Folha de S. Paulo
Escândalo do Banco Master causa estrago à
legitimidade do STF
Corte precisa de solução que escape à defesa
corporativista dos colegas de toga
As operações do Banco Master são um caso clássico daquilo que os economistas chamam de "rent seeking". O termo descreve o comportamento de todos quantos busquem ganhos econômicos via acesso privilegiado a quem tem poder de decisão sobre políticas públicas. Na prática, a busca de vantagens por meios políticos geralmente envolve corrupção e se aproveita de oportunidades que nenhum desenho institucional é capaz de bloquear completa e definitivamente.
O que já se sabe das falcatruas de Daniel
Vorcaro —e ainda não é tudo— traz à luz uma extensa e espalhada
teia de acesso aos núcleos de decisão no governo e nos demais Poderes da
República. Mas, à diferença de outros escândalos notáveis, desta vez a bomba
não rebentou nem no Palácio do Planalto nem no Congresso
Nacional —embora atinja alguns deputados. Explodiu em cheio,
ali sim, no Supremo Tribunal Federal.
Não há como exagerar o estrago provocado na
legitimidade da corte, de que depende a eficácia de seu papel de guardiã da
Constituição —logo, das instituições democráticas. E o momento não poderia ser
pior.
A eleição presidencial promete disputa acirrada. A última pesquisa Datafolha mostra
não apenas empate entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno. Revela ainda
que pelo menos um dos três pré-candidatos da direita —Ratinho Jr.— está perto
de empatar com o atual presidente.
Seja qual for o candidato da destra a romper
a barreira do primeiro turno, petismo e antipetismo novamente racharão o
eleitorado —e a decisão, como em 2014 e 2022, será por pouco, muito pouco. A
competição feroz exigirá muito do TSE (Tribunal
Superior Eleitoral) para assegurar lisura à disputa. E mais ainda do STF, pois é
possível que os resultados venham a ser contestados, como foram, com timidez,
em 2014, e com golpismo explícito, em 2022.
Nem é preciso lembrar o desempenho do TSE e
do STF na garantia das eleições livres e, a seguir, no cumprimento da vontade
da maioria. E, muito especialmente, no julgamento de Bolsonaro e seus cúmplices
que tentaram, primeiro, deslegitimar o processo de escolha e, depois,
revertê-lo por meio do golpe de Estado.
Não por acaso, a trama autoritária
assentou-se, desde sempre, no ataque ao Supremo, retratado como poder sem
freios, inimigo das liberdades individuais. Não é gratuito que, agora, o
bolsonarismo volte a apresentar a corte como poder corrupto e sem limites. Sob
impacto das revelações do caso Master, o discurso bolsonarista tende a ganhar
força redobrada, dadas as evidências de envolvimento de um juiz nos negócios de
Vorcaro e as suspeitas que pairam sobre outro.
Como sugeriu o colega Marcus André Melo em
sua coluna desta
semana, cabe distinguir entre corrupção individual e decisões do STF
quando tratou de defender a democracia de seus inimigos. Essa distinção não interessa
à extrema direita que desdenha das instituições representativas. Ela só pode
ser crível se a própria corte for capaz de realizá-la, buscando uma solução que
escape à defesa corporativista dos colegas de toga.
Não há outra forma de recuperar a autoridade
e a legitimidade perdidas e tão necessárias à proteção da democracia.

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