O Estado de S. Paulo
Político talhado para o conflito, Donald Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora
Um hegemon vingativo, destruidor de instituições que ele próprio ajudou a inspirar, a começar pela ONU e sua Carta de Direitos, está em evidente curso de dissolução da própria hegemonia. Conceito complexo este último. Nutre-se não só do poderio industrial ou militar, mas também, e amplamente, da capacidade de direção política e intelectual – de soft power, em suma. Essa é uma lição secular, anterior a qualquer formulação gramsciana. Já o centauro maquiaveliano, educador de políticos, alertava contra o uso exclusivo da violência. Se o príncipe só mobiliza as qualidades do leão e menospreza as manhas da raposa, ele incute medo nos lobos e termina preso numa armadilha.
Político talhado para o conflito, Donald
Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora. Seu ato
inaugural foi a deflagração de uma guerra comercial global, com o cancelamento
dos mecanismos de regulação das disputas entre nações. Politicamente, os
Estados Unidos de Trump passaram a ser um país que tensiona alianças de longa
data, obcecado pelo interesse de se tornar “grande de novo”. Ao menos na
retórica, agora seria o momento de se fechar num esplêndido isolamento, longe
das tentações intervencionistas tanto dos adversários democratas quanto dos
republicanos de feição neoconservadora.
A ilusão não durou muito. De fato, o que se fez foi reorientar a presença norte-americana num mundo concebido como luta de soberanias sem qualquer limitação. A nova direita, como sabemos, diz-se “soberanista” por toda parte, mesmo quando se afirma em países com pouco poder relativo, aos quais cabe ficar à sombra daqueles que são verdadeiramente fortes. Estabelecidas as respectivas áreas de influência, as potências com vocação imperial se entendem entre si e cuidam de submeter os demais. Torna-se mais fácil a convergência de Trump com Putin do que com Zelenski. E é natural que Netanyahu, apoiado na supremacia dos Estados Unidos, ignore os direitos dos palestinos assegurados em inúmeras resoluções da ONU. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Um hegemon suicida abdica de qualquer pensamento estratégico. Compreende-se a crítica trumpista de sucessivas intervenções levadas a efeito sob o lema do regime change, a troca de governos considerados internamente despóticos e externamente desestabilizadores. Um exemplo particularmente trágico foi a destruição do Estado iraquiano por obra dos neoconservadores de George W. Bush. A boa intenção – uma destas de que o inferno está repleto – consistia em “impor a democracia” de cima para baixo, sem examinar suas condições de possibilidade na própria sociedade civil.
Agora, no entanto, não se pode mais supor
nenhum vestígio de boa intenção. O caso venezuelano, perigosamente perto de
nós, expôs a nova tática de “extração” do governante e quase simultânea
convivência com a estrutura autocrática de que ele era só a expressão imediata.
Antes da operação tecnicamente bem-sucedida, houve toda uma ilegal operação de
asfixia sob o pretexto da guerra ao narcoterrorismo, na novilíngua da política
trumpista. Uma armada poderosa passou semanas a destruir barcos em águas
internacionais, servindo-nos naufrágios e mortes como videogame – essa
insuportável pat ol ogi a contemporânea. E o dirigente sequestrado, símbolo
político de um penoso “socialismo do século 21”, dificilmente terá tido papel
destacado no tráfico propriamente dito.
Vingança – e também interesses energéticos –
são os móveis do hegemon em declínio. Tomado pelo “sucesso” do paradigma
venezuelano, Trump logo determinaria alvos de valor simbólico até maior, a
saber, Irã e Cuba. A metodologia é a mesma, a expectativa é a “rendição
incondicional”. Não muda a determinação de levar as duas situações ao ponto
extremo da crise humanitária, como se a teocracia iraniana, num caso, e o
stalinismo tardio, no outro, justificassem ou requeressem o castigo coletivo a
que as populações civis estão sendo submetidas. Em contraposição gritante,
basta mencionar as políticas do ex-presidente Obama há cerca de dez anos,
participando de um acordo nuclear multilateral com o Irã e promovendo o
reatamento de relações com Cuba.
O hegemon já então não dirigia
unilateralmente os acontecimentos nem tinha os recursos de poder que antes o
credenciavam como protagonista indiscutido. Estava a pleno vapor uma nova
“fábrica do mundo”, de superestrutura política autocrática, começando a
projetar poder pela rota do comércio, dos investimentos e de uma versão
particular de poder suave. Em tese, porém, com dirigentes formados na tradição
anterior teria sido possível levar a termo uma retirada ordenada. Na guerra,
como na política, tal movimento tem valor comparável ao de uma ofensiva,
especialmente quando reforçado pela dimensão democrática própria das sociedades
abertas – uma dimensão que as tornou até hoje singularmente atraentes.
Seja como for, trata-se de uma especulação, razoável embora. Menos especulativo será afirmar que, se recorrer apenas à violência, mesmo um grande país fatalmente cairá em armadilha que, por natureza, leões não percebem.

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