O Globo
Todos os artifícios possíveis foram,
rigorosamente, usados para manter, à frente do estado, o agora ex-governador e
seu grupo político
O Rio de Janeiro experimenta o golpismo
continuado desde a corrida eleitoral de 2022, que garantiu ao bolsonarista
Cláudio Castro (PL) a reeleição. Todos os artifícios possíveis foram,
rigorosamente, usados para manter, à frente do estado, o agora ex-governador e
seu grupo político. No julgamento, que decidiria sobre o inédito modelo de
escolha de um titular para o Palácio Guanabara, no restante do ano-calendário
de 2026, num território sem governador, sem vice e sem presidente da Assembleia
Legislativa, coube ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal
(STF), retirar da farsa o véu numa senha de três palavras:
— Desvio de finalidade.
Moraes considerou indevida a renúncia de
Castro na véspera do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que o
tornou inelegível por oito anos por abuso de poder político e econômico,
condutas vedadas e captação ilícita de recursos. Ele só não foi cassado porque
desistiu do cargo. Abriu mão da cadeira para, de um lado, evitar os efeitos da
cassação; de outro, garantir a permanência de aliados no poder, por meio de
eleição indireta. Golpe.
Nos últimos anos, uma gama de ardis jurídicos
e políticos foi usada para que a máquina pública fluminense permanecesse sob
domínio da aliança que assumiu o Rio na esteira da onda que, em 2018, levou ao
Planalto Jair Bolsonaro — desde ontem, em prisão domiciliar por tramar um golpe
contra a democracia. Castro assumiu o governo em substituição a Wilson Witzel,
que sofreu impeachment em 2021.
Castro foi reeleito em primeiro turno, com
quase 60% dos votos, alavancado por um esquema que usou não só a estrutura
administrativa, mas recursos financeiros do estado para remunerar cabos
eleitorais. A fraude, denunciada inicialmente pelos repórteres Ruben Berta e
Igor Mello, do portal UOL, envolveu a contratação de mais 27 mil terceirizados
pela Fundação Ceperj, órgão estadual de estatísticas, e pela Uerj, segundo o
Ministério Público Eleitoral. Para dificultar a identificação, os funcionários
eram pagos como autônomos e recebiam remuneração em dinheiro, diretamente em
agências bancárias. Golpe.
Quase dois anos depois de Castro assumir o
segundo mandato, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) livrou da cassação o
governador, o vice Thiago Pampolha e o deputado Rodrigo Bacellar, então
presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Os desembargadores não
viram repercussão nas urnas das irregularidades cometidas no Ceperj e na Uerj.
Qual o nome para isso?
O caso chegou ao TSE apenas no ano passado.
Pedidos de vista empurraram o veredito para esta semana. A linha sucessória
foi, ao longo do tempo, oportunisticamente implodida. Primeiro da fila, o vice
mudou-se para o Tribunal de Contas do Estado. Bacellar, o segundo, investigado
pela Polícia Federal por envolvimento com o Comando Vermelho e afastado pelo
STF da presidência da Alerj, licenciou-se seguidas vezes do cargo, para manter
o substituto como interino. Pode chamar de golpe?
Assim, o governo do Rio foi parar nas mãos do
terceiro na linha sucessória, o presidente do Tribunal de Justiça,
desembargador Ricardo Couto. O grupo de Castro ainda tentou surrupiar-lhe a
função. Às pressas, anteontem, elegeu Douglas Ruas (PL) presidente da Alerj no
lugar de Bacellar, agora cassado pelo TSE e novamente preso, para torná-lo
governador. O nome é golpe.
Os ministros Gilmar Mendes, Flávio Dino e
Cristiano Zanin acompanharam o voto divergente no plenário virtual que
escancarou a armação de Castro e companhia. Como, no entendimento de Moraes, a
vacância tem causa política, para influenciar na sucessão, deve valer o Código
Eleitoral. Em vez de decidir as regras de um pleito indireto, em que os
deputados estaduais de uma Alerj dominada escolheriam secretamente o titular do
mandato-tampão, os ministros preferiram defender a eleição direta. É forma de
emprestar legitimidade ao processo e restabelecer o direito surrupiado do povo
fluminense pelo golpismo continuado.
O placar no STF pela eleição indireta está em
6 a 4. Até segunda-feira, outros ministros podem reformar os próprios votos
para fazer o Rio ir às urnas antes de outubro. O que, desde já, não deixa
dúvida é a estrutura miliciana que orienta Executivo, Legislativo e até a
Justiça no estado. Trama, controla e domina a máquina oficial, tal como grupos
armados submetem territórios populares, da economia às urnas, nos quatro cantos
da Região Metropolitana. Cientes estamos todos, falta reagir.

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