quarta-feira, 4 de março de 2026

Eleições não são concursos de virtude, são disputas por maioria, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Supor que superioridade moral garante vitória pode impedir a leitura correta do país

A crença no próprio merecimento não substitui a necessidade de convencer maiorias reais

Pesquisas eleitorais recentes que projetam um crescimento das intenções de voto em Flávio Bolsonaro no segundo turno, em hipotético confronto direto com Lula, incomodaram bastante a esquerda. Ora, estamos falando de projeção de segundo turno, que está entre as coisas mais hipotéticas e incertas do universo das sondagens eleitorais, ainda mais a esta distância do pleito. Por que, então, uma recepção tão alarmada da notícia?

Provavelmente porque muitos desse lado já andam, há tempo, de mãos dadas com a certeza de que Lula ganhará a eleição. Uma previsão eleitoral que não é vista como estimativa probabilística, mas como marcador moral e identitário: quem é do grupo tem que acreditar. Por isso, a informação que sugere que a derrota é possível produz tensão simbólica e afetiva notável, pois representa ameaça à identidade coletiva.

Diante dela, o primeiro movimento será, portanto, o de defender as próprias certezas. As formas clássicas de fazê-lo incluem a negação da evidência empírica, a desqualificação da fonte da informação e o reforço do otimismo. Afinal, a previsão de que Lula vencerá a eleição integra um conjunto de certezas identitárias: somos maioria, o povo está conosco, a história está do nosso lado.

A hipótese da derrota desafia tudo isso e instala um ceticismo desconfortável: talvez a esquerda não tenha o coração da maioria. Talvez sua leitura do país esteja equivocada. Talvez não represente "o povo". Pode ser que o adversário tenha base social real —e que a esquerda hoje pregue apenas para os convertidos, distanciando-se de públicos decisivos como o agro, o sistema financeiro, os evangélicos e os conservadores.

Acho até que a crença dominante é ainda mais forte: "Lula não apenas vai ganhar; ele é o único que merece ganhar". O conflito aqui se desloca para o plano moral. A hipótese de que Lula pode perder a eleição não é mera previsão pessimista, mas desafio a uma convicção normativa: a certeza de que ele é o candidato justo, legítimo e moralmente superior.

Ora, para quem considera que mérito moral deve coincidir com vitória eleitoral, um cenário que frustre isso é afronta à ordem moral imaginada. Isso atinge em cheio a ideia de justiça política. Admitir a derrota aqui será como admitir que a maioria pode estar equivocada; que a própria leitura moral do país pode ser ilusória; que o vínculo entre virtude e maioria pode não existir. A afirmação de que o mais merecedor pode perder é interpretada como relativização do merecimento, equivalência moral entre candidatos —coisa inadmissível— ou naturalização de um resultado injusto.

Isso vale ainda mais em ambientes polarizados, em que a previsão de vitória se confunde com afirmação de superioridade moral e representação autêntica do povo. A hipótese de derrota põe em crise a convicção segundo a qual o nosso lado encarna o povo, a justiça ou a história.

Isso, naturalmente, vale para qualquer posição que parta do mesmo pressuposto. O bolsonarismo enfrentou a ultrajante hipótese da derrota afirmando "haverá fraude", "o sistema está contra nós" e "a mídia sabotou". Os lulistas se escudam em "o povo será enganado", "a Faria Lima mexeu os pauzinhos" e "a mídia naturalizou o bolsonarismo".

São consideradas inadmissíveis as hipóteses mais elementares: a sociedade está dividida; um contingente expressivo de eleitores prefere valores não progressistas; há fadiga de material quando o petismo oferece o mesmo candidato à Presidência pela sétima vez desde 1989; a esquerda não tem sido capaz de oferecer soluções convincentes para certas urgências sociais; o bolsonarismo representa indignação social extensa; o PT fala cada vez mais para dentro.

Temos razões históricas recentes para considerar o bolsonarismo uma ameaça democrática e para reconhecer que seu método de disputar eleições não reconhece limites nem admite escrúpulos. Mas isso em nada altera o fato de que ele tem base política, consegue criar identificação com setores relevantes da sociedade, é muito competente na comunicação popular e convenceu parcela significativa do eleitorado de que representa seus interesses.

Admitir isso implicaria deslocar o problema, de volta, do plano moral para o plano político —algo que, para a esquerda, curiosamente, é muito custoso. Talvez porque tenha regredido na capacidade de inflamar a imaginação das pessoas, de se comunicar com novos públicos e novas agendas sociais, de revisar a própria leitura do país. Muito mais fácil viver da crença de que, como o outro lado não merece vencer, nós ganharemos.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.