quarta-feira, 25 de março de 2026

O paradoxo da moderação, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Com desistência de Ratinho Jr., terceira via fica quase definitivamente afastada

Zema e Caiado são bolsonaristas demais para posar de alternativa à polarização

Com excesso de boa vontade, ainda daria para classificar as candidaturas presidenciais de Ratinho Jr. e Eduardo Leite como uma terceira via, se entendermos esse termo como uma corrente política não automaticamente alinhada nem ao lulismo nem ao bolsonarismo.

Os outros dois principais pretendentes ao título de candidato da terceira via, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, estão identificados demais com o ex-presidente e atual presidiário, que não deve em hipótese nenhuma ser confundido com o ex-presidiário e atual presidente.

Agora que Ratinho Jr. desistiu de concorrer, a terceira via, que nunca teve muita chance de prosperar, fica quase definitivamente afastada. Leite, para crescer, precisaria de votos da centro-esquerda que dificilmente teria, já que o bloco antibolsonarista já está bem consolidado em torno de Lula. Zema, comenta-se, pode desistir da Presidência para virar vice de Flávio Bolsonaro.

E Caiado é, ao menos retoricamente, mais inflamado que o próprio Flávio. Não dá para descartar nem que o governador de Goiás atue como escada para o primogênito de Jair, que, pelo contraste, poderia tentar exibir-se como um moderado —o que tende a ser um trunfo num eventual segundo turno.

Essa, contudo, não é uma operação sem riscos. Se apenas uns poucos candidatos nanicos disputarem contra os dois principais concorrentes, aumentam as chances de a eleição resolver-se em turno único. Aí, cada voto depositado em Caiado é um voto de direita a menos em Flávio.

A situação revela um interessante paradoxo. Os eleitores mais moderados, que não aderem de primeira nem a Lula nem a Bolsonaro, não têm força para colocar um candidato que os represente entre os viáveis; não obstante, especialmente se o pleito for para o segundo turno, eles se tornam "king makers", definindo por estreita margem quem vence.

Até não muito tempo atrás, os candidatos ainda tentavam adequar seu discurso a esse público; hoje esse público se limita a escolher o mal menor entre dois candidatos cujos discursos rejeita.

 

 

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