O Globo
A tática dos EUA é intimidar e favorecer um
governo mais flexível aos interesses imperiais
Quem tem memória lembra bem a guerra do
Iraque. Colin Powell foi à ONU com
umas fotos estranhas, para demonstrar que Saddam Hussein tinha armas de
destruição maciça. Agora, Donald Trump,
de boné com a inscrição “USA”, afirma que o Irã é uma ameaça nuclear à
segurança do povo americano.
Saddam não tinha armas de destruição maciça. E a capacidade nuclear do Irã, segundo a própria inteligência americana, foi retardada em décadas pelos bombardeios de 2025. Tanto a guerra no Iraque como a no Irã são guerras de escolha. Na avaliação de Trump, o governo dos aiatolás, que massacrou recentemente centenas de manifestantes, está mais fraco.
Neste momento em que todos buscam notícias e
em que, como no início de guerras, elas são muito desencontradas, creio ser
possível demonstrar um tipo de angústia que domina os iranianos. Eu intuía
isso, mas escrevo agora baseado em depoimentos deles, postados no fim de semana
passado. Um desses depoimentos diz:
— Como iraniano, posso afirmar que a situação
não é mais apenas política, mas existencial. Caímos numa armadilha de duas
estruturas em colapso, uma interna, outra externa.
O depoimento mostra que a esperança interna
foi dissipada pela constante repressão às tentativas de reforma. Mas acentua aí
o paradoxo: estão aterrorizados pelo colapso do regime injusto porque conhecem
os resultados das intervenções ocidentais em países como Iraque, Líbia, Síria e
Afeganistão.
O depoimento afirma ainda que os iranianos
não confiam nos Estados Unidos e
em Israel.
Não porque apoiem o regime repressor do Irã, mas porque sabem como os poderes
imperiais tratam as nações “liberadas” do Oriente Médio.
O que aparece para muitos iranianos é um dilema
entre a terrível repressão dos aiatolás e a alternativa oferecida pelos
ocidentais, que não é liberação, mas colapso. Para eles, o país é refém de um
regime, como se vivessem numa casa de ódio, aterrorizados pelo fogo exterior —
pelo destino de seus vizinhos.
Essa visão interna do Irã nos ajuda a
compreender como é difícil obter um dos objetivos de Trump: a mudança de
regime. Uma chuva de bombas, inclusive algumas que atingem escolas e hospitais,
não consegue mudar o regime, mesmo matando seu líder máximo, um homem velho e
doente, cuja substituição já era preparada.
No fundo, a política externa de Trump usa o
termo mudança de regime como retórica. A tática é intimidar e favorecer um
governo mais flexível aos interesses imperiais, como na Venezuela. Trump
inaugurou uma política de violência, baseada em intimidação, bombardeio e ações
de comando. Mas tem uma limitação evidente: seus eleitores não perdoariam as
botas no terreno, uma invasão real.
Alguns do movimento Make America Great Again
já não apoiam nem a própria guerra do Irã, vista como de interesse apenas de
Israel.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.