Folha de S. Paulo
Esperança é terreno movediço demais para
começar uma guerra
Caos, endurecimento do regime e guerra civil
também estão no cardápio
Penso nos meus alunos iranianos, passados e
presentes, quando olho para essa guerra. Que jovens admiráveis!
Deixaram o país que amavam porque a repressão
era imensa. As moças, então, comeram o pão que o Diabo amassou. Se você acha
que o patriarcado é um problema sério no Ocidente, experimente uma temporada
no Irã,
onde nem os cabelos estão a salvo.
Mas não são apenas os iranianos que sofrem
nas mãos do regime. Desde 1979, Teerã se converteu em um dos principais
financiadores do terrorismo internacional —Hamas, Hezbollah, houthis, milícias
xiitas no Iraque; a lista é longa. E as suas vítimas se estendem pelos quatro
cantos do mundo —do Líbano à Argentina, de Tel Aviv ao Mar Vermelho.
Se o regime cair sob as bombas americanas e israelenses, serei o último a derramar uma lágrima pela teocracia dos aiatolás. A pergunta, porém, é outra: será que vai cair?
E será que as aventuras no Afeganistão e no
Iraque não nos ensinaram nada sobre mudanças de regime no Oriente Médio?
Lembro George W. Bush exibindo a confiança
própria dos simples, dando lições de história ao pessoal no início do século
21: "Houve um tempo em que muitos afirmavam que as culturas do Japão e da
Alemanha eram incapazes de sustentar valores democráticos. Estavam errados.
Alguns dizem o mesmo do Iraque. Estão enganados".
Hoje sabemos quem se equivocou. Japão e
Alemanha só servem de exemplo se esquecermos dois ou três detalhes que não
entraram na cabeça dura dos neoconservadores.
O primeiro, bastante óbvio, é que a
democracia chegou à Alemanha e ao Japão depois de derrotas militares totais —no
caso japonês, com duas bombas atômicas—, seguidas de uma ocupação militar
prolongada, massiva, economicamente transformadora e politicamente orientada.
Mas não apenas isso. Japão e Alemanha eram
sociedades homogêneas do ponto de vista étnico e religioso, sem as divisões
profundas que empurraram o Afeganistão e o Iraque para guerras civis
prolongadas.
Como bônus, vale lembrar que alemães e
japoneses já tinham alguma experiência democrática e constitucional: a Alemanha
do Império e da República de Weimar; o Japão modernizado da era Meiji, na
segunda metade do século 19. A memória institucional é solo fértil para
sementes adormecidas.
O Iraque era o reverso de tudo isso. O
Afeganistão também. Ambos estão como estão —e, no caso de Cabul, com o Talibã
novamente aos comandos.
No Irã, Donald Trump não
pretende enviar soldados para o terreno. Qualquer ideia de ocupação está fora
dos seus cálculos. A estratégia, ao que parece, é bombardear os pontos críticos
da teocracia —infraestrutura nuclear e militar, centros de comando do regime— e
eliminar seus líderes. Muito bem. E depois?
Confesso que não conheço nenhum caso em que
uma mudança de regime tenha ocorrido apenas por ataques aéreos seletivos. O
bombardeio da Otan contra as forças sérvias no Kosovo, em 1999, talvez seja o
exemplo mais próximo —Slobodan Milošević acabaria se retirando da região, e sua
queda veio no ano seguinte. Mas o Irã não é a Sérvia.
O historiador Niall Ferguson, cansado de comparações apressadas (como as
minhas), deixa um aviso: a ideia dos neoconservadores era "mudança de
regime" e democratização do Oriente Médio. Isso implicou tropas no
terreno.
Trump é mais modesto, diz Ferguson: pretende
apenas uma "alteração de regime" (como na Venezuela), ou seja, uma
operação militar breve para colocar no poder um aiatolá
"responsável", esse unicórnio que saiu da mesma fábrica dos
jihadistas "moderados".
Niall Ferguson não tem razão: Trump quer uma
mudança de regime, sim, e exortou os iranianos a tomarem o destino nas suas mãos.
Mas qualquer pessoa que tenha lido as lições do sr. Curzio
Malaparte sobre como fazer um golpe de Estado já aprendeu que as
mudanças de regime nunca acontecem por explosões populares momentâneas, exceto
na imaginação dos românticos.
São operações técnicas: uma minoria
disciplinada precisa assumir o controle do aparelho de Estado —quartéis,
comunicações, transportes, energia, polícia etc.— para que a revolução triunfe.
Haverá essa minoria no Irã, de preferência
dentro da própria elite política e militar do regime?
Trump espera que sim. Eu também. Mas
esperança é terreno movediço demais para começar uma guerra. O caos, o
endurecimento do regime ou a guerra civil também estão no cardápio.
No Irã, celebrar é uma coisa; esperar por um
milagre é outra.

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