura moral do país pode ser ilusória; que o vínculo entre
virtude e maioria pode não existir. A afirmação de que o mais merecedor pode
perder é interpretada como relativização do merecimento, equivalência moral
entre candidatos —coisa inadmissível— ou naturalização de um resultado injusto.
Isso vale ainda mais em ambientes
polarizados, em que a previsão de vitória se confunde com afirmação de superioridade
moral e representação autêntica do povo. A hipótese de derrota põe em crise a
convicção segundo a qual o nosso lado encarna o povo, a justiça ou a história.
Isso, naturalmente, vale para qualquer
posição que parta do mesmo pressuposto. O bolsonarismo enfrentou a ultrajante
hipótese da derrota afirmando "haverá fraude", "o sistema está
contra nós" e "a mídia sabotou". Os lulistas se escudam em
"o povo será enganado", "a Faria Lima mexeu os pauzinhos" e
"a mídia naturalizou o bolsonarismo".
São consideradas inadmissíveis as hipóteses
mais elementares: a sociedade está dividida; um contingente expressivo de
eleitores prefere valores não progressistas; há fadiga de material quando o
petismo oferece o mesmo candidato à Presidência pela sétima vez desde 1989; a
esquerda não tem sido capaz de oferecer soluções convincentes para certas
urgências sociais; o bolsonarismo representa indignação social extensa; o PT
fala cada vez mais para dentro.
Temos razões históricas recentes para
considerar o bolsonarismo uma ameaça democrática e para reconhecer que seu
método de disputar eleições não
reconhece limites nem admite escrúpulos. Mas isso em nada altera o fato de que
ele tem base política, consegue criar identificação com setores relevantes da
sociedade, é muito competente na comunicação popular e convenceu parcela
significativa do eleitorado de que representa seus interesses.
Admitir isso implicaria deslocar o problema,
de volta, do plano moral para o plano político —algo que, para a esquerda,
curiosamente, é muito custoso. Talvez porque tenha regredido na capacidade de
inflamar a imaginação das pessoas, de se comunicar com novos públicos e novas
agendas sociais, de revisar a própria leitura do país. Muito mais fácil viver
da crença de que, como o outro lado não merece vencer, nós ganharemos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.