Por Vagner Gomes / Edição e introdução: Marcio Junior
Mais uma cerimônia de entrega dos Prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar, se aproxima. Fechando a temporada anual de premiações concedidas às produções cinematográficas, é considerada a principal distinção da indústria cinematográfica mundial e reúne produções, diretores, atores e técnicos que se destacaram ao longo do último ano. Além do reconhecimento artístico, o evento costuma mobilizar grande atenção da imprensa e do público, funcionando também como um momento de visibilidade para debates mais amplos sobre cultura, sociedade e política nos Estados Unidos e no mundo.
Talvez surpreendentemente, a safra de filmes
produzidos entre a última cerimônia do Oscar e a que ocorrerá neste domingo
(15) foi de excelente qualidade. Nesse conjunto, o Brasil ocupa lugar
importante com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, um ano depois
de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, sagrar-se vencedor na categoria de
Melhor Filme Internacional, além da presença de Adolpho Veloso, diretor de
fotografia em destaque na temporada de premiações por Sonhos de Trem,
dirigido por Clint Bentley. O Agente Secreto e Adolpho figurarem
entre essas obras não é pouca coisa.
Já se tornou tradição o Voto Positivo entrevistar
o professor Pablo Spinelli às vésperas do Oscar. Doutorando em Ciência Política
pela UNIRIO e também colunista do blog, Spinelli consolidou-se como nosso
principal intérprete da premiação. Desta vez, porém, ele fala diante de um
cenário internacional ainda mais difícil, ainda mais aprofundado por guerras e
pelo uso da força em detrimento da via diplomática, no qual o Brasil pode
contribuir com suas vocações civilizatórias. “Até hoje eles não entendem como
um país do Sul do Mundo conseguiu manter a sua democracia”, diz, “somos o
espelho invertido deles, pela constituição de nosso iberismo e americanismo
aqui.”
Confira a entrevista:
Em 2022, numa atitude curiosa, a Academia
permitiu um discurso de Volodimir Zelensky sobre a crise na Ucrânia. Você acha
que seria o momento dos iranianos reivindicarem o mesmo tratamento?
Foi aberto um precedente perigoso. Foi no
governo Biden, não? Olhemos no que deu essa sandice. A Academia é o espírito da
sua época. Crise de 29, II Guerra, Direitos Civis, Vietnã, Anos Reagan. Está
tudo nas indicações, no formato das premiações, nos apresentadores. O cenário
atual é da antipolítica, da aposta na polarização afetiva: a destruição do que
não gosto é mais importante do que a vitória do que apoio. Eis a Ucrânia, que
hoje está de pires na mão. Essa cerimônia servirá para os historiadores
apontarem como Trump voltou.
Diante desse cenário internacional que abre nossa entrevista, qual o significado das cinco indicações de brasileiros, um recorde histórico, no Oscar de 2026?
É um caminho de longa travessia. O
Pagador de Promessas nos anos 1960. Hector Babenco, um cineasta que
precisa ser revisto pelos jovens, nos anos 80. A retomada dos anos 1990
com O Quatrilho e até o fraco O que é isso, companheiro?. E
tivemos as Fernandas e Walter Salles para agora termos esse recorde com a
fotografia de Sonhos de Trem e as indicações de O Agente Secreto.
Temos uma fortuna. A Academia tem “ondas”. Foram os italianos, os suecos; os
iranianos, os sul-coreanos e nós agora. Até hoje eles não entendem como um país
do Sul do Mundo conseguiu manter a sua democracia, como as instituições
funcionaram. Isso não quer dizer que sempre foi assim tal como esse olhar da
conjuntura dos americanos em nós. Além disso, a despeito de ranços ideológicos,
soubemos fazer melhor uma propaganda mundial..
Um brasileiro, Adolpho Veloso, vencer o Oscar na categoria de Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem não seria uma resposta benjaminiana ao cenário internacional conflituoso?
Você cita o filósofo alemão Walter Benjamin,
um amante do cinema, da fotografia e da história. Creio que Veloso teve a
proeza de, ao fotografar um filme, dar um ritmo e identidade a ele. Algo que
poucos conseguem fazer, como os lendários Sven Nykvist, Vilmos Zsigmond,
Vittorio Storaro fizeram em obras-primas. Creio que ele teve a sensibilidade de
resgatar uma utopia dos EUA do homem comum, da relação com a natureza que
remonta Mark Twain, Walt Whitman e J D Salinger. Mais uma demonstração que
talvez saibamos mais da América do que eles nesse momento. Somos o Espelho
invertido deles, pela constituição de nosso iberismo e americanismo aqui.
O filme O Agente Secreto não foi recebido pelo público brasileiro de forma tão positiva quanto Ainda estou Aqui. Na hipótese de alguma vitória nas suas quatro indicações, você acha que o público irá ao cinema assistir ao filme de Kleber Mendonça?
Engraçado que não está uma final de Copa como
no ano passado, não? O filme atual é mais difícil, um olhar humanista sim, mas
com toada europeia. Resgata o papel do historiador, de como aqueles que foram
esquecidos ou ignorados podem ser redescobertos no futuro. Creio que uma das
diferenças dos filmes é também a semelhança entre os dois: ambos falam de
família. Mas o Ainda é a unidade na diversidade e adversidade,
já O Agente vive o esfacelamento, a fratura, o esquecimento. É um
filme com muitas camadas. Muitos não entenderam que o ator fez 3 personagens no
mesmo filme. Vai levar o Melhor Filme Internacional. Seremos bi na terra de
penta.
Qual Diretor, em sua opinião, se destaca no Oscar 2026?
O meu destaque é a Chloe Zhao. Depois de um
filme bom de crítica e ruim de público (Nomadland) e ruim dos dois (Eternos)
ela fez um golaço com Hammet. O tema do amor, do luto, o trabalho em
cores, o uso dos sons, tudo ali é bem-posto. O Josh Safdie (Marty Supreme) fez
um filme muito bom, o do jovem arrivista egoísta, um retrato do que temo seja
de pior da juventude hoje. Ryan Coogler é o herdeiro do Spike Lee, para o bem e
para o mal. Quem está na fila é o Paul Thomas Anderson, que vai ganhar o Oscar
merecido pelo filme errado. Sangue Negro é anos-luz melhor que Uma
batalha após a Outra.
Quem, em sua opinião, é favorita ao Oscar de melhor atriz esse ano?
Jessie Buckley já pode guardar um espaço na estante. Tirando Emma Stone e Renate Reinsve, as demais estão em filmes que não tiveram projeção com outras estatuetas. A Jessie Buckley, mesmo com o cacoete de falar de lado, é uma força da natureza em Hammet. Não precisamos de lugar de fala para sentir a dor daquela mãe diante da perda de um filho.
Teremos baiano ganhando o Oscar esse ano?
Não. Caetano e Carlinhos Brown estiveram na
cerimônia no passado. Wagner Moura é o ator de maior projeção internacional, o
que não é pouco. O Oscar está caminhando para Michael B. Jordan (Pecadores)
depois da falta de responsabilidade e arrogância de Timothee Chalamet (Marty
Supreme). E será um Oscar merecido. Um ator que faz dois irmãos gêmeos de
perfis diferentes e que independente do figurino você sabe quem é quem, não é
fácil. Oscar de interpretação geralmente é dado por reconhecimento pelos
serviços prestados ou aposta no futuro. Os dois favoritos estão no segundo
motivo. Muito bons atores, mas a gestão de carreira do Chalamet é frágil. E
olha que pediu desculpas por ter trabalhado com Woody Allen!
Ainda teremos uma chance na categoria Melhor Filme Internacional?
É a melhor aposta. Por um motivo simples. A
distribuidora teve dois trunfos na mão: O Agente Secreto e Valor
Sentimental. Preferiu focar no primeiro para Filme Internacional e no segundo
para a pragmática indicação de ator coadjuvante. Agora, Trump – e a política de
Obama-Biden – pode dar esse Oscar para o Irã? Pode. Muito difícil, mas pode.
De todas as indicações ao Oscar 2026, qual seria a grande “derrapada” da Academia nesse ano?
Ah, sempre tem várias. A distopia Uma
Batalha após a Outra merecia tantas indicações? Vai envelhecer bem? O
nosso roteiro poderia ter sido indicado, não? A direção de elenco é algo que
foi criado para ser o Urso de Prata deles, o segundo colocado. Kate Hudson ser
indicada a melhor atriz. O descaso com a adaptação sul-coreana de O Corte de
Costa-Gravas, A Única Saída, do Park Chan-wook. A ausência de Paul Mescal
por Hamnet.
Por fim, quem tem mais chances de ganhar a estatueta por melhor Filme?
Esse ano está em Uma Batalha após a
Outra e Pecadores. Pode acontecer de um ganhar filme e o outro direção.
Ambos são filmes que dizem muito do contexto atual, mas seus caminhos apontam
para o sectarismo. A bem da verdade, não entendo (e ainda bem) como Uma
Batalha não foi cancelado por parte dos movimentos sociais. A protagonista
negra tem muitas camadas e se relaciona com dois brancos de lados ideológicos
distintos; tem a caricatura do militante moderno, sentado no sofá se drogando.
O ponto alto desse filme é justamente o fascista magnificamente vivido por Sean
Penn rumo ao seu terceiro Oscar.

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