sábado, 28 de março de 2026

Eu estava no curso errado? Por Ivan Alves Filho

Na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, de Paris), fundada por Claude Lévi-Strauss e Fernand Braudel, eu contei com dois excepcionais professores: Pierre Vilar e Maurice Godelier, muito respeitados na França e no resto do mundo. Tem mais: os estatutos da EHESS foram redigidos por Roland Barthes.Tive a sorte de integrar a primeira turma da EHESS, uma escola ou instituto de excelência, realmente. Isso se deu no ano letivo de 1974/1975

Profundo conhecedor de História Econômica, Pierre Vilar foi, ao lado de Eric Hobsbawm, o historiador marxista de maior peso no século XX. Sua trajetória impressiona. Assim, Vilar pertenceu à célebre revista Annales, trabalhando ao lado de Lucien Febvre e Marc Bloch. Era um admirador da obra de Ernest Labrousse, destacando sua contribuição inigualável para o conhecimento da Revolução Francesa de 1789, ao estudar a série estatística sobre o recuo da produção de trigo no país. Labrousse comprovou que a Revolução de 1789 estourou quando se deu um recuo nas forças produtivas da França, frustrando as aspirações de consumo das massas. Ou seja, a revolução não estoura na penúria nem na abundância: se existe uma lei do processo revolucionário, essa tem que ver com a quebra ou reversão da expectativa das massas populares. Nesse sentido, o empobrecimento pode ser ainda pior do que a pobreza propriamente dita. Autor dos clássicos Ouro e moeda na História: 1540 – 1920 e Desenvolvimento Económico e Análise Histórica (este último citado aqui em edição portuguesa), Pierre Vilar ficou preso em vários campos de concentração nazistas, entre 1940 e 1945. Naturalmente, essa experiência o marcou muito. O próprio Marc Bloch seria torturado e depois fuzilado em um campo de concentração. 

Quanto a Maurice Godelier, ele pesquisou nos arquivos que guardam manuscritos de Karl Marx, organizando em particular os textos do revolucionário e pensador alemão relativos ao Modo de Produção Asiático (MPA), fundamentais para a compreensão da transição da sociedade sem classes para a sociedade de classes. Eu me recordo que Maurice Godelier considerava que o antropólogo Lévi-Strauss, de quem fora assistente por alguns anos, se encontrava “na mesma ordem de grandeza de Karl Marx”. Godelier lembrava com frequência que o homem, diferentemente dos demais primatas, não se limitava a viver em sociedade, mas produzia sociedade para poder viver. 

Sem dúvida a EHESS reunia o que havia de melhor em matéria de ensino no país, juntamente com o Collège de France e a Science Po. Situada na Rue du Bac, em pleno Quartier Latin, estava rodeada de livrarias como a Joie de Lire, do também editor François Maspero, e salas de cinema da melhor qualidade. Sozinha, a Rue du Bac valia por uma aula – e que aula! – de Literatura: ali viveu Mme Staël, por cerca de dez anos. E nesta rua morreu, nos braços da sua amada Juliette Récamier, François-René de Chateaubriand. Mais: nela morou ainda André Malraux, quando ali escreveu A Condição humana.  O norte-americano James Baldwin se hospedou por um período no Grand Hôtel da Rue du Bac. Romain Gary, estupendo romancista, morava na Rue du Bac. 

Há momentos em que acredito ter me matriculado no curso errado..

*Ivan Alves Filho, historiador

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