O Globo
Habermas definia como dupla função do que
chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação
Esfera pública é um conceito difundido pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (falecido no sábado aos 96 anos). Define o espaço em que os assuntos públicos são discutidos pelos atores, públicos e privados, levando à formação da opinião pública, que reflete os anseios da sociedade civil, pressionando os governos. Esse conceito é fundamental para compreendermos o papel do jornalismo, que Habermas entendia como mediação entre Estado e sociedade civil. Ele definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação.
No texto “O valor da notícia”, ressalta que
estudo sobre fluxos de comunicação mostra que, ao menos no âmbito da
comunicação política, a imprensa de qualidade desempenha papel de “liderança”.
O noticiário político de rádio e TV depende dos temas e das contribuições
provenientes do que chama de jornalismo “argumentativo”. Sem o impulso de uma
imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável
e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia,
dizia Habermas.
O tema, sempre central em sua obra, levou-o a
escrever um último livro intitulado “Uma nova mudança estrutural da esfera
pública”, em que se dedica a analisar as consequências da comunicação digital
na sociedade moderna. O filósofo francês Jean Baudrillard já advertia que “a
desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua
repetição em círculos”. Pois Habermas registrou que as redes geram “ruídos
incessantes em bolhas de opinião autossustentáveis”, levando a esfera pública a
se fragmentar sob o domínio das big techs, que têm compromisso apenas com o
lucro, provocando degeneração da democracia.
Para Habermas, a legitimidade da democracia
depende da comunicação entre a sociedade civil e o centro de poder, deteriorada
pelos ruídos da polarização estimulada pelas redes sociais. A importância de
uma imprensa livre e profissional na produção de informação confiável é
essencial para o funcionamento da esfera pública e da democracia, afirmava
Habermas. O conceito de degradação da esfera pública pode ser aplicado a
cenários como o uso indevido de canais de comunicação por figuras públicas para
misturar interesses pessoais e privados, como acesso de familiares de políticos
a redes sociais oficiais, ou os casos de corrupção como acompanhamos com o
Banco Master, com diversas figuras públicas envolvidas.
Frequentemente o ambiente político brasileiro
é afetado por ações estratégicas (focadas apenas no poder/sucesso individual ou
partidário) em detrimento de uma ação comunicativa voltada para o entendimento
mútuo, conceito central na obra de Habermas, referência para defender o
jornalismo profissional e a democracia contra investidas populistas ou
autoritárias. O filósofo alemão revelou, em artigos, seu temor de que os
mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade, segundo
ele, até hoje desempenhou.
A tal ponto que Habermas chegou a sugerir que
os governos democráticos deveriam subsidiar os jornais “de qualidade” para
garantir que se encarreguem de continuar alimentando a esfera pública para o
debate das grandes questões. A proposta tinha por base a tese de que uma
imprensa livre é vital para uma sociedade democrática. A ideia não foi adiante,
e o próprio Habermas admitiu que a possibilidade de manipulação desse estímulo
oficial poderia interferir nesse debate, o deslegitimando.

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