sexta-feira, 27 de março de 2026

O psicanalista do Supremo, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

STF chamou Lavareda para curar as feridas, mas não tem analista ou propaganda ou mandinga que dê jeito

Atingido em cheio pelo escândalo Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu consultar um psicanalista, ops!, o analista político e do humor popular Antônio Lavareda, que passou uma receita paliativa: os ministros precisam falar menos e a instituição tem de dialogar mais com a sociedade, especialmente com o centro, ou “os independentes”.

Segundo a coluna apurou, Lavareda defendeu que é perda de tempo tentar “dialogar” ou tentar convencer lulistas incondicionais, acuados, sem reação em casos assim desde mensalão e Lava Jato, e bolsonaristas, que são “antissistema” (logo, anti-Judiciário) e usam a crise, eleitoralmente, contra Lula e o governo.

O foco da defensiva do STF tem de ser os “independentes”, não dogmáticos, que preservam alguma racionalidade e flutuam menos ao condenar ou aplaudir o que quer que seja. Mas, para isso, e para melhorar o “diálogo”, o STF precisa corresponder às expectativas, com pautas de grande apelo e aprovando mudanças de atitudes e regras, por exemplo, com um código de conduta a ser levado a sério.

Os últimos movimentos do STF resvalam nisso, como a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, defendida além da bolha bolsonarista, e a intervenção que Flávio Dino tentou fazer, e o plenário amenizou, contra os “penduricalhos” que fazem a festa e a fortuna de juízes e procuradores e se estendem aos demais Poderes, driblando o teto constitucional.

O resultado, porém, foi decepcionante, cortando uma parte, mantendo outra e até recriando o velho “quinquênio” (extras por tempo de serviço). A sociedade apoia o fim de mamatas, mas não é boba. Sabe o que é “fim” e o que é remendo para inglês ver. Se era para apagar o incêndio do Master no STF, virou gota d’água.

A reunião com Lavareda foi na presidência do STF, com Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. Tão curioso quanto a presença de Moraes é a ausência de Dino, que mais dialoga com a sociedade, ao combater emendas, supersalários e penduricalhos e não ouviu Lavareda dizer que o estrago das ligações de ministros com Daniel Vorcaro, do Master, foi de bom tamanho, mas a imagem do Supremo já foi pior.

Pode não ser o pior momento, mas, pela AtlasIntel/Estadão, 47% consideram que o STF está “totalmente envolvido” com o Master, 60% não confiam e só 34% confiam na instituição e, dos dez atuais ministros, só um, André Mendonça, novo relator do caso Master, tem aprovação superior à desaprovação: 43% a 36%. Feia a coisa e não há remédio, propaganda, psicanalista e mandinga que deem jeito. A ferida está aberta.

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