Cerco a policiais corruptos é essencial para deter o crime
Por O Globo
Operações em RJ e SP miram em agentes que
atuam como os bandidos a quem deveriam reprimir
São oportunas e necessárias as operações deflagradas em São Paulo e no Rio de Janeiro nas últimas semanas para prender policiais que, valendo-se do escudo de agentes da lei, atuam como os bandidos a quem deveriam reprimir. Tais desvios representam uma anomalia numa sociedade que, fustigada pela violência e pelo crime organizado, deposita suas esperanças nas instituições. É fundamental investigá-los a fundo, identificar os responsáveis e levar a julgamento.
Nesta terça-feira, a Polícia
Federal (PF) deflagrou no Rio uma operação sugestivamente chamada
Anomalia II, com o objetivo de desarticular um grupo criminoso formado por
policiais civis e operadores financeiros. Foram presos um delegado e dois
agentes (um traficante já estava na cadeia), acusados de usar uma delegacia
para extorquir dinheiro do Comando Vermelho, além de atuar na lavagem do
dinheiro. Na segunda-feira, haviam sido presos três suspeitos, entre eles um
delegado da própria PF. O ex-secretário estadual Alessandro Pitombeira, que
ocupou pastas em dois governos diferentes, também foi alvo (ele já estava
detido).
Paralelamente, o Ministério Público (MP) do
Rio deflagrou outra operação para prender 19 policiais acusados de dar proteção
ao bicheiro Rogério Andrade. Os agentes, diz a denúncia, faziam segurança de
pontos de exploração de jogos ilegais e se valiam da corrupção para facilitar a
atuação do grupo.
A promiscuidade entre policiais e bandidos
não fica restrita ao Rio. Em São Paulo, a Justiça Militar condenou 11 PMs
acusados de dar proteção ao delator do PCC assassinado em 2024 (policiais são
acusados também de participar da execução). Na semana passada, MP de São Paulo,
PF e Corregedoria de Polícia
Civil desmantelaram outro esquema envolvendo policiais civis,
doleiros, advogados e operadores financeiros. O grupo, segundo a apuração,
manipulava investigações e agia para destruir evidências, inclusive provas
digitais armazenadas no próprio departamento de polícia.
A prisão de três PMs do Rio no início do mês
expôs mais um caso estarrecedor. Eles foram acusados de ter assaltado um ônibus
de turismo no Arco Metropolitano em maio. Depois de abordar o veículo com passageiros
que voltavam de São Paulo, alegaram que os produtos a bordo não tinham nota
fiscal e passaram a saqueá-los, levando pelo menos 11 celulares. Apesar dos
apelos dos lesados, se recusaram a conduzi-los à delegacia. O trio estava
fardado e usava uma viatura oficial da PM.
Não se deve, naturalmente, tomar tais casos
como retrato da polícia toda. A maioria dos policiais brasileiros arrisca sua
vida e honra sua profissão, essencial para enfrentar a criminalidade. Mas é
fundamental que os corruptos sejam identificados, afastados e punidos. É
inconcebível que agentes pagos pelo Estado para fiscalizar o cumprimento das
leis façam exatamente o contrário do que deveriam.
Há várias implicações perigosas nos desvios
de policiais. Eles põem em risco os próprios colegas, ao vazar informações
internas ao crime organizado e prejudicar investigações. Não se pode dizer que
haja leniência ou cumplicidade das corporações policiais, uma vez que as
operações têm sido levadas a cabo, resultando em julgamentos, condenações e expulsões.
É preciso, porém, refletir sobre a seleção dos agentes e os mecanismos de
controle dos desvios. Bandidos não podem ser admitidos nem tolerados na
polícia.
Saneamento em favela representa avanço, mas
desafios persistem
Por O Globo
Nem sempre é possível urbanizar áreas de
risco, que permanecem sob o jugo do crime organizado
Merece ser comemorada a chegada do saneamento
básico ao Complexo da Maré, no Rio. Suas
16 favelas lançam esgoto em córregos, rios e canais que deságuam na Baía de
Guanabara, poluindo praias e oceano, além de contaminar manguezais essenciais à
preservação da vida marinha. A obra beneficiará 200 mil pessoas ao custo de R$
120 milhões, valor relativamente baixo diante do salto na qualidade de vida. É
preciso, porém, ir além do saneamento. A Maré continua sob o jugo de
traficantes e milicianos que mantêm disputa renhida pelo território. O Estado
precisa entrar lá para ficar.
É crucial estancar o crescimento da ocupação
desordenada do espaço urbano, que resulta em bairros informais onde a população
vive sob risco constante. Décadas de permissividade e falta de planejamento
criaram um enorme passivo na forma de imóveis pendurados em morros ou atolados
em áreas alagadiças. Levar a infraestrutura urbana a tais áreas é fundamental,
mas nem sempre é possível. E, quando é, resta o desafio de impedir que passe a
funcionar a serviço do crime organizado financiando suas atividades, como acontece
com serviços de internet, luz, gás ou coleta de lixo.
Tome-se o exemplo da Rocinha, onde
72.021 moradores estavam distribuídos em 30.371 domicílios, segundo o Censo
2022. Da superfície ocupada pela favela, 59% são terrenos com inclinação
superior a 30%, segundo o Projeto MapBiomas. São, portanto, áreas de risco,
acima do limite legalmente permitido para construções. Nesse caso, nenhuma
infraestrutura urbana será capaz de resolver o problema dos moradores. Eles
precisam ser realocados para regiões seguras.
Regiões planas como a Maré também podem ser
perigosas quando nelas existem rios e córregos, característica de extensas
áreas no Grande Rio. Um exemplo é Vila Urussaí, no município vizinho de Duque
de Caxias, Baixada Fluminense. Desde a forte chuva em 9 de fevereiro, o drama
vivido por uma família retratada em reportagem do GLOBO demonstra os riscos: a
água começou a invadir a casa vindo de baixo do piso da cozinha até formar uma
espécie de chafariz. Os moradores foram para um abrigo e, na volta, encontraram
diversas rachaduras nas paredes. O imóvel corre risco de desabamento, e a
Prefeitura deu à família 45 dias para fazer obras estruturais.
A Vila Urussaí tem 30 anos, é cortada pelo
Rio Saracuruna e vive sob o domínio do tráfico. A ocupação desordenada e ilegal
do solo, sob os olhos de autoridades, costuma vir acompanhada do crime
organizado. “Empresários e milicianos, os piores deles, com políticos,
desconsideram a legislação e se atrevem a construir ou lotear áreas que
deveriam ser protegidas — e não são fiscalizados”, afirma a geógrafa Carla Maciel
Salgado, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
É evidente que o poder público deve fazer o possível para levar o saneamento às áreas que podem ser urbanizadas. Mas não pode esquecer os demais desafios da população que vive em áreas de risco, à mercê do crime organizado.
Diante das alternativas, Haddad fez boa
gestão na Fazenda
Por Folha de S. Paulo
Ministro resistiu às ideias desastrosas do
PT, manteve bons técnicos na equipe e a imagem proba
São bons os indicadores em emprego e PIB, mas
efeitos nefastos da leniência de Lula com déficits tendem a se manifestar nos
próximos anos
A passagem de Fernando
Haddad pelo Ministério da
Fazenda mostrou-se benéfica para o país diante das alternativas.
Ele era o petista mais apto a conduzir a pasta com o menor risco de pôr a
perder conquistas da sociedade, como a estabilidade da moeda.
Assim foi. A sabotagem interna que sofreu
logo no início, capitaneada pelos arautos da gastança Rui Costa (Casa
Civil) e Gleisi
Hoffmann (então presidente do partido), por si só valeria a
Haddad um selo de razoabilidade.
Não que o agora quase ex-ministro da Fazenda
acreditasse no valor central do equilíbrio orçamentário e do livre mercado para
o desenvolvimento econômico, mas compreendeu depressa as responsabilidades que
o cargo lhe impingia e os desastres, para a sua reputação e para o governo, de
uma nova aventura irresponsável como a de Dilma Rousseff.
Colocou-se como anteparo ao estilo rompedor
do presidente, que lhe impôs derrotas e derrubou parte de sua intenção de
promover um mínimo de contenção de despesas obrigatórias. A lassidão de Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
terá sido decisiva para catapultar a dívida federal para perto de 85% do PIB no fim
do ano.
Na Fazenda, um time técnico facilitou a
conclusão da longamente ansiada reforma tributária. Da equipe de Haddad também
saiu Gabriel
Galípolo, que na presidência do Banco Central jamais
fez concessão às esquisitices da ideologia econômica petista e assim propiciou
o controle inflacionário, ao custo de juros elevadíssimos
mas necessários.
Não há notícia de envolvimento do ministro
nem de seus assessores diretos com malfeitos, lobismos e conflitos de interesse
que infelizmente grassam no noticiário de Brasília e se aproximam até da corte
mais alta. Haddad tem sustentado posicionamentos republicanos sobre o
tentacular escândalo do Banco Master.
A inflação média
de 4,6% nos três primeiros anos soma-se ao baixo desemprego (5,4% em janeiro) e
ao bom desempenho do PIB (3% ao ano no triênio) para compor um conjunto
favorável ao ministro que deixará o
cargo sob pressão de Lula e do PT para sacrificar-se mais uma
vez na disputa do governo paulista.
Decerto a sorte ajudou. As trampolinagens
de Donald Trump nos Estados
Unidos promoveram uma fuga do dólar,
o que valorizou o real e favoreceu a estabilidade dos preços no Brasil e os
recordes sucessivos na Bolsa. Resta saber se a aventura
do americano no Irã porá a perder uma parte desse benefício.
Como ocorre amiúde na economia,
o que se planta hoje, de bom e de ruim, frutificará depois. A leniência com o
déficit e a dívida tem mantido os juros altos por tempo prolongado —uma esfera
de chumbo no pé do setor privado— e tende a inviabilizar o Orçamento nos
próximos anos.
Que Haddad logre convencer seu chefe, caso
Lula se eleja para um quarto mandato, da necessidade de reduzir gastos para
tirar o país da rota da debacle fiscal.
Estudando com inteligência artificial
Por Folha de S. Paulo
Universidades de ponta criam protocolos para
a ferramenta, que também está disseminada no ensino médio
Uso da IA deve ser explicitado de forma
detalhada; diretrizes visam aproveitar potencial e reduzir riscos com ética e
transparência
Dado o impacto da inteligência
artificial (IA) na produção textual e de conhecimento, o setor
acadêmico no Brasil e no mundo se mobiliza no sentido de estabelecer regras
para a tecnologia.
Aqui, USP, Unicamp e Unesp estão criando
protocolos e diretrizes, além de estruturar departamentos para
coordenar pesquisas, desenvolver ferramentas e promover a formação de professores,
alunos e funcionários.
No geral, a orientação é a de que o uso da IA
deve ser combinado entre docentes e discentes e explicitado em pesquisas e
trabalhos acadêmicos de forma detalhada, indicando não só modelos e versões mas
também a interação com a ferramenta por meio dos prompts (comandos para
execução de tarefas).
O guia da Unesp, por exemplo, deixa claro o
que estudantes e professores podem e não podem fazer. No primeiro quesito, é
permitido que a IA auxilie em atividades como tradução, revisão gramatical,
elaboração de resumos e criação de roteiros e imagens. Fica proibido submeter
trabalhos gerados por IA e simular resultados experimentais sem indicar o uso
da tecnologia.
Considerando que são instituições de
excelência do ensino superior brasileiro, suas regras tendem a ser reproduzidas
em outras universidades, na educação básica e até em
outros setores.
Escolas já precisam lidar com a disseminação
da IA. A pesquisa TIC Educação de 2025, realizada pelo centro de estudos do Comitê
Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostra que 70% dos
alunos do ensino médio usam IA para fazer trabalhos, e só 32%
relatam que receberam orientação sobre essa tecnologia.
Ademais, não mais de 54% dos professores
tiveram formação continuada para capacitar os estudantes no uso de ferramentas
digitais. O Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão responsável por definir
diretrizes curriculares nacionais para formações superiores, discute uma
resolução que prevê incluir o ensino de inteligência artificial em cursos de
pedagogia e licenciaturas.
No Piauí, uma iniciativa pioneira instituiu,
em 2024, a disciplina obrigatória de IA, que combina fundamentos técnicos e
reflexões éticas, no 9º ano do ensino fundamental e no ensino médio. O programa
foi premiado pela Unesco.
A IA tem enorme potencial educativo e na produção de conhecimento, mas também envolve riscos. O que pesquisas e organismos internacionais indicam é que a formação para o uso consciente, ético e transparente é a melhor forma de desbravar as trilhas abertas pela ferramenta.
Escárnio
Por O Estado de S. Paulo
Explicação da mulher de Moraes sobre o
contrato multimilionário com o Master ofende a inteligência alheia. A PGR tem o
dever de investigar as suspeitas, mas, por ora, omite-se inexplicavelmente
Há explicações que podem convencer um juiz.
Outras talvez satisfaçam um cliente. E há as que não parecem destinadas a
convencer ninguém – apenas a testar até que ponto o público tolera ser tratado
como idiota. Após três meses de silêncio, a nota divulgada pelo escritório da
mulher e dos filhos do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal
Federal, para explicar o contrato com o Banco Master pertence a essa categoria.
O Estadão consultou
13 advogados de bancas de elite e demonstrou que o contrato de R$ 129 milhões
do Barci de Moraes Advogados, que teria vigorado entre fevereiro de 2024 e
novembro de 2025 a uma remuneração mensal entre R$ 3,6 milhões e R$ 5,8
milhões, é absolutamente incompatível com o mercado. Mesmo adotando os preços
do topo, o conjunto de atividades descritas na nota – reuniões, pareceres,
revisão de políticas internas – dificilmente ultrapassaria R$ 7,8 milhões, no
total.
Honorários superiores a R$ 100 milhões são
raros e normalmente estão associados a disputas fiscais ou operações
societárias bilionárias envolvendo batalhões de advogados e múltiplos
escritórios. Os especialistas questionaram ainda o gabarito técnico da banca
dos Moraes nas áreas contratadas. Segundo apuração de O Globo, nunca desmentida, apenas
entre 2023 e 2024 o patrimônio da mulher do ministro aumentou 232%, de R$ 24
milhões para R$ 79,7 milhões. Um fenômeno.
Ou Viviane de Moraes se transformou
repentinamente na mais disputada advogada do Brasil, quiçá do mundo, ou todos
os brasileiros estão autorizados a suspeitar que o contrato comprou serviços
inconfessáveis.
O negócio compõe um mosaico de indícios:
encontros pessoais entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e
Alexandre de Moraes; mensagens interceptadas pela Polícia Federal tratando de
interesses do banco (incluindo no dia da prisão do banqueiro); e contatos
institucionais sensíveis, como com o Banco Central. Nada disso, tomado
isoladamente, é crime. Mas, no conjunto, esses indícios compõem uma base objetiva
que demanda investigação imediata. O mesmo vale para os vínculos do ministro
Dias Toffoli com estruturas financeiras ligadas a Vorcaro, e suas decisões
judiciais enquanto relator do caso Master.
Se fossem aplicados nesse caso os mesmos
critérios que Moraes usou em processos recentes, o ministro estaria agora em
sérios apuros. Moraes, por exemplo, já tratou o apagamento de mensagens em
celular como ocultação de provas. Agora, há indícios de que o ministro tenha
feito o mesmo com as mensagens trocadas com Vorcaro.
Uma vez que os próprios ministros Moraes e
Toffoli se recusam a expor tudo às claras, a responsabilidade de dissipar – ou
confirmar – as suspeitas caberia, antes de tudo, ao Ministério Público. Mas
também aqui os princípios são elásticos. Em outros episódios, o
procurador-geral, Paulo Gonet, amigo e apadrinhado de Moraes, já demonstrou um
zelo incomum – como no caso do empresário ostensivamente investigado após
supostamente hostilizar Moraes em um aeroporto, ou do ex-assessor de Moraes
que, após expor evidências de manipulações processuais pelo ministro, ao invés
de ser ouvido como testemunha, foi convertido em réu. Compare essa urgência
fulminante com a paciência quase geológica no caso Master.
A percepção é de que a aplicação da lei pode
variar, entre sonolenta e draconiana, conforme a posição institucional de quem
está sob suspeita. Pela lógica constitucional, o poder emana do povo, aqueles
que o exercem estão a seu serviço e, como bons funcionários, devem prestar
contas de seus atos. Mas as autoridades togadas invertem essa lógica e tratam o
poder como se fosse coisa sua, e os cidadãos como seus serviçais.
Pior do que uma explicação implausível é a
sensação de que ela foi formulada na expectativa de que ninguém ousará
questioná-la. Quando autoridades acreditam poder oferecer versões que desafiam
a aritmética e o senso comum sem sequer enfrentar uma investigação, algo está
profundamente pervertido na ordem republicana. O ministro Alexandre de Moraes
já demonstrou inúmeras vezes que seu respeito pela lei é seletivo. Poderia ao
menos respeitar a inteligência alheia.
Um espinho entre Lula e Trump
Por O Estado de S. Paulo
Após excluir Brasil e México de iniciativa de
segurança para a América Latina, EUA retomam pressão para tratar CV e PCC como
terroristas. Governo e oposição precisam agir com racionalidade
Um tema espinhoso promete testar a “ótima
química” entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump quando o
brasileiro for a Washington, possivelmente em abril, para uma visita ao
americano: a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando
Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Sob Trump, os EUA já categorizaram diversos
grupos criminosos da América Latina como terroristas. Agora, a Casa Branca
volta a fazer pressão para que PCC e CV recebam o mesmo tratamento. O governo
Lula é contra – e está certo, pois se trata de organizações criminosas cujo
objetivo é enriquecer seus integrantes, ainda que eventualmente suas ações
aterrorizem a população.
A questão volta à tona praticamente no mesmo
momento em que Trump anunciou uma nova iniciativa de segurança para o
Hemisfério Ocidental, batizada com o retumbante nome de Escudo das Américas. À
frente dessa articulação estará Kristi Noem, que se notabilizou como a face da
linha dura da política anti-imigração e que acabou demitida por Trump do
Departamento de Segurança Interna após uma série de polêmicas.
Para o lançamento da iniciativa, Trump reuniu
em Miami uma dezena de presidentes latino-americanos fortemente alinhados a
ele, entre os quais os da Argentina, Javier Milei, e do Paraguai, Santiago
Peña. Ambos também são apoiadores de outro controvertido projeto de Trump, o
Conselho da Paz, uma espécie de ONU paralela.
“Assim como formamos uma coalizão para
derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio, agora precisamos fazer o mesmo
para erradicar os cartéis aqui no nosso hemisfério”, discursou Trump, em defesa
de ações militares dos EUA na América Latina.
Muito além do discurso de Trump, chama a
atenção o fato de que os presidentes do Brasil, da Colômbia e do México, todos
de esquerda, não foram convidados para o lançamento. Considerando-se que esses
países são os mais relevantes na produção e no escoamento de drogas na região,
fica claro que o tal Escudo das Américas é mais retórico que efetivo.
Pouco depois do encontro, porém, o chanceler
Mauro Vieira conversou por telefone com o secretário de Estado americano, Marco
Rubio, para falar da reclassificação de PCC e CV como organizações terroristas.
O Itamaraty teme, não sem razão, que a
mudança enseje intervenções militares dos EUA em solo brasileiro, a exemplo da
que ocorreu na Venezuela, resultando na prisão do ditador Nicolás Maduro.
Embora ninguém lamente que Maduro esteja hoje
trancafiado em uma prisão de Nova York, o fato é que Trump usou uma
interpretação elástica das leis americanas e do Direito Internacional para
capturar o presidente de um país estrangeiro, sob o argumento de que se tratava
do líder de uma organização narcoterrorista.
Se o histórico de intervenções militares dos
EUA na América Latina já não fosse o suficiente para causar preocupação, é
preciso levar em conta o comportamento errático de Trump. Não se sabe o que
pode levá-lo a decidir que determinada organização criminosa é “terrorista” e
ordenar uma ação em qualquer país da região que a abrigue.
Em ano de eleição presidencial, porém, parte
da oposição a Lula já faz coro entusiasmado às propostas de Trump, esperando
capitalizar a linha dura contra a criminalidade embutida na iniciativa
americana e, ao mesmo tempo, vincular ao governo petista a imagem de defensor
do PCC e do CV.
Já o governo Lula, cuja gestão da segurança
pública é vista com desconfiança por boa parte dos eleitores, acerta ao tentar
buscar entendimentos com os EUA em relação ao enfrentamento do crime
organizado.
Lula já sinalizou que quer trabalhar com os
americanos no combate ao narcotráfico, ao tráfico de armas e à lavagem
dinheiro, o que faz todo sentido. As sinergias entre os dois países em áreas
como a de inteligência, por exemplo, devem ser estimuladas.
Contudo, não será fácil convencer os EUA a
não classificar PCC e CV como terroristas, porque é justamente essa
classificação que deixará Trump à vontade para intervir militarmente onde bem
entender. Isso deveria ser levado em conta muito seriamente por todos aqueles
que, no Brasil, se deixam encantar pelo discurso linha-dura de Trump.
Prova de fogo para a Petrobras
Por O Estado de S. Paulo
Guerra faz disparar cotação do petróleo e
pressiona a política de preços da empresa
Mais rápido do que o esperado, a nova guerra
no Oriente Médio fez a cotação do petróleo ultrapassar US$ 100 o barril. Oito
dias depois do primeiro bombardeio de Estados Unidos e Israel contra Irã, o
barril do tipo Brent, referência internacional, encostou em US$ 120, o que não
era visto desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2022. Caiu em seguida, mas
permanece rondando o patamar de US$ 100.
A intensidade e a rapidez com que o conflito
no Golfo Pérsico, principal região produtora de petróleo do mundo, afetam o
preço da commodity tendem a colocar a Petrobras, mais uma vez, ante a adoção do
modo “privado” ou “estatal” na travessia da nova ordem econômica mundial. As
decisões a partir de agora indicarão o quão profunda pode ser a interferência
política do lulopetismo na estratégia comercial da empresa.
Por enquanto, como grande exportadora de
petróleo cru, hoje o principal item da pauta comercial brasileira, a Petrobras
está lucrando com a valorização acelerada da commodity. Mas pode zerar ou até
mesmo reverter ganhos dependendo do período em que a escalada da cotação se
prolongar sem repasses proporcionais aos preços domésticos dos produtos
derivados, como gasolina e diesel.
Há pouco mais de uma década, a escolha errada
foi desastrosa para a companhia. Entre 2011 e 2014, no primeiro mandato de
Dilma Rousseff, o preço internacional do barril Brent se manteve
sistematicamente acima de US$ 100 por motivos parecidos: a Primavera Árabe
deflagrou fortes conflitos no Oriente Médio e norte da África com interrupções
no fornecimento, enquanto a demanda mundial crescia. Ignorando solenemente o
drástico cenário internacional, o governo petista de então manteve represados
os preços internos e deteriorou sem dó o caixa da empresa, que registrou em
2015 prejuízo de R$ 34,83 bilhões, o maior da história da empresa.
A intenção era manter a inflação controlada,
ainda que artificialmente e à custa da saúde financeira da Petrobras. Não será
exagero identificar aí um padrão lulopetista em relação à empresa, mesmo com
todas as medidas de blindagem da governança adotadas depois do
arrasa-quarteirão da era Dilma. Um rigor que, a duras penas, conseguiu
controlar o endividamento monstruoso da companhia e recolocá-la num ciclo de
crescimento.
A guerra atual não dá sinais de que será
curta como se imaginava a princípio. Com a irresponsabilidade de sempre, o
presidente Donald Trump diz que a disparada do petróleo “é um pequeno preço a
pagar” diante de seus objetivos no Irã e dita os rumos da economia mundial a
partir da potência econômica dos EUA.
No Brasil, o ano de 2026 se anuncia como a prova de fogo para a Petrobras. Num momento em que a empresa conseguiu um alinhamento razoável aos padrões internacionais e comemora recorde de produção que levou ao aumento de 200% no lucro de 2025 em relação ao ano anterior, um novo congelamento forçado de preços para segurar de forma ilusória a inflação e manter os objetivos eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva seria uma infeliz volta ao passado.
BC deve iniciar ciclo de cortes em cenário
turbulento
Por Valor Econômico
Houve chances para cortar os juros antes, em
cenários favoráveis, mas os gastos do governo, na contramão da política
monetária, obrigaram o BC a uma postura firme
Depois que a inflação começou a caminhar de
fato para a meta de 3%, sob pressão da maior taxa de juros desde 2006, o Banco
Central (BC) terá de voltar a se preocupar com nova desancoragem — a guerra no
Oriente Médio, sem fim à vista, empurrará em certa medida e por algum tempo os
preços para cima. As cotações do petróleo, que chegaram a ultrapassar US$ 110,
ontem recuaram a US$ 90,9, dançando ao sabor da retórica de sinais mistos e
incongruentes do presidente Donald Trump. Nada mudou: a situação hoje é pior
que a de ontem, com o Estreito de Ormuz fechado para a quase totalidade dos 20%
do fornecimento mundial que trafega por suas águas. O BC indicou que reduzirá a
taxa Selic, mas o conflito deu um sinal de que o plano de cortes graduais e
continuados está em xeque.
O petróleo influi nos custos de uma vasta gama
de produtos necessários, de plásticos a fertilizantes. Se as cotações
permanecerem altas, os efeitos para o mundo serão inflacionários e contra o
crescimento. O Brasil não foge desses constrangimentos, mas tem algumas
características distintas. Ao contrário dos países desenvolvidos, a transmissão
dos aumentos do óleo para os preços não é automática. O mercado não é livre,
mas quase monopolista, com a estatal Petrobras decidindo
quando e quanto das cotações mundiais irá repassar aos consumidores. A empresa
tem sido mais rápida em diminuir do que em aumentar preços e deverá manter essa
conduta agora. A volatilidade global é absorvida pelo caixa da empresa, até
certo ponto.
O Brasil é um grande exportador líquido de
petróleo. Suas vendas externas aumentaram 6,8% no primeiro bimestre do ano,
para US$ 7,7 bilhões, suplantando a soja com vantagem como primeiro item da
pauta comercial, com 15,1% do total. O país também importa muitos derivados do
petróleo, como diesel e gasolina (US$ 2,46 bilhões no período), mas a balança
do petróleo é amplamente superavitária. Isso não impedirá a Petrobras de ter de
elevar os preços dos combustíveis, já que, com a disparada das cotações, a defasagem
de preços do diesel chega perto dos 50%, segundo analistas.
Além da enorme vantagem de não depender tanto
do abastecimento de fora, os superávits com o óleo amortecem os movimentos pela
valorização do dólar, que se fortaleceram globalmente com o início da guerra. A
moeda americana quase zerou perdas de 10% ante uma cesta de divisas dos
principais países com os quais os EUA comerciam. A maxidesvalorização do dólar
diante do real provocou uma inflação difícil de domar a partir do fim de 2024,
mas o real tem se valorizado mesmo diante de uma crise externa séria, algo
pouco comum. De janeiro até ontem, o dólar caiu 8%, e seu pico com a explosão
das cotações do petróleo até agora mal ultrapassou R$ 5,35, para recuar logo em
seguida. Ontem, o dólar foi cotado a R$ 5,15.
O petróleo ampliará o superávit da balança
comercial, mas ela recentemente não tem sido o maior fator acumulador de
divisas fortes, papel representado pelo câmbio financeiro. Geralmente
deficitário, nos dois primeiros meses do ano ele foi positivo em US$ 10,5
bilhões, com guinada de US$ 18 bilhões ante o resultado de 2025 (-US$ 7,54
bilhões), para aplicações em ações ou renda fixa. Ou seja, a menos que haja uma
piora significativa no abastecimento mundial do petróleo ou um prolongamento
significativo do conflito, o dólar não deverá ser um canal de contágio decisivo
para as turbulências externas.
No entanto, haverá sequelas inflacionárias
vindas de várias frentes. Os preços dos alimentos devem subir, atingidos pelo
aumento dos custos de transporte e pela elevação dos preços dos fertilizantes
(30% de sua oferta passa por Ormuz). Não há problemas de abastecimento interno,
mas a inflação importada pode chegar durante a campanha eleitoral, e isso não é
uma boa notícia para um presidente que tenta a reeleição. Usinas termelétricas,
usadas intensamente para o fornecimento de energia, podem sofrer o impacto de
alta dos combustíveis, com eventual aumento das tarifas, diante do fim iminente
da estação chuvosa no país.
Mesmo em um cenário que hoje parece otimista,
com o barril do petróleo em US$ 80, economistas de bancos preveem que o IPCA
voltará ao teto da meta ou o ultrapassará. É o caso do cenário do BTG, pelo
qual o IPCA terá alta de 0,6 ponto percentual diante da projeção anterior
(4,1%) e chegará a 4,7%. Com o mesmo preço do barril, a XP estima um IPCA de
4,5%. A boa notícia é que ambos esperam uma queda expressiva do déficit
primário pelo aumento da arrecadação com royalties, participações especiais e
outras compensações advindas do maior preço do petróleo.
A disparada do petróleo colocou na defensiva todos os bancos centrais, e se o caos persistir no Oriente Médio, eles terão de interromper os cortes de juros ou voltar a elevar as taxas. No Brasil, as reduções de juros sequer começaram e terão de ser administradas com cautela. Houve chances de fazê-las antes, em cenários favoráveis, mas os gastos do governo, na contramão da política monetária, obrigaram o BC a uma postura firme. Mais uma vez, o cenário externo traz empecilhos para o corte dos juros, quando as condições eram favoráveis bem antes do início da guerra com o Irã.
Briga no futebol expõe diversas falhas
sociais
Por Correio Braziliense
Assim como a punição contra as torcidas
organizadas não surte qualquer efeito há décadas, o gancho pesado contra os
atletas de Atlético e Cruzeiro não resolve a raiz do problema
A cada briga generalizada que jogadores e
torcedores de futebol protagonizam nos estádios brasileiros, o repúdio da maior
parte da sociedade logo surge. O termo "cenas lamentáveis" foi tão
usado por narradores para classificar os atos de selvageria que se tornou
folclórico, assim como o uso do verbo "manchar", como se aquele filme
repetido comprometesse o espetáculo. Tais categorizações são justíssimas para
rotular batalhas campais — como a ocorrida no Mineirão, no último domingo,
entre Cruzeiro e Atlético pelo campeonato mineiro, com 23 expulsões de ambos os
lados. No entanto, elas pouco influenciam o debate público.
A verdade é que a maior parte dos torcedores
que acompanharam a pancadaria in loco ou a distância analisa a briga com viés
de pertencimento. Como se a violência e a ignorância fossem valores
inquestionáveis do esporte, um retorno às raízes.
Ignora-se, em primeira instância, que atos
como o ocorrido no Mineirão reproduzem símbolos importantes da fragmentação do
futebol latino-americano. O machismo e o ganguismo manifestados pelos jogadores
de Atlético e Cruzeiro são elementos tão presentes num estádio de futebol
quanto as traves e as redes do gol.
Em primeira análise, a reação explosiva, que
de "cabeça quente" não tem nada, tem sempre prioridade quando o
homem, neste caso específico, o goleiro Everson, é colocado em posição
inferiorizada. Diante do revés próximo para o maior rival, o jogador não tem
outra opção a não ser recorrer à virilidade, como se ela fosse suficiente para
reverter o quadro em questão. São reações também vistas a cada apito final da
Copa Libertadores, quando os derrotados, sem outra alternativa, partem para a
pancadaria.
Em segundo passo, aparecem elementos do
ganguismo. Ao ver seu companheiro agredido, os jogadores transformam o campo de
futebol em uma arena de luta e levam o estádio para a Roma de Trajano, o
imperador conhecido por organizar os maiores jogos da história da capital
italiana, com milhares de gladiadores.
A categorização da briga como algo que
pertence ao campo de jogo é tão marcante que o atacante argentino Tomás Cuello,
do Atlético, tem sido cobrado pelos torcedores por ter tentado separar os
colegas viris. Em uma inversão de valores evidente, quem recusa a reprodução da
violência recebe cobranças semelhantes às de um pênalti perdido.
Nos dias que sucedem à tragédia — aqui o uso
mais teatral do termo, ligado à catarse (busca pela purificação emocional a
partir, entre outras coisas, do terror) — a opinião pública recorre a um
receituário conhecido: cobra-se punições e ganchos pesados para os gladiadores
de chuteira e meiões, como se isso fosse suficiente para resolver o problema.
Assim como a punição contra as torcidas
organizadas não surte qualquer efeito há décadas, o gancho pesado contra os
atletas de Atlético e Cruzeiro não resolve a raiz do problema. Isso quer dizer
que eles mereçam a impunidade, mas, se não há investimento em educação para
promover um debate sério sobre a reprodução da violência no esporte, pouco
adianta deixar um jogador fora de algumas partidas — se é que haverá qualquer
tipo de sanção.
Nesse cenário, é preciso dizer o óbvio: a naturalização da violência no esporte é mais uma representação de um mal social de fácil diagnóstico, mas de difícil — ou ignorada — resolução. Uma sociedade violenta gera comportamentos também violentos, que se espalham por diversos espaços, entre eles o campo de futebol.
A Justiça no combate à violência contra a
mulher
Por O Povo(CE)
É louvável a recente decisão da Justiça
cearense, que aceitou denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE) e tornou
réus quatro homens suspeitos de participação em uma campanha de ódio contra a
farmacêutica Maria da Penha Fernandes, ativista considerada símbolo do combate
à violência doméstica contra a mulher. Um dos réus é o ex-marido de Maria da
Penha, Marco Antônio Heredia Viveiros.
Segundo a denúncia, os acusados atuaram de
"forma organizada para atacar a honra da ativista e descredibilizar a lei
que leva o nome dela". De acordo com os documentos divulgados, os homens
cometeram perseguição virtual e divulgaram notícias falsas. Além disso,
utilizaram um laudo de exame de corpo de delito forjado a fim de defender a
inocência de Viveiros, condenado por tentativa de homicídio contra Maria da
Penha.
A farmacêutica foi baleada em maio de 1983,
quando levou um tiro de espingarda nas costas enquanto dormia em sua casa em
Fortaleza. A agressão a deixou paraplégica. O caso foi inicialmente relatado
pelo ex-marido como um assalto.
Os demais acusados identificados pelo MPCE
são o influenciador digital Alexandre Gonçalves de Paiva; o produtor do
documentário "A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha", Marcus
Vinícius Mantovanelli; e o editor e apresentador do documentário, Henrique
Barros Lesina Zingano. Conforme a denúncia, Alexandre foi acusado de
intimidação sistemática e perseguição e Marcus Viveiros responderá por
falsificação de documento público. Mantovanelli e Zingano respondem por uso do
documento falso, o qual foi divulgado no documentário.
Em agosto, a Lei Maria da Penha (nº
11.340/2006) completará 20 anos. É considerada um marco na luta contra a
violência doméstica no Brasil e reconhece todas as batalhas de Maria da Penha,
cujo trabalho por justiça incentivou a norma. Mesmo após duas décadas,
percebe-se o quanto ainda é necessária a proteção da mulher além do reforço ao
enfrentamento à cultura machista vigente.
A fim de destacar essa bandeira que é
historicamente defendida pelo O POVO, o Grupo lançou uma campanha publicitária
que visa ao combate à violência contra a mulher. A campanha apresenta peças que
mostram mulheres vítimas de agressão e uma mensagem direta: "A violência
contra a mulher não tem cara, cor, idade, classe social. Não tem justificativa.".
A partir da campanha, O POVO reafirma seu
compromisso histórico com a defesa dos direitos humanos e com o enfrentamento
da violência de gênero, utilizando o alcance do jornalismo e da comunicação
para estimular reflexão, responsabilidade coletiva e ação.
A mensagem final incentiva à denúncia de
violência por meio da Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180, canal
nacional de acolhimento e orientação.
Desse modo, destaca-se a ação da Justiça ao combater os agressores que insistem em praticar e incentivar a violência de gênero, combatendo a impunidade. Também, reforça-se a contínua necessidade de estimular a prevenção contra tais tipos de crime que são, indubitavelmente, uma terrível violação dos direitos humanos.

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