sábado, 21 de março de 2026

O fator Ratinho, por Thaís Oyama

O Globo

Com paranaense na eleição, a demanda eleitoral encontrará uma nova oferta na política

O presidente do PSD, Gilberto Kassab, deverá anunciar o governador do Paraná, Ratinho Jr., pré-candidato do partido à Presidência na semana que vem. Trata-se de uma má notícia para Flávio Bolsonaro, que bem buscou evitá-la ao convidar o paranaense para ser seu vice.

Malograda a tentativa, Flávio, que sonhava com um aliado, acabou ganhando um concorrente e, com ele, o dilema clássico que costuma se abater sobre os favoritos para chegar ao segundo turno. Não pode permitir que Ratinho Jr. cresça a ponto de ameaçar a sua posição nas pesquisas, mas tampouco pode hostilizá-lo de modo a provocar uma reação na mesma intensidade que arrisque fragilizar sua candidatura — agora e no futuro.

Flávio parece ter começado com o pé esquerdo o que promete ser a nova fase desta eleição. Na quarta-feira, ele e seu partido declararam apoio ao nome de Sergio Moro (União Brasil) para o governo do Paraná — gesto de franca hostilidade para com o grupo de Ratinho Jr., que trabalha para fazer o sucessor do governador no PSD. A opção de Flávio criou um problema regional para Ratinho Jr., mas, na análise de um aliado do paranaense, facilitou sua movimentação no plano nacional. “Com esse rompimento, Flávio liberou Ratinho para jogar o jogo que tiver de jogar”, diz o aliado. E, no jogo de Ratinho, terá lugar de honra o combate à corrupção — tema que, em monitoramentos recentes, já suplantou a preocupação dos brasileiros com a segurança pública.

O núcleo duro da campanha bolsonarista não veste a carapuça e diz que, no caso de Flávio, ao menos seus escândalos pregressos, como a “rachadinha” e a loja de chocolates, estão já “precificados” pelo eleitor. Os mesmos aliados minimizam o impacto da entrada no pleito de Ratinho Jr. — descrito por um deles como “candidato com que a Faria Lima sonha” (“e a Faria Lima não ganha eleição”, acrescenta).

É de conhecimento da campanha de Flávio, porém, a existência de uma demanda eleitoral por um nome fora da órbita bolsonarista, hoje estimada em 12% do eleitorado. A direita não bolsonarista tem perto do dobro desse tamanho, segundo as pesquisas. Flávio, até aqui praticamente sozinho em seu campo, acabou atraindo quase por inércia o quinhão todo. Agora, a se confirmar a entrada de Ratinho Jr. na eleição, a demanda eleitoral encontrará uma nova oferta na política. Quanto a campanha de Flávio será afetada por isso dependerá de quão viável parecer a candidatura de Ratinho Jr. aos olhos do brasileiro que não quer reeleger Lula. Sendo o antipetismo a força motriz desta eleição, irá para o segundo turno o candidato de oposição que, na percepção do eleitor que não vota em Lula, tiver mais condições de derrotar o três vezes presidente. “Ao contrário do que se diz, o favoritismo de Flávio Bolsonaro como candidato da oposição nesta primeira rodada não está consolidado”, afirma o pesquisador Maurício Moura, fundador do Ideia. “Do ponto de vista da opinião pública, a eleição está aberta.”

Além de má notícia para Flávio, a entrada do governador do Paraná na corrida presidencial ocorre num mau momento. Nesta semana, o PT publicou uma resolução de sua Executiva Nacional que orienta a militância, em que o senador é descrito como candidato “marcado pela rachadinha” e com “histórico de enriquecimento incompatível com a vida pública”. Em outras palavras, é hora de abrir fogo contra o adversário, diz o documento.

Até aqui, Flávio descansou no berço esplêndido do bolsonarismo embalado pelo antipetismo. Mas, com a artilharia do PT de um lado e a entrada de Ratinho Jr. de outro — sem falar no avanço de Renan Santos (MBL), ávido por abocanhar o discurso “antissistema”—, o filho de Jair Bolsonaro terá de sair da zona de conforto. A folga acabou.

 

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