quinta-feira, 5 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Vorcaro deve ficar preso até ser julgado

Por O Globo

Ele mantinha central de espionagem e suborno que chegou a planejar ato violento contra jornalista do GLOBO

São estarrecedoras as revelações que levaram de volta à cadeia o banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master. Vorcaro havia sido preso em novembro, mas depois foi solto sob a alegação de não oferecer risco. As evidências que embasaram o novo pedido de prisão da Polícia Federal (PF), em 27 de fevereiro, demonstram que sua libertação foi prematura. A PF extraiu dos celulares apreendidos provas de diversos crimes. O ministro André Mendonça, novo relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), viu — com razão — necessidade urgente de mandar prender Vorcaro e seus cúmplices. Em despacho, ele criticou a Procuradoria-Geral da República (PGR), que não viu “perigo iminente” e pediu mais tempo para analisar o caso.

Num grupo de mensagens intitulado “A Turma”, Vorcaro coordenava diversas atividades ilegais. Entre elas, o planejamento de um assalto para, nos termos das mensagens, “prejudicar violentamente” o jornalista Lauro Jardim, do GLOBO. “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes”, escreveu Vorcaro a certa altura. Em nota oficial, O GLOBO repudiou com veemência as iniciativas criminosas. “O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão com ameaças e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público”, afirma a nota.

As atividades do grupo envolviam vigilância, levantamento de informações, monitoramento e intimidação de personagens considerados adversários do Master. A coordenação, segundo a PF, ficava a cargo de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, alcunhado “Sicário”. Numa ocasião, Vorcaro diz a ele ter sofrido ameaça de uma funcionária e ordena: “Tem que moer essa vagabunda”. Ao soldo de R$ 1 milhão mensais pagos pelo cunhado de Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel, o grupo comandado por Mourão mantinha uma central de espionagem e suborno que chegou a invadir sistemas internos da PF e do Ministério Público para obter acesso a informações sigilosas.

Para a PF, os indícios comprovam a prática de diversos crimes: contra o sistema financeiro, contra a administração pública, contra a administração da Justiça, além de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Ante as revelações, a prisão preventiva de Vorcaro e de seus comparsas tornou-se condição mínima para o prosseguimento das investigações. Elas devem ser rigorosas e ir até o fim, intenção que até agora Mendonça tem demonstrado na condução do inquérito.

Já eram conhecidas as fraudes financeiras adotadas pelo Master em seu crescimento explosivo nos últimos anos. Também eram conhecidas as relações de Vorcaro no mundo da política, usadas para atrair investimentos de fundos de previdência do setor público e do BRB, o banco controlado pelo governo do Distrito Federal. Agora ficou exposta a faceta mais violenta do banqueiro que posava de arrojado e inovador. É uma faceta que provoca revolta e indignação, mas não surpreende. Não faltam motivos para Vorcaro detestar quem o desmascarou. Por isso ele deve permanecer atrás das grades até seu julgamento — enquanto a imprensa profissional, O GLOBO incluído, prosseguirá em seu trabalho incansável de buscar e revelar a verdade.

Estupro coletivo de menor no Rio expõe chaga da violência contra mulher

Por O Globo

País avançará não apenas punindo culpados, mas sobretudo evitando que crimes bárbaros sejam cometidos

O chocante estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos por cinco jovens (um deles menor de idade) em Copacabana, Zona Sul do Rio, é um crime bárbaro que precisa ser tratado com todo o rigor. Esse tipo de conduta criminosa é infelizmente mais frequente do que se pensa. O caso aconteceu em 31 de janeiro, mas só veio a público nos últimos dias. Segundo as investigações da polícia fluminense, a adolescente foi vítima de uma emboscada, atraída ao apartamento de um dos rapazes antes de ser abusada e agredida pelo grupo.

Diante de tamanha perversidade, faz bem a polícia em dar celeridade às investigações. Todos os quatro réus já estão presos (o último se entregou nesta quarta-feira). Em relação ao menor, ainda não houve pedido de internação. Com a profusão de câmeras de segurança, não foi difícil identificar os autores. Denúncias que chegaram à delegacia afirmam que alguns dos jovens são acusados em crimes semelhantes. Delitos que, pelo jeito, ficaram impunes.

Nos últimos anos, a legislação para crimes do tipo se tornou mais rigorosa, numa tentativa de frear a escalada da barbárie. De acordo com o artigo 213 do Código Penal, o estupro pode resultar em penas de seis a dez anos de prisão. Agravantes podem elevar a punição. Se a vítima for menor, a pena sobe para 12 anos. No caso de estupro coletivo, uma lei sancionada em 2018 a estabeleceu em até 16 anos e oito meses.

A despeito da legislação severa, o Brasil não consegue enfrentar a chaga. Em 2024, o país registrou número recorde de estupros e estupros de menores de 14 anos: 87.545, quase dez por hora, segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A grande maioria das vítimas era do sexo feminino (87,7%) e vulnerável (76,8%). É perturbador que 66% dos casos tenham ocorrido dentro de casa. Entre os culpados, familiares (45,5%) e parceiros ou ex-parceiros (20,3%) são os mais frequentes. Sob qualquer ponto de vista, esses números são vergonhosos.

Não basta apenas adotar leis mais duras. Muitos casos ficam impunes porque não são sequer investigados. São situações terríveis, em que muitas vítimas, fragilizadas, temem se expor. Mas não há outra maneira de interromper a escalada, senão investigação, identificação dos culpados e julgamento. Desgraçadamente, o silêncio protege os bárbaros e permite que cometam outros crimes. Por isso é preciso que governos ampliem campanhas, ofereçam canais de denúncia, acolham as vítimas e as incentivem a denunciar. É fundamental, ainda, empenho nas apurações, para reunir provas consistentes. O país avançará não apenas quando levar todos os criminosos aos tribunais, mas sobretudo quando conseguir impedir que esses crimes sejam cometidos.

Jagunços do Master evidenciam gravidade do escândalo

Por Folha de S. Paulo

No decreto de prisão do ex-banqueiro Vorcaro e comparsas estão expostas evidências de ousadia criminosa

Caso também expõe a permissividade de autoridades e instituições à penetração do crime organizado, o que corrói a República

Não bastassem a fraude bilionária e os esquemas para comprar proteção nas altas camadas de poder no escândalo do Banco Master, chegam ao público fortes indícios de que a organização mantinha um núcleo dedicado a operações clandestinas, o que incluía intimidar a imprensa e quem mais se colocasse em seu caminho.

"A Turma", como o bando se identificava no material apreendido pela Polícia Federal, conversou sobre "quebrar todos os dentes" do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. A sugestão da sova foi dada pelo chefe e então dono do Master, Daniel Vorcaro, a um dos jagunços do grupo, Luiz Mourão, o "Sicário", apelido que remete a matadores de aluguel.

De acordo com as ordens de prisão decretadas pelo ministro André Mendonça, "Sicário" e um ex-policial também invadiam sistemas de órgãos federais, monitoravam e espionavam alvos do dono do banco e agiam para limpar a imagem pública da empresa financeira e de Vorcaro, por meio de pedidos forjados a plataformas digitais e pagamentos a editores por veiculações amistosas.

Além da dupla de capangas e do próprio Vorcaro, foi preso preventivamente Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro suspeito de organizar pagamentos de "A Turma". Mourão se suicidou nesta quarta (4), segundo a PF, acrescentando dose extra de pasmo ao que já era espantoso.

Segundo a PF, foram corrompidos dois servidores do Banco Central, que já estavam afastados pelo órgão e agora foram suspensos também judicialmente e colocados sob vigilância eletrônica.

Diante do volume de evidências da constituição de uma milícia privada, causa espécie a atitude do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de requerer mais tempo para analisar o pedido de prisão da PF. Fez bem Mendonça em negar o argumento do procurador de que não haveria perigo iminente em "Sicário" e seus comparsas continuarem soltos.

Espera-se que a PGR não se contamine pelo espírito de acomodação, para dizer o menos, que regia a condução do caso sob Dias Toffoli no Supremo Tribunal Federal. Todos os envolvidos na distribuição da Justiça já deveriam estar convictos da necessidade de apurar com rigor e à luz do Sol esse escândalo tentacular.

O filme que se vai produzindo em torno do descalabro do Master mostra um elevado grau de ousadia criminosa, de um lado, e de permissividade à penetração e à cooptação mafiosas em organizações do Estado, do outro.

Faz pouca diferença o agente da infestação ter promovido festas com poderosos e lhes facilitado negócios e riquezas. Para o efeito de carcomer as instituições da República, dá na mesma se ele fosse um capo a comandar dos presídios o tráfico de drogas.

Nem sequer a violência como meio de promover os interesses do chefão ficará de fora da descrição da máfia que se apoderou do Master. Condescendência na investigação só piora os sintomas e adia o enfrentamento da doença.

A demografia criativa dos magistrados

Por Folha de S. Paulo

Atendendo prefeituras que buscam maior fatia de verbas, Justiça chega a ordenar mudança de dados do IBGE

A injustiça se dá quando uma cidade cuja população diminuiu obtém recursos que seriam destinados a outra com número maior de habitantes

Contra fatos não há argumentos, assevera o ditado popular. No Brasil, há. Quem não concordar com alguma aferição empírica pode recorrer ao Judiciário, e um magistrado é capaz de mudar os dados.

Como mostrou a Folha, prefeituras recorrem à Justiça para contestar os números do IBGE relativos à população, visando expandir sua fatia no Fundo de Participação dos Municípios (FPM), cujas verbas são repassadas segundo critérios demográficos.

Desde 2023, ao menos 58 cidades tentaram e 49 delas conseguiram, de forma provisória ou definitiva. Em alguns casos, os juízes chegaram a ordenar o aumento da população. As prefeituras contestaram tanto os dados do Censo 2022 como as projeções posteriores que o instituto.

Por óbvio, o IBGE não é infalível. O próprio órgão indica, para o Censo 2022, uma taxa de erro líquido de 8,3% —calculado a partir de 12,2% de omissões e 3,3% de inclusões indevidas. Suas projeções envolvem incertezas e dependem de registros cartoriais sabidamente imperfeitos.

Contudo, mesmo que o dado aferido pelo IBGE seja problemático, ele é mais confiável do que uma cifra imaginada por um magistrado que nem tentou medir a população pelos métodos estatísticos internacionalmente aceitos.

A interferência judicial até faria sentido se os juízes prezassem pela autocontenção, limitando-se a determinar que o instituto esclarecesse medições ou, excepcionalmente, refizesse cálculos. Ao criar sua própria realidade numérica, porém, violam as bases que sustentam o Judiciário.

Não há garantia de que magistrados sempre tomem as decisões certas. Mas as aceitamos porque, sem o tipo de arbitragem oferecida por esse Poder, a vida em sociedade seria impossível.

No que diz respeito à contagem demográfica, o árbitro final deve ser o IBGE. O Fundo de Participação dos Municípios não é um montante elástico. Se uma cidade cuja população diminuiu consegue obter mais verbas, ela as está subtraindo de um município com mais habitantes. Trata-se, portanto, de uma injustiça.

Parlamentares também são adeptos da numerologia criativa No ano passado, tentaram aumentar o número de vagas na Câmara, a fim de ampliar as cadeiras dos estados que, pelo IBGE, ganharam população —sem reduzir as dos que perderam. Com o veto do Planalto, deixaram tudo como estava, violando assim a norma constitucional.

Assim, fatos e dados parecem não passar de sugestões, que autoridades aceitam ou não ao sabor de suas conveniências.

Uma máfia no coração do poder

Por O Estado de S. Paulo

A prisão do banqueiro Vorcaro escancara uma rede criminosa espalhada por Brasília. Atônito, o País espera que a banda podre das instituições não prevaleça sobre a banda republicana

A política brasileira costuma ser descrita como um duelo entre esquerda e direita ou uma disputa entre Executivo, Legislativo e Judiciário. O escândalo do Banco Master expõe uma clivagem menos confortável: uma rede perniciosa que atravessa partidos, governos e tribunais.

O esquema de ocultação de recursos, manipulação societária e deslocamento de patrimônio para escapar de credores e reguladores que desencadeou o colapso do Master deixou prejuízos multibilionários que acabaram socializados entre investidores e mecanismos de proteção do sistema financeiro.

Se a magnitude desses crimes do colarinho branco já não fosse por si só estarrecedora, a investigação da Polícia Federal que ensejou a prisão do controlador do banco, Daniel Vorcaro, deu ao País um vislumbre – e só um vislumbre – de uma mecânica mafiosa de proporções imensas. Mensagens extraídas de celulares apreendidos mostram a discussão de planos para vigiar adversários, intimidar críticos e até espancar jornalistas. Há indícios de invasão de sistemas da própria Polícia Federal e outros órgãos da Justiça para obter informações sobre investigações em curso. Dirigentes do Banco Central do Brasil teriam recebido propina para facilitar operações e neutralizar a fiscalização.

Mas muito mais perturbadoras do que a delinquência do banqueiro corrupto e seus comparsas são as relações que Vorcaro construiu em Brasília. Vorcaro não era um aventureiro isolado. Transitava com desenvoltura entre ministros de Estado, dirigentes partidários, parlamentares e juízes das altas cortes. Isso ajuda a explicar por que se sentia tão à vontade para maquinar crimes em grupos de WhatsApp.

Suas relações promíscuas chegam ao coração do sistema de Justiça. O ministro Dias Toffoli, que chegou a fazer negócios com as redes de Vorcaro, assumiu, em circunstâncias estranhíssimas, a relatoria do caso e emperrou o trabalho da polícia por meses. A mulher do ministro Alexandre de Moraes celebrou um contrato multimilionário e mal explicado com o Master. Nenhuma dessas circunstâncias, por si, prova crime. Mas compõem um quadro suficientemente delicado para exigir o mínimo de transparência institucional.

O que se viu foi o contrário. Uma Corte na defensiva, e até agressiva, quando investigações se aproximaram de seus membros. Decisões monocráticas intimidaram críticos, bloquearam diligências e interromperam iniciativas de apuração parlamentar. O Tribunal se mostra muito mais ocupado em proteger os segredos de seus ministros do que em dissipar dúvidas legítimas.

A atuação da Procuradoria-Geral da República só intensifica a perplexidade. A relutância do procurador-geral, Paulo Gonet, em pedir a prisão de Vorcaro mereceu críticas abertas do novo relator, o ministro André Mendonça. A demora reforçou a impressão de uma instituição que, diante de suspeitas envolvendo figuras poderosas, prefere a inércia ao confronto.

Esta combinação tóxica – relações plurais e inclusivas entre autoridades políticas e administrativas, blindagem corporativista no Judiciário e complacência do Ministério Público – ajuda a explicar o silêncio constrangido que paira sobre o caso em Brasília. O esquema não envolve apenas um partido ou um governo. Ele atravessa os Três Poderes e diferentes campos ideológicos.

Quando um escândalo compromete apenas um grupo político, adversários tratam de expô-lo. Quando compromete muitos, o impulso dominante é abafá-lo. A intimidação a jornalistas é sintomática. É a imprensa que vem insistindo em colocar na sala o bode que os poderosos gostariam de esconder.

A prisão de Vorcaro pode representar o início de uma investigação que finalmente ilumine essas conexões e puna os cúmplices de fraudes multibilionárias. Ou pode ser apenas mais um episódio a se diluir no ciclo habitual de crises nacionais. O que se desenha é uma nova disputa: não entre este ou aquele grupo partidário, nem entre tal ou qual Poder ou instituição, mas entre a banda podre de Brasília (distribuída por todos os Poderes, partidos e instituições) e a banda republicana. O desfecho do caso Master revelará ao Brasil qual delas realmente predomina no coração do poder.

Lambança judiciária

Por O Estado de S. Paulo

Justiça de Minas comete uma série incrível de falhas no processo contra um homem acusado de estuprar uma menina de 12 anos, o que pode levar a nulidades e, pior, à impunidade

A Justiça de Minas Gerais tem cometido erros em série no caso de um homem de 35 anos de idade acusado do crime de estupro de vulnerável contra uma menina de apenas 12. Os abusos na condução desse processo, que primeiro condenou, depois absolveu e, por fim, mandou prender o réu, ofendem as leis e os princípios constitucionais, o que põe em dúvida a sua lisura. Ao tentar corrigir seus erros, a Justiça estadual mineira errou de novo. Tamanho compromisso com o equívoco pode culminar no pior dos resultados: o risco de nulidades e uma potencial impunidade.

O caso ganhou repercussão nacional quando a 9.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) decidiu absolver o homem e a mãe da menina, que fora omissa. Segundo o relator, desembargador Magid Nauef Láuar, a relação entre o adulto e a criança era aceitável, haja vista que, segundo ele, era consensual, de conhecimento público e correspondia ao costume local. Como já afirmamos neste espaço, o magistrado afrontou a aplicação das fontes do Direito, o Código Penal, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição federal.

Láuar não agiu sozinho: há indícios de que recorreu à inteligência artificial para aprimorar seus argumentos jurídicos – o que só confirmaria sua já atestada miséria intelectual – e ainda foi seguido pelo colega Walner Barbosa Milward de Azevedo. Ou seja, houve endosso. Na Câmara Criminal, apenas a desembargadora Kárin Emmerich, a única mulher do órgão, votou contra a absolvição do homem e da mãe da vítima. Coube ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) recorrer por meio dos chamados embargos de declaração com efeitos infringentes.

Esse recurso serve para pedir que o juízo esclareça pontos obscuros, omissos ou contraditórios, além de poder reivindicar a correção de erros materiais. Em casos excepcionais, o mérito da decisão pode até mudar no julgamento de embargos de declaração. E, pressionado pela opinião pública e pela Corregedoria Nacional de Justiça, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Láuar parece ter tido a ideia de corrigir seu erro. Só que errou ainda mais.

O desembargador, ele mesmo acusado de ter cometido abuso sexual contra ao menos cinco pessoas, atendeu monocraticamente ao pedido do Parquet. Numa canetada, demonstrou um suposto arrependimento do voto que relatara, reconheceu o equívoco da decisão e destacou até a importância da perspectiva de gênero ao mudar seu posicionamento. O TJMG não divulgou a decisão, mas seu teor veio a público. A Corte expediu ainda uma nota na qual afirmou que Láuar decidiu manter “a sentença condenatória de primeira instância” e havia determinado “a expedição imediata de mandados de prisão em desfavor do homem de 35 anos e da genitora da vítima”.

Ora, isso é uma aberração processual. O desembargador afrontou os princípios do devido processo legal, da colegialidade e do contraditório e da ampla defesa. É o rabo abanando o cachorro: Láuar ignorou as formalidades do processo; atropelou sozinho uma decisão de julgamento colegiada – ele na condição de relator não suplanta a autoridade de toda a Câmara Criminal; e mandou prender o homem e a mãe da vítima sem que as defesas dos acusados pudessem se manifestar nos autos, o que pode configurar prisão ilegal. Ou seja, começou errando e foi errando até o fim.

Não cabe à Corregedoria do CNJ, que já afastou Láuar, entrar no mérito das decisões judiciais do desembargador. Mas o comportamento do magistrado suscita vivas discussões administrativas e éticas. Ainda mais grave, pululam relatos de ex-funcionários de gabinete e até de um primo sobre abusos sexuais supostamente cometidos por Láuar. Espera-se que agora seja feita, enfim, a coisa certa: que se garanta ao magistrado o devido processo legal, o direito à ampla defesa e ao contraditório e um julgamento imparcial, justo e fundamentado nas leis, na jurisprudência e na Constituição. Eis uma boa lição para o desembargador e a Justiça mineira não errarem mais com nenhuma menina.

Entrave ao crescimento

Por O Estado de S. Paulo

Baixa taxa de investimento condena País a resultados medíocres e abaixo do seu potencial

Não havia como ser diferente. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desacelerou em 2025 e teve expansão de 2,3%, bem abaixo dos 3,4% de 2024, segundo o IBGE.

Como o governo gasta demais, restou ao Banco Central (BC) cumprir seu papel e apertar os juros para conter a inflação, medida necessária e amarga que trava o crescimento econômico. O problema é que, quando se esmiúçam os dados recém-divulgados pelo IBGE, fica claro que a “tradição” do Brasil de crescer pouco tem ficado pior.

E poucos números escancaram isso tão bem quanto o indicador de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que despencou de 6,9% em 2024 para 2,9% no ano passado. Em consequência, a taxa de investimento brasileira, já abaixo da média de 20% para países com o mesmo nível de desenvolvimento, caiu de 16,9% em 2024 para 16,8% em 2025.

Sem investimento não há crescimento, para o qual a FBCF é determinante. O indicador mede o quanto as empresas ampliaram seus bens de capital – maquinários e equipamentos, por exemplo –, ou seja, o quanto investiram em bens que produzem outros bens.

Em 2025, um artigo do economista Rogério Nagamine Costanzi para o boletim da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) chamava a atenção para o fato de os indicadores de FBCF no Brasil serem inferiores não só aos de países desenvolvidos, mas também aos de nações sabidamente mais pobres, como Paraguai e Bolívia.

No mesmo artigo, o economista comparou ainda a taxa de poupança no Brasil com a de outras nações e também constatou que por aqui se poupa menos do que no Paraguai, em Honduras e em El Salvador.

Embora tenha aumentado de 14,1% em 2024 para 14,4% em 2025, a taxa de poupança interna segue sendo muito baixa. A combinação baixo investimento e baixa poupança condena o País a um ciclo de crescimento medíocre, na casa dos 2% ao ano.

Romper com esse cenário exige um grande esforço do governo, a começar pelos gastos. Não há, porém, por parte da gestão Lula, qualquer sinal de que uma mudança rumo a uma política de crescimento sustentado virá a ser colocada em prática. Ao contrário. No ano passado, o consumo do governo cresceu 2,1%.

Em vez de rever e reorientar seus gastos, o governo pisa no acelerador, complicando os esforços do BC para controlar a inflação. O resultado disso são juros altos por mais tempo, o que, como se viu, derruba o investimento produtivo.

Como se não bastasse, discute-se agora no País a redução da escala de trabalho 6x1, como se isso fosse garantir qualidade vida a uma força de trabalho mal instruída e, por isso mesmo, menos produtiva que a de diversos outros países.

Sem melhora efetiva na educação e sem controle dos gastos governamentais, de modo que os juros possam cair, não há como aumentar produtividade nem promover crescimento sustentado.

É uma questão de escolha. O investimento e o PIB fracos de 2025 são consequências das políticas públicas adotadas até aqui. Há como ser diferente, desde que finalmente se compreenda que o modelo vigente é uma receita certeira para a mediocridade.

Com esquema chocante de Vorcaro, investigação tem de se aprofundar

Por Valor Econômico

A Polícia Federal levantou graves indícios de que dois servidores de alto escalão do BC estavam a serviço dos interesses de Vorcaro e agiram para favorecê-lo

A prisão de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central, e de sócios e comparsas, ontem, permitirá o aprofundamento das investigações sobre os negócios do banqueiro, que, à enorme quantidade de irregularidades e fraudes cometidas, acrescentou um esquema de coerção e vigilância privada para intimidar concorrentes e críticos, a ponto de recorrer a jagunços para planejar violência contra jornalistas. Igualmente importante, um possível novo elo na vasta rede de influência política do banqueiro foi revelado. A Polícia Federal levantou graves indícios de que Paulo Sérgio Novaes de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central (BC), e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão da instituição, estavam a serviço dos interesses de Vorcaro e agiram para favorecê-lo.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que passou a conduzir o inquérito depois que o ministro Dias Toffoli se afastou dele, autorizou a terceira fase da Operação Compliance Zero, após indícios significativos de que Vorcaro e seus colaboradores realizaram intercepção de informações sigilosas de Polícia Federal, Ministério Público e Interpol. O ex-banqueiro, seu sócio Fabiano Zettel, Felipe Moura e Marilson da Silva foram presos. Os funcionários do BC, já afastados, usarão tornozeleira eletrônica.

Vorcaro foi preso em novembro de 2025, quando tentava embarcar para o Oriente Médio, às vésperas da liquidação do Master. O argumento usado para que a juíza Solange Salgado o libertasse foi o de que a viagem tinha um propósito e não se tratava de fuga. No mesmo dia, à noite, soube-se que a Fictor Holding, em sociedade com fundos árabes nunca identificados, havia feito proposta de compra do banco por R$ 3 bilhões. Paulo Souza, do BC, enviou um relato da reunião com um diretor da autoridade monetária na qual fora apresentada a oferta do Fictor para os advogados de Vorcaro, o que auxiliou em sua libertação.

A Fictor entrou em recuperação judicial em fevereiro, com dívidas de R$ 4,2 bilhões, e a PF apontou indícios de gestão fraudulenta e emissões de títulos sem lastro. O BC liquidou o Master no dia seguinte à proposta de última hora da Fictor, uma tentativa fracassada de evitar o fim do banco.

O BC, que agiu corretamente ao liquidar o Master, quase frequentou o banco dos réus. Ele foi acusado de precipitação pelo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jonathan de Jesus, que instaurou inquérito com essa finalidade e tentou restringir o acesso do BC às conclusões dele.

Vorcaro usava sua rede bancária, que captava recursos pagando taxas muito acima de mercado para aplicação e empréstimos que favoreciam a si e seus familiares. À beira da insolvência, tentou repassar uma instituição falida para o estatal Banco Regional de Brasília por R$ 2 bilhões (49% do Master) — e quase conseguiu. A operação teve apoio da diretoria do banco e do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Graças ao BC, que já detectara a transferência de R$ 12,2 bilhões em créditos sem lastro do Master ao BRB, a venda foi barrada. O BRB tem agora de cobrir rombo de R$ 6,6 bilhões para manter-se solvente, e a Câmara do DF aprovou a transferência de 9 imóveis de órgãos estatais ao banco.

A sequência das investigações após a primeira libertação do ex-banqueiro mostrou que ele era de fato não só um risco para o desvendamento de suas ações como também um “perigo iminente”, ao contrário do parecer dado a Mendonça pela Procuradoria Geral da República, que pediu tempo para avaliar a necessidade de sua prisão. Ao que tudo indica, Vorcaro não parou um instante de desafiar a lei. As novas revelações mostram sua outra face: comportamentos mafiosos e potencialmente violentos de sua entourage. Em grupo de WhatsApp, intitulado “A Turma”, planejava a simulação de assalto com violência contra o colunista Lauro Jardim, de O Globo — “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes”. A coordenação do grupo, segundo a PF, ficava a cargo de Sicário (assassino contratado), apelido de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Felipe Mourão, que recebia R$ 1 milhão mensais para serviços sórdidos como ameaças, chantagem, espionagem, suborno etc. — e ontem morreu após atentar contra a própria vida na prisão, segundo a PF.

Em nota, o jornal repudiou os métodos criminosos de Vorcaro: “O Globo e seus jornalistas não se intimidarão com ameaças e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público”. Várias entidades ligadas à imprensa se pronunciaram. A Associação Nacional de Jornais, por exemplo, afirmou que “a tentativa de intimidar um profissional de imprensa por meio de violência constitui ataque inaceitável à liberdade de expressão”. Segundo a ANJ, “métodos dessa natureza, próprios de práticas mafiosas, são incompatíveis com o Estado de Direito e merecem a mais firme rejeição da sociedade brasileira”.

Vorcaro mostrou audácia e a ambição sem limites ao montar um império que burlava leis e deixou um rombo de R$ 52 bilhões até agora. Livre, mostrou que continuará a usar todos os meios a seu alcance, inclusive a violência, contra quem se interponha a seus desígnios. Até que seja julgado, com todos os recursos e direitos que a lei lhe faculta, Vorcaro é uma ameaça à ordem pública e deve ficar preso.

Mulheres oprimidas por uma rotina de agressões

Por Correio Braziliense

Chegamos ao século 21 e as mudanças são insuficientes para que haja uma verdadeira equidade de gênero no país.

Há, de fato, o que se comemorar no 8 de Março, Dia Internacional da Mulher? Não se trata de pessimismo, mas de desafio aos Poderes da República e à sociedade, uma vez que as agressões das mais diversas formas fazem parte do cotidiano feminino ao longo de todos os anos. Chegamos ao século 21 e as mudanças são insuficientes para que haja uma verdadeira equidade de gênero no país. 

Em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no país — alta de 4,7% em relação a 2024 e um recorde na comparação com anos anteriores. Trata-se de crime considerado o ápice de engrenagem de violência que oprime adultas e meninas cotidianamente, com configuração de epidemia — a média é de quatro casos por dia. Basta um "não" ao que homens desejam para que mulheres sejam punidas com a sentença de morte. Prevalece o entendimento de que elas devem ser subordinadas aos caprichos deles, sobretudo de maridos e namorados. 

Quem sobrevive carrega marcas profundas da violência de gênero. Em 2024, também segundo o FBSP, ocorreram 87.545 estupros no país. Das vítimas, 76,8% eram vulneráveis, 87,7% do sexo feminino, e  55,6% negras. A  maioria dos casos (65,7%) ocorreu em casa e os agressores eram familiares (45,5%). Essa abjeta violência às mulheres também é praticada em bandos, como o estrupro coletivo de uma jovem de 17 anos em área nobre do Rio de Janeiro que chegou ao noticiário nesta semana. A adolescente foi vítima do crime bárbaro no fim de janeiro, após ser atraída por um ex-namorado para um apartamento em Copacabana onde estavam outros quatro homens. Todos a violentaram.

Acusados estão detidos e devem ser punidos como prevê a legislação. Mas não basta a privação de liberdade para esses jovens ou para quaisquer outros agressores. É preciso agir e modificar uma estrutura que funciona como salvo conduto para que homens — de qualquer idade e realidade social e econômica  — enxerguem meninas e mulheres como objetos de uso comum. É consenso entre especialistas que essa mudança de paradigma passa pela educação de gênero. 

As leis de proteção às mulheres foram aprimoradas e tornaram-se mais rigorosas no país, mas os avanços seguem insuficientes para impor aos homens que as respeitem em qualquer ambiente. Exemplos vêm, inclusive, daqueles que ocupam instâncias de decisão e poder, como os casos recentes de magistrados afastados por denúncias de crime sexual. Parlamentares também dão mau exemplo, como os recorrentes casos de deputadas, senadoras e ministras que são alvos de ataques misóginos  em plenário e comissões.

Grandes mudanças na sociedade resultaram das lutas dos movimentos feministas. Desde a Constituição Cidadã, as mulheres são reconhecidas e têm direitos equiparados. Mas só isso não basta. É essencial que haja igualdade de gênero em todos setores, públicos e privados, como reconhecimento da importância das mulheres na sociedade. A começar pelos Três Poderes da República.

A inevitável volta à prisão de Daniel Vorcaro

Por O Povo (CE)

Há um aspecto importante no agitado dia político que se vivenciou ontem a partir dos fatos relacionados à investigação do escândalo do banco Master e as responsabilidades que estão sendo buscadas. A volta à prisão de Daniel Vorcaro e as circunstâncias que a envolveram, incluindo a descoberta de que tramava ações violentas em grupos de whatsapp contra quem vinha incomodando-o por denunciar seus malfeitos, jornalistas inclusos, expõe o grau de periculosidade e a ameaça real que ele representava estando livre.

Reconforta perceber que há instâncias procurando fazer uma investigação séria, técnica, distante dos interesses políticos de "a" ou "b". A Polícia Federal foi diligente e ágil na solicitação de prisão, diante de novas provas colhidas, e, de outra parte, o ministro André Mendonça, do STF, decidiu com a presteza necessária para dar efetividade à medida. Os indícios são fortes no sentido de mostrar que a integridade física, e até a própria vida de algumas pessoas, alvos de grupo que tem Vorcaro como líder, estava em risco.

Claro que toda investigação é bem vinda e não seria o caso de exigir das forças políticas que abram mão dos instrumentos à sua disposição para, sendo honesta a intenção, também apurar o que aconteceu e, em especial, identificar agentes públicos vinculados ao esquema criminoso responsável por uma fraude que alcança a casa dos bilhões de reais. A questão, observando-se situações reais verificadas no âmbito da Comissão Parlamentar de Inquérito em funcionamento no Congresso por onde o assunto tem passado, é que há prevalecido apenas o interesse de um lado implicar o outro e vice-versa. Ou seja, busca-se muito mais dividendos políticos e eleitorais do que exatamente esclarecer o que aconteceu e buscar responsáveis.

Acaba sendo uma perda de tempo, mas, como demonstra a operação do dia de ontem, isso não tem atrapalhado o avanço dos trabalhos de policiais, procuradores e magistrados para revelar ao País uma situação muito séria e que revela um esquema que, dentre outras coisas, previa violência física objetiva contra críticos ou adversários. Fica evidenciado que, sim, os tais crimes do colarinho branco valem-se também da truculência quando a prática lhe convém como estratégia de defesa, o que demonstra, por outro lado, a força das provas colhidas contra Vorcaro e companhia.

O Grupo de Comunicação O POVO considera especialmente preocupante o trecho apontado no relatório policial que embasou a decisão do magistrado no qual uma conversa de Vorcaro com um interlocutor, sugestivamente identificado como "Sicário", indica orientaçõo do próprio banqueiro para uso de meios violentos como meio de calar um jornalista que cumpria sua missão de informar. Toda solidariedade ao colunista Lauro Jardim, do O Globo, que aparece naqueles diálogos obtidos pela polícia como potencial vítima do esquema criminoso que ajudara a desbancar com seu trabalho.

O saldo final do dia de ontem, apesar dos pesares, aponta uma vitória das forças do bem, mas não dá para relaxar porque a jornada por cumprir ainda é longa. Sigamos firmes e vigilantes. 

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