O Povo (CE)
A autoridade de uma instituição republicana é mais frágil do que se pensa. Depende menos da força da lei do que do reconhecimento público da dignidade, da relevância democrática e da integridade da atuação institucional. O Supremo Tribunal Federal tem nos dado um exemplo muito melancólico do efeito devastador, para uma democracia, da erosão da autoridade de uma suprema corte. Refém de seus próprios equívocos, o tribunal vive uma encruzilhada.
O maior problema do Supremo tem sido uma
combinação explosiva de culto ao personalismo e ativismo. A Lava Jato deveria
ter deixado um aprendizado institucional mais duradouro. Quando o ímpeto
punitivista do lavajatismo perdeu força e apoio, e os abusos se tornaram mais
evidentes e, logo, menos defensáveis, ficou evidente que o uso estratégico do
processo foi instrumentalizado para finalidades políticas, em prejuízo do
devido processo legal. Somos todos testemunhas do que isso representou em
termos de custo à imagem do Ministério Público e do Poder Judiciário. As falhas
processuais levaram à impunidade e à sensação de imenso voluntarismo judicial.
O drama do STF foi ter sido submetido a um
teste duro num intervalo curto de tempo, sem que a corte tenha manifestado
esforço de autocrítica ou movimento de autocorreção pós-lava jato. Quando Jair
Bolsonaro se tornou presidente, o tribunal foi levado a impedir reiteradas
tentativas de violação da ordem constitucional e legal. Foi chamado a decidir
muitas vezes, em situações-limite, e precisou reagir a uma bem organizada rede
de produção de fake news. Condenou centenas por uma tentativa de golpe de
estado, num desafio inédito ao Poder Judiciário: uma tentativa de ruptura
democrática que contou com manifestações e depredações realizadas por uma
massa.
Esse protagonismo inevitável, arriscado,
exigia uma corte à prova de vícios graves, uma corte que representasse, toda
ela, o símbolo da idoneidade e da reputação ilibada. Só essa integridade à
prova de dúvida blindaria o STF da polarização destrutiva que hoje explica a
cena política do país. É essa aparência de integridade que o escândalo do
Master põe em xeque, ao expor pelo menos dois ministros da corte e constranger
os demais.
E assim a corte se vê diante de uma
encruzilhada. Corrigir as falhas individuais de seus ministros parece, ao STF,
representar um movimento de risco: o de contaminar com a dúvida, aos olhos da
opinião pública, todo o passado recente de decisões do tribunal. A omissão com
os erros é tampouco uma solução: a cada nova informação comprometedora
revelada, o tribunal sofre mais, refém de seu problema estrutural mais difícil
de resolver: a confusão entre ministro e corte, entre colegiado e indivíduo.

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