O Globo
Encontro entre Lula e Trump, ainda sem data
marcada, tem tanta casca de banana que desfecho favorável ao Brasil parece
improvável
O encontro entre Donald Trump e Lula,
anunciado, mas até agora não marcado nem confirmado, vai se configurando como
evento de consequências imprevisíveis e ganho improvável para o Brasil, dadas
as muitas possibilidades de cascas de bananas em que o presidente brasileiro
pode tropeçar.
A primeira delas é, obviamente, a guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, já na terceira semana, sem perspectiva de desfecho, com impacto brutal sobre o fluxo de petróleo global e, consequentemente, sobre os preços dos combustíveis e outros derivados.
Trump, fiel a seu estilo, radicaliza. Cobra
apoio militar e midiático. Diante das evidências de desgaste de sua imagem,
lança outras pautas diversionistas e igualmente preocupantes, aumentando a
instabilidade do cenário internacional. Se não bastasse, simultaneamente vai
“sugerindo” temas que poderiam ser tratados no tête-à-tête com Lula que têm
tudo para gerar novos contenciosos, e não algum dividendo para o Brasil.
A maior possibilidade de que a conversa desande
vem da ideia, ainda não detalhada, de enquadrar organizações criminosas
brasileiras como grupos terroristas. Não se trata apenas de semântica. Aceitar
essa lógica abre a porta à cooperação securitária sob parâmetros definidos por
Washington e, no limite, para ingerência sobre políticas de segurança pública
que são, por definição, soberanas dos países.
Como a quantidade de surpresas que se pode
ter num diálogo com alguém tão imprevisível quanto Trump é ilimitada, surgiu na
semana passada outra ideia absurda: o Brasil receber deportados de outros
países. Sob o discurso de “cooperação”, tenta-se exportar um baita problema
doméstico. Sem falar no fato de que a política anti-imigração violenta do
republicano não conta com aval ideológico da administração Lula nem amparo na
tradição diplomática brasileira. Não há como uma conversa nessa direção
avançar.
Lula tentou fazer novo apelo, na
segunda-feira, à necessidade de integração sul-americana para fazer frente à
implosão do multilateralismo empreendida pelos Estados Unidos dia a dia. A nova
investida nessa direção veio com a sugestão, por parte de Trump, de que ele
pode anexar Cuba a qualquer momento e fazer o que bem entender no país — que,
como se sabe e goste-se ou não, tem laços antigos com o presidente brasileiro e
o PT.
O novo contencioso se soma a outros, com
Venezuela e Colômbia, para ficar só nos vizinhos mais próximos. A simples
associação do Brasil a essa escalada, ainda que por omissão, cobraria um preço
na liderança que o país vem procurando consolidar na região.
A guerra com o Irã já impacta os preços dos
combustíveis por aqui e, desde a semana passada, o governo tenta, sem muito
êxito, fechar um pacote que evite um surto inflacionário, adie a esperada queda
dos juros e influencie o humor do eleitor.
Como, então, Lula deve jogar esse jogo? O
primeiro movimento é evitar que tanta divergência descambe em confronto. O
brasileiro não tem como endossar quase nada da agenda Trump, e, se o encontro
for exacerbar as divergências ideológicas, o melhor para o Brasil é empurrá-lo
com a barriga ou simplesmente não realizá-lo.
Caso os dois fiquem mesmo frente a frente, o
caminho possível para desviar das armadilhas é sorrir para fotos, tentar
negociar a agenda de interesse exclusivo do Brasil e fazer a defesa protocolar
do receituário clássico: multilateralismo, solução negociada de conflitos,
respeito à soberania, tudo aquilo que Trump abomina. Para isso, é preciso
delimitar previamente a pauta, deixando claro que questões internas, como
segurança pública, não estão à mesa.
A preocupação mais imediata é econômica:
evitar que qualquer azedume numa conversa em que os dois interlocutores
divergem em tudo acabe gerando novas sanções contra o Brasil, na forma de
barreiras comerciais, retaliações tarifárias ou perda de acesso a mercados.
Tanta complicação para um mero encontro acaba com qualquer “química” que tenha
um dia existido entre ambos. Na verdade, só mostra que esse papo sempre soou
forçado demais.

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