Por Folha de S. Paulo
Guerra e efeitos sobre combustíveis até agora
preocupam parte pequena do eleitorado
Isenção do IR e medidas sociais não ajudam a
melhorar imagem e votação de Lula
A cúpula do governo Lula e militantes estão desnorteados com o resultado desanimador das pesquisas de voto e de opinião sobre o desempenho do presidente. A depender do levantamento, entre 45% e 55% do eleitorado diz que de modo algum votaria em Lula 4 —a variação é grande, pois perguntas e metodologias diferem. Os pacotes socioeconômicos não fazem efeito positivo. Agora, o governo teme até que Jair Bolsonaro morra antes da eleição.
Um azar: pesquisas públicas e levantamentos
de frequência maior e amostra menor, mais reservados, indicam que parte do
eleitorado associa a bandalha do Master ao governo. Corrupção não raro é tida
como "coisa de governo", de "políticos". Cai em parte na
conta do presidente da vez, não importam fatos básicos.
Um fato básico do Master é que mais de 90%
dos envolvidos, dos suspeitos e dos amigos operantes de Daniel
Vorcaro por ora conhecidos são
do centrão e do direitão. Dos mesmos partidos que meteram a mão no mensalão
e no petrolão e governaram com Jair Bolsonaro.
Sorte duvidosa: pesquisas rápidas e
levantamentos nas redes indicam que o povo em geral até agora liga pouco para
guerra e preço de combustível. Pode ser. Pouca gente, dado o tamanho da
população, compra diesel. O efeito
da carestia desse combustível aparecerá, se for o caso, nos alimentos. A
gasolina encareceu, mas até agora não de modo chocante.
Problema grave seria a falta mais disseminada
de diesel. O governo quer remediar o problema com subsídio, pelo menos até
meados do ano. O subsídio federal direto, de R$ 0,32 por litro, mais um subsídio
"rachado" com os estados de R$ 1,20 por litro não incentivam
importação suficiente de diesel, dizem importadores, que são interessados no
assunto, porém. Não há dados públicos que permitam medida independente do risco
de escassez.
Essa gambiarra pode funcionar por um ou dois
meses, se os combustíveis não ficarem ainda mais caros no mundo. O risco é de
acordar tarde para o escândalo mortal do desabastecimento. Ou de meter os pés
pelas mãos, se animar com mais subsídios e dar ordens para a Petrobras engolir
o prejuízo de importar caro para vender barato aqui —pode até dar rolo legal.
Enfim, o governo deu chutes na direção do
gol, mas não marcou.
O efeito da isenção do Imposto de
Renda até agora mal aparece em pesquisas, embora a redução recorrente
do desconto talvez ainda venha a comover alguns eleitores de classe média,
muitos com ojeriza a Lula e a esquerdas.
O entorno de Lula se irrita de novo com o Banco
Central, que, no entanto, o salvou de carestia mortífera. Aponta o dedo
para juros e
seu impacto no aumento do peso do pagamento do serviço da dívida (juros e
amortização) no orçamento das pessoas, ora "recorde".
Mas nem esse peso aumentou de modo lá tão
relevante de 2023 para cá nem essa estatística do BC permite deduções precisas
do efeito social de juros e dívidas, que são ruins, claro. É difícil explicar
por aí a piora do prestígio de Lula. Goste-se ou não da política econômica e de
seus efeitos ruins no médio prazo, o aumento da renda e a redução da pobreza
foram grandes. Mas não colaram.
A inflação de alimentos era de mais de 8% ao
ano em dezembro de 2024, final de ano que lascou o prestígio do governo de modo
aparentemente duradouro. Agora, está em zero. Talvez, o povo ache apenas que
saiu um bode da sala, que não ganhou nada. Enfim, um terço do eleitorado não
votará em Lula nem que chova picanha.
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