quarta-feira, 18 de março de 2026

Haja 'química' para tanto pepino, por Vera Magalhães

O Globo

Encontro entre Lula e Trump, ainda sem data marcada, tem tanta casca de banana que desfecho favorável ao Brasil parece improvável

O encontro entre Donald Trump e Lula, anunciado, mas até agora não marcado nem confirmado, vai se configurando como evento de consequências imprevisíveis e ganho improvável para o Brasil, dadas as muitas possibilidades de cascas de bananas em que o presidente brasileiro pode tropeçar.

A primeira delas é, obviamente, a guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, já na terceira semana, sem perspectiva de desfecho, com impacto brutal sobre o fluxo de petróleo global e, consequentemente, sobre os preços dos combustíveis e outros derivados.

Trump, fiel a seu estilo, radicaliza. Cobra apoio militar e midiático. Diante das evidências de desgaste de sua imagem, lança outras pautas diversionistas e igualmente preocupantes, aumentando a instabilidade do cenário internacional. Se não bastasse, simultaneamente vai “sugerindo” temas que poderiam ser tratados no tête-à-tête com Lula que têm tudo para gerar novos contenciosos, e não algum dividendo para o Brasil.

A maior possibilidade de que a conversa desande vem da ideia, ainda não detalhada, de enquadrar organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. Não se trata apenas de semântica. Aceitar essa lógica abre a porta à cooperação securitária sob parâmetros definidos por Washington e, no limite, para ingerência sobre políticas de segurança pública que são, por definição, soberanas dos países.

Como a quantidade de surpresas que se pode ter num diálogo com alguém tão imprevisível quanto Trump é ilimitada, surgiu na semana passada outra ideia absurda: o Brasil receber deportados de outros países. Sob o discurso de “cooperação”, tenta-se exportar um baita problema doméstico. Sem falar no fato de que a política anti-imigração violenta do republicano não conta com aval ideológico da administração Lula nem amparo na tradição diplomática brasileira. Não há como uma conversa nessa direção avançar. 

Lula tentou fazer novo apelo, na segunda-feira, à necessidade de integração sul-americana para fazer frente à implosão do multilateralismo empreendida pelos Estados Unidos dia a dia. A nova investida nessa direção veio com a sugestão, por parte de Trump, de que ele pode anexar Cuba a qualquer momento e fazer o que bem entender no país — que, como se sabe e goste-se ou não, tem laços antigos com o presidente brasileiro e o PT.

O novo contencioso se soma a outros, com Venezuela e Colômbia, para ficar só nos vizinhos mais próximos. A simples associação do Brasil a essa escalada, ainda que por omissão, cobraria um preço na liderança que o país vem procurando consolidar na região.

A guerra com o Irã já impacta os preços dos combustíveis por aqui e, desde a semana passada, o governo tenta, sem muito êxito, fechar um pacote que evite um surto inflacionário, adie a esperada queda dos juros e influencie o humor do eleitor.

Como, então, Lula deve jogar esse jogo? O primeiro movimento é evitar que tanta divergência descambe em confronto. O brasileiro não tem como endossar quase nada da agenda Trump, e, se o encontro for exacerbar as divergências ideológicas, o melhor para o Brasil é empurrá-lo com a barriga ou simplesmente não realizá-lo.

Caso os dois fiquem mesmo frente a frente, o caminho possível para desviar das armadilhas é sorrir para fotos, tentar negociar a agenda de interesse exclusivo do Brasil e fazer a defesa protocolar do receituário clássico: multilateralismo, solução negociada de conflitos, respeito à soberania, tudo aquilo que Trump abomina. Para isso, é preciso delimitar previamente a pauta, deixando claro que questões internas, como segurança pública, não estão à mesa.

A preocupação mais imediata é econômica: evitar que qualquer azedume numa conversa em que os dois interlocutores divergem em tudo acabe gerando novas sanções contra o Brasil, na forma de barreiras comerciais, retaliações tarifárias ou perda de acesso a mercados. Tanta complicação para um mero encontro acaba com qualquer “química” que tenha um dia existido entre ambos. Na verdade, só mostra que esse papo sempre soou forçado demais.

  

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