quinta-feira, 12 de março de 2026

Nada a comemorar no castelo da insensatez, por José Serra

O Estado de S. Paulo

Este início de ano tem mostrado que a palavra ‘civilizados’ não pode ser empregada para os atos das autoridades deste planeta

A primeira metade do século passado pode ser caracterizada como um pesadelo coletivo. Ela foi repleta de líderes que não serviam ao povo ou às instituições, mas preferiam mostrar seu ego reluzente. Também foi salpicada de partidos inconsequentes, dirigentes medíocres e empresários que viam apenas o lucro fácil, o que conduziu ao crash de 1929.

Nesses últimos anos, isso parecia coisa de um passado distante, de um tempo em que éramos muito menos civilizados e tínhamos instituições muito mais frágeis. Ledo engano: este início de ano tem mostrado que a palavra “civilizados” não pode ser empregada para os atos das autoridades deste planeta.

Será que, com todo o avanço tecnológico dos EUA e de Israel, destruir uma escola e matar dezenas de crianças não seria evitável? E isso é uma recorrência, porque hospitais foram destruídos em Gaza pela suspeita de que o Hamas os utilizasse como escudo. Talvez tenha sido o uso de inteligência artificial, mas não no sentido tecnológico, e sim na acepção de que a inteligência estava ausente.

As lideranças europeias já parecem acostumadas a ver líderes ensandecidos despejando bombas em populações indefesas. Já virou o “novo normal” a desvalorização completa da vida em prol de posições militares e, especialmente, econômicas e comerciais.

Trump calculou mal toda a sua estratégia de guerra, se é que se pode dizer que houve estratégia. E vai destruindo, com seu erro, toda a frágil estabilidade construída no Oriente Médio. É fato que a reação do Irã contra os vários países da região é descabida, norteada por uma lógica de tudo ou nada. Mas quem tem obrigações com a estabilidade da ordem mundial é o poderio americano.

E o que dizer da Europa? Talvez ela seja a maior prejudicada com a guerra. Lembremos que a guerra na Ucrânia fez com que os europeus abandonassem o gás russo e realizassem uma custosa transição para o gás liquefeito. Embora o Golfo Pérsico não seja o principal fornecedor de gás da Europa, o impacto dos problemas no Estreito de Ormuz sobre os preços é imenso. Os EUA, o maior fornecedor externo da Europa, são os grandes beneficiários do desastre energético que a guerra significa para o continente.

Salvo a honrosa exceção espanhola, os líderes europeus não conseguem nem defender suas economias nem se posicionar contra o genocídio em curso. Nem mesmo o compromisso de reagir contra um comportamento aventureiro está no ideário atual. Parece que honrar o fato de serem o berço de nossa civilização não está presente na pauta das lideranças europeias.

É lógico que o mundo pagará caro, e provavelmente os EUA também pagarão. Mesmo que não tenhamos uma nova Guerra Mundial, viveremos o mundo do mais forte, em que um presidente pode falar que “grupos de pessoas que não eram considerados alvos até este momento estão sob séria consideração para destruição completa e morte certa, devido ao mau comportamento do Irã”.

São os elementos da construção de um mundo civilizado que estão em decomposição. É a humanidade que está perdendo sua evolução para retornar a traços de um modo primitivo de existir – justamente o que Israel e EUA abominam no inimigo.

Muitos dirão que essa não é nossa guerra. Mas todos estamos nela. No caso do Brasil, alguns fazem cálculos sobre o impacto da guerra no PIB brasileiro. Haveria ganhos de balança comercial com a valorização em dólares de nossas exportações de petróleo. Haveria ganhos fiscais, posto que a Petrobras lucraria com o preço em alta do petróleo e geraria recursos em impostos, lucros e participações para o caixa do Tesouro.

A questão, no entanto, é muito mais séria. Primeiro, porque pelo Estreito de Ormuz passa muito mais que petróleo. Navios levando exportações brasileiras já enfrentam dificuldades para chegar ao destino em razão da insegurança no cenário de conflito. O acesso a fertilizantes entrou em crise desde o primeiro momento da guerra. Os efeitos sobre a economia global serão catastróficos. A incerteza do “tudo ou nada” em que este conflito se transforma já é suficiente para isso. Sem mencionar os efeitos sobre os mercados de ativos financeiros.

Mas quero chamar a atenção para os efeitos da guerra sobre o que é mais central em qualquer economia: o preço do dinheiro. Combustíveis caros têm ampla capacidade de repasse aos preços. Muitos dizem que um aumento de 10% na cotação do barril significa 0,25% a mais no índice de preços (IPCA). E o aumento já chegou a registrar 30%.

Ocorre que os que mandam no preço do dinheiro, a taxa Selic, não querem saber de discutir se a inflação é de custos, se foi por causa de um repasse que não teve início no sistema de preços brasileiro. Muitos já falam que a redução deverá aguardar para quando o cenário for mais estável.

O problema é que vivemos há muito com 10% de taxa de juro real e o Banco Central não se digna a explicar a razão de termos uma taxa de juro real, que já parece estrutural, tão alta.

Seja no mundo, seja em nosso país, a insensatez parece ser o novo normal. •

 

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