Regulação do uso militar da IA é urgente
Por o Globo
Batalha da Anthropic contra governo americano
é a mais relevante para futuro de guerras
A batalha militar mais relevante para o futuro do mundo não é travada hoje no Oriente Médio ou na Ucrânia, mas dentro dos Estados Unidos. Envolve o uso da inteligência artificial (IA) como arma e opõe o governo Donald Trump a uma das líderes no mercado de IA, a californiana Anthropic. O secretário da Guerra — nome ainda não aprovado pelo Congresso —, Pete Hegseth, anunciou a classificação da empresa como “risco à cadeia de suprimentos”, categoria em geral reservada a corporações estrangeiras cujos produtos são vistos como ameaça à segurança nacional. O motivo alegado é a recusa do CEO da Anthropic, Dario Amodei, em permitir qualquer aplicação de seus produtos. Amodei quer vetar uso para “vigilância em massa” ou “armas autônomas”, mesmo que não haja ilegalidade.
O modelo de IA Claude e suas variantes, da
Anthropic, têm conquistado o mundo corporativo na disputa com o ChatGPT da
OpenAI (esta aceitou os termos do contrato com o Departamento da Guerra). Como
todos os pioneiros do setor, Amodei acredita desenvolver uma tecnologia
todo-poderosa e pretende impor limites éticos a seu uso. A preocupação é
pertinente.
Robôs de IA podem reunir informações
dispersas em bancos de dados públicos e redes sociais para traçar um perfil
detalhado dos cidadãos, facilitando a vida de ditadores e governos
autoritários. Na Europa ou no Brasil, há barreiras jurídicas a isso, como a Lei
Geral de Proteção de Dados. Nos Estados Unidos, não. “Um presidente que quiser
coletar dados na internet e reunir a bases estatais constrói um Grande Irmão na
hora que desejar”, escreveu o
colunista do GLOBO Pedro Doria.
A ameaça mais crítica vem da evolução de
agentes autônomos de IA. Eles podem em tese decidir atacar sozinhos, sem
intervenção humana. Nos cenários mais catastróficos, poderiam invadir sistemas
da polícia, desligar geradores de energia ou enviar mensagens a militares
simulando ataques. “Agentes de IA são uma arma poderosa. Se não hoje, em breve
serão mais poderosos que qualquer arma”, escreve o economista americano Noah
Smith.
Smith defende que certos agentes sejam
proibidos — como são proibidos aos cidadãos armas nucleares ou tanques de
guerra. De acordo com ele, por mais que a motivação da Anthropic ao tentar
restringir o uso de seus modelos seja nobre — ela diz que recorrerá à Justiça
da decisão de Hegseth —, não cabe a uma empresa privada tomar decisões tão
relevantes. Se uma empresa desenvolvesse armas nucleares, não deveria ter o
direito de ditar seus termos ao governo numa democracia. “Amodei não foi eleito
nem presta contas ao público”, afirma Smith. “Não se trata de questão legal ou
de normas sobre propriedade privada. É questão do monopólio do Estado-nação no
uso [legítimo] da força.”
Em entrevista à revista The Economist, Amodei
pediu desculpas pelos termos que usou para se referir ao governo Trump e
afirmou que as negociações com o Departamento da Guerra continuam. “Se há algo
que podemos todos aprender na discussão desta tecnologia e de seu balanço de
poder, é que as questões estão se tornando urgentes e precisamos acordar para
elas”, disse. Ele tem razão. Não deveria ser necessário esperar um ataque
terrorista ou a invasão de sistemas críticos para autoridades do mundo todo
imporem limites ao uso militar da IA.
Caso do MPRJ revela manobras e expõe
distorções dos supersalários
Por O Globo
Resposta a indagação do STF mostra os
artifícios que inflam a remuneração da elite do funcionalismo público
A distorção dos supersalários no setor
público não está restrita a servidores federais. Estende-se também a estados e
municípios. São recorrentes as manobras e artimanhas usadas por juízes,
procuradores e outros medalhões do funcionalismo para inflar seus contracheques
além do permitido pela Constituição — R$ 46,4 mil mensais, salário de um
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
O caso do Ministério Público do Rio de
Janeiro (MPRJ) expõe de modo contundente o descontrole. No início do mês, reportagem do
GLOBO revelou que 90% dos promotores e procuradores não apenas recebem acima do
teto constitucional, como ganham mais de R$ 100 mil por mês. Em
dezembro, engordada por gratificações natalinas, a remuneração de mais de cem
passou de R$ 200 mil. A reportagem mostrou que contracheques generosos são
comuns noutros organismos estaduais e municipais, como Tribunal de Justiça,
Tribunal de Contas do Estado, Procuradoria-Geral do Estado e do Município.
O ministro Gilmar Mendes,
do STF, exigiu do MPRJ explicações detalhadas sobre as verbas indenizatórias —
os proverbiais “penduricalhos”. A resposta, protocolada na última quarta-feira,
é uma aula de como funcionam na prática. O MPRJ forneceu uma lista com sete
modalidades de remuneração, seis de auxílio e sete de verbas recebidas a título
de “indenização”. Ao todo, gastou em janeiro R$ 35,3 milhões com salários, mas
R$ 121 milhões noutras verbas (78%). Em fevereiro, salários somaram R$ 36
milhões, ante verbas de R$ 266,8 milhões (88%).
Há “penduricalhos” de todo tipo: auxílio-saúde,
alimentação, transporte, moradia, educação, mudança, diárias em deslocamento,
indenização por plantões etc. A principal manobra usada para aumentar a
remuneração é a “licença compensatória por assunção de acervo”, uma indenização
por “excesso de trabalho”. Correspondeu a 42% do que o MPRJ pagou aos
procuradores em janeiro e a 74% em fevereiro. Outro artifício é a “indenização
por férias não gozadas”, quase 20% do total de janeiro (e 3% em fevereiro).
O questionamento de Gilmar foi motivado pela
suspeita de haver pagamentos retroativos, proibidos por liminar a todas as
esferas do funcionalismo enquanto o Supremo tenta criar uma disciplina sensata
para os “penduricalhos”. O MPRJ nega ter feito qualquer pagamento retroativo.
“Algo bem diverso é o sistema de indenização de dias de ‘inatividade’ não
fruídos”, diz o ofício assinado pelo procurador-geral Antonio José Campos
Moreira. Ele chega a defender que o limite de R$ 46,4 mil estabelecido pelo
Conselho Nacional do Ministério Público para “atrasados” — na prática dobrando
o teto constitucional — não deve se aplicar à parcela correspondente a um mês
de férias não usufruídas nem às “licenças compensatórias”, maior fração do que
ganham os procuradores.
O julgamento das ações sobre “penduricalhos” está marcado para o próximo dia 25. É fundamental que o STF dê um recado cristalino sobre tudo o que é ilegal e acabe em definitivo com distorções como as praticadas pelo MPRJ.
PF e imprensa implodem pacto de silêncio
Por Folha de S. Paulo
Impediu-se tentativa de altas autoridades de
abafar indícios de alastramento da corrupção
A atitude correta da maioria dos ministros do
STF seria favorecer investigação profunda e definitiva sobre as suspeitas
Foi abalado o pacto de
silêncio tacitamente firmado nos últimos anos entre altas
autoridades e a elite política do país em torno das evidências de alastramento
da corrupção.
A Polícia
Federal, na esfera pública, e o jornalismo profissional, na
sociedade, têm sido os responsáveis por fazer soar o alarme.
A esta altura, pode-se estimar o efeito da
anestesia se ela ainda estivesse ativa. Com a sem cerimônia usada para suspender R$
18,8 bilhões em multas da Lava Jato, Dias Toffoli teria
enterrado qualquer investigação dos malfeitos do ex-banqueiro Daniel
Vorcaro.
Passaria incólume a relação multimilionária
do escritório da mulher de Alexandre de
Moraes com o Banco Master,
bem como a comunicação
do ministro do Supremo com Vorcaro horas antes de ele ser
preso, e seu banco, liquidado. Público e aposentados do INSS teriam sido
privados de saber do furto de R$ 6,3 bilhões por quadrilhas enquistadas no
Executivo federal. Não teriam visto a luz do dia os indícios de conexão entre o
desfalque e um filho do presidente da República.
Não que as tentativas de abafar os escândalos
e suas repercussões tenham cessado. O ministro Gilmar Mendes anulou a
quebra de sigilos, decretada pela CPI do Crime Organizado, da
empresa de Dias Toffoli que recebeu pagamentos de um fundo ligado a Vorcaro.
Seu colega Flávio Dino aliviou a barra de
Fabio Luis Lula da Silva ao derrubar a quebra de seus sigilos, decidida pela
CPI do INSS. Não há assinatura petista no pedido de CPI para investigar Toffoli
e Moraes no Senado.
Elevou-se o custo do abafa, no entanto. Com a
ferida exposta, cada atitude de autoproteção de autoridades e políticos reverte
em mais desgaste institucional. Abafar tornou-se quase impossível. A Polícia
Federal deu mostras de independência suficientes para assegurar que as
investigações vão prosseguir a despeito de haver pressão contrária nas altas
esferas. A condução de André Mendonça dos dois inquéritos —Master e INSS—
tampouco indica concessões à acomodação.
É uma lástima que o ânimo corporativista
subjugue o republicano nessa crise grave, que pela primeira vez engolfa dois
juízes da mais alta corte. A atitude correta da maioria dos ministros do STF seria
favorecer investigação profunda e definitiva sobre as suspeitas, mesmo que isso
implique atingir os próprios integrantes.
Esquivar-se da tarefa vai alimentar as
correntes antissistema às portas da eleição nacional. E vai delegar a outros
Poderes, de pendor plebiscitário, uma resposta que deveria vir embalada em
diligência e equilíbrio.
Lula faz gambiarra para segurar o preço do
diesel
Por Folha de S. Paulo
Decorrente da guerra, encarecimento dos
combustíveis apanha governo com finanças depauperadas
Tentativa de compensar subsídio virá de
imposto sobre exportações; Bolsonaro também usou cofres públicos para conter
preços
Diante do iminente encarecimento
dos combustíveis em razão da guerra no Oriente Médio,
Luiz Inácio Lula da
Silva se viu forçado a editar às pressas um pacote de
subsídios para conter o preço doméstico do óleo diesel.
Dado que o governo petista chegou a este ano eleitoral com as finanças
depauperadas, o jeito foi passar os custos para a Petrobras.
Por decreto, o Planalto abriu mão de tributos
sobre a venda de diesel, o que implica renúncia de receita equivalente a mais
de R$ 20 bilhões em um ano. Uma medida provisória prevê ainda subsídio de até
R$ 10 bilhões para empresas que venderem o óleo abaixo de um valor de
referência.
Para evitar um déficit ainda maior que o
projetado nas contas do Tesouro Nacional, fixou-se um imposto de 12% sobre as
exportações de petróleo,
que será recolhido, na maior parte, pela gigante estatal do setor.
Impossível não notar a coincidência com o
roteiro de 2022, também ano de eleições presidenciais, quando Jair
Bolsonaro (PL) usou os cofres públicos para conter o aumento
dos preços dos combustíveis resultante da Guerra da Ucrânia.
Antes como agora, agiu-se sob o temor de mais uma greve dos caminhoneiros e sob
pressões do agronegócio.
É fato que, naquela ocasião, adotaram-se
providências temerárias, de impacto orçamentário muito maior; também é fato que
as contas do Tesouro estavam em situação menos dramática.
A gambiarra de Lula pode trazer benefícios ao
atenuar a alta de preços e a piora de expectativas inflacionárias, que tendem a
dificultar a redução dos juros do Banco Central.
Há riscos, porém.
Primeiro, o cálculo da renúncia de receitas é
menos incerto que o do ganho de arrecadação, que depende de preços do petróleo,
da taxa de câmbio e da estratégia das empresas afetadas.
Segundo, trata-se de paliativo que tende a
ser pequeno. As medidas não tratam de gasolina, combustível de aviação nem de
outros aumentos de custos provocados pela guerra, como os de fertilizantes e
fretes marítimos.
Se o governo se abstiver, corretamente, de
intervir, a Petrobras deverá elevar preços, como já o fez nesta sexta (13) no
caso do diesel, aparentemente em movimento concertado com Brasília.
Se não tivesse autonomia para definir o
quanto cobra por seus produtos, a petroleira prejudicaria sua solidez
econômica, afetando a inevitável importação de diesel e outros derivados.
Por fim, há o perigo de o paliativo se
perpetuar. Mudança duradoura de patamar de preços não deve ser combatida com
mais subsídios, isenções tributárias ou, pior ainda, tabelamentos.
Empresas quaisquer e consumidores devem
receber sinais corretos de preços, que orientam reorganizações produtivas
eficientes e, no caso específico de combustíveis, o caminho para a transição
energética. Controles de preços geram distorções no consumo, no investimento e
prejudicam a produtividade.
Pé-de-Meia funciona, mas não é suficiente
Por Folha de S. Paulo
Pesquisa mostra que programa de auxílio
financeiro a alunos do ensino médio reduz taxa de evasão escolar
Estima-se diminuição de 6,5 pontos na evasão
ante cenário sem o programa; articulação com outras ações podem melhorar
resultados
Se a demanda por evidências na formulação de
políticas públicas tornou-se um lugar-comum, é porque tal respaldo técnico é o
meio menos arriscado e potencialmente mais eficaz de aplicar verbas públicas em
prol do contribuinte.
Tome-se como exemplo o
programa Pé-de-Meia. Quando foi implantado pelo governo federal em
2024, pesquisas indicavam possíveis benefícios em sistemas de auxílio
financeiro a estudantes de estratos mais pobres para conter a evasão escolar
—um gargalo histórico da educação brasileira,
notadamente no ensino médio.
Agora, estudo
realizado por Insper, Instituto Sonho Grande e Instituto Natura,
lançado na sexta (13), revela que o programa alcança em parte seu objetivo, mas
que resultados melhores podem ser obtidos por meio de ajustes e articulação com
outras ações.
De acordo com a pesquisa, que projeta o
impacto do Pé-de-Meia por meio de análises de iniciativas internacionais
similares e dados sobre o comportamento de alunos perante bolsas, a taxa de
evasão composta (nos três anos do ensino médio) com o programa é de 19,9%, uma
redução de 6,5 pontos percentuais ante a estimativa sem o programa.
A diminuição mínima para um custo-benefício
favorável é de 2,5 pontos. No Ceará, foi verificada a maior redução (10
pontos), e no Paraná, a menor (4,4).
O estudo conclui que locais com mais famílias
vulneráveis são mais impactados, e que nem sempre aqueles em que a taxa de
evasão era alta antes do Pé-de-Meia têm maior redução depois. Isso quer dizer
que as desigualdades regionais nas taxas de evasão se mantêm com o programa.
Segundo os dados, 1 em cada 4 alunos que iria
evadir não o faz por causa do Pé-de-Meia; 1 posterga a evasão, que pode ocorrer
no 2º ou 3º ano; e 2 não alteram a decisão de abandonar os estudos. Aumentar o
valor do auxílio não interfere nesse cenário.
Cerca de 56% dos R$ 9.200 recebidos por aluno
durante todo o ensino médio são pagos no último ano dessa etapa, e o programa
funciona mais como incentivo do que como forma de sustento. Assim, para os
pesquisadores, elevar esse percentual a 75% pode incrementar eficácia.
Ademais, a evasão é fenômeno multifatorial
que envolve desinteresse pelos estudos, violência doméstica,
necessidade de trabalhar, discriminação e bullying,
gravidez precoce, oferta educacional (falta de vagas ou de transporte) e
problemas de saúde.
Sem ações interdisciplinares com foco na melhoria da aprendizagem, não há Pé-de-Meia que mantenha os alunos nas escolas.
A imprensa não se deixará intimidar
Por O Estado de S. Paulo
Ao mobilizar a PF contra um jornalista que
expôs conduta imprópria do colega Dino, Moraes ameaça todos os jornalistas que
ousarem perscrutar os ministros do STF. Em vão
Quando um ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) mobiliza o aparato persecutório do Estado contra um jornalista em
razão de uma reportagem incômoda, já não se pode dizer que o Brasil seja um
país democraticamente saudável. Pois foi o que fez o sr. Alexandre de Moraes ao
ordenar busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição
Almeida, que ousou publicar em seu blog que o ministro Flávio Dino faz uso
privado de um veículo do Tribunal de Justiça do Maranhão. Em qualquer
democracia digna do nome, isso é inaceitável.
Segundo Moraes, tratado como um “herói” da
democracia brasileira por segmentos da sociedade, o referido jornalista teria
recorrido a “algum mecanismo estatal para identificação e caracterização dos
veículos”, o que permitiria, segundo ele, “a exposição indevida relacionada à
segurança de autoridades”. É uma acusação grave. Porém mais grave é o fato de
Moraes ter confundido jornalismo investigativo com “perseguição” e, pior,
tratado a reportagem como “empreitada criminosa”.
Em nota, Dino alegou que há normas que o
autorizariam a usar o veículo público para seus deslocamentos privados. Vamos
conceder que, de fato, possa haver. Mas, no regime democrático, autoridades,
como quaisquer cidadãos, dispõem de amplos instrumentos para reagir a
reportagens que considerem injustas, mentirosas ou potencialmente criminosas.
Podem contestá-las publicamente, por exemplo, ou pedir direito de resposta. No
limite, podem buscar reparação judicial, civil ou penal, quando houver
fundamento. O que não se admite, em hipótese alguma, é que um ministro do STF
use sua caneta para acossar jornalistas.
Se Moraes quis dar um recado a jornalistas
que têm perscrutado o mau comportamento de ministros do Supremo – sobretudo
agora, quando a Corte vê esvair sua credibilidade em meio à crise deflagrada
pelo envolvimento de alguns dos seus ministros com o Banco Master –, gastou
tinta à toa. A imprensa profissional não se deixará intimidar pelo STF.
O assédio contra o jornalista maranhense
torna-se ainda mais perturbador quando se considera o evidente descabimento
jurídico da ordem de Moraes. A prerrogativa de foro especial é do réu ou
investigado, não da vítima. Luís Pablo, obviamente, não tem foro no STF. Se
Dino entendeu haver ilícito penal em sua conduta, deveria ter recorrido à
polícia e à instância judicial ordinárias. Em defesa do colega, Moraes, mais
uma vez, criou uma situação em que o Supremo age simultaneamente como ofendido,
instância investigativa e juiz da causa contra um cidadão comum.
Com toda razão, as mais importantes entidades
representativas da imprensa nacional reagiram em uníssono à truculência de
Moraes. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Associação
Nacional de Editores de Revistas e a Associação Nacional de Jornais tiveram de
lembrar ao ministro que a atividade jornalística está protegida pela
Constituição. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo foi ainda
mais direta ao afirmar que a decisão de Moraes coloca “não apenas o repórter
sob risco, mas todos os jornalistas brasileiros”. É disso que se trata. A
mensagem nada sutil do ministro é clara: investigar condutas de ministros do
STF pode trazer consequências graves.
Lamentavelmente, o cerceamento do trabalho do
jornalista maranhense não é um caso isolado na Corte. Recorde-se da censura
imposta à revista Crusoé,
que publicou que o ministro Dias Toffoli era “o amigo do amigo de meu pai”
citado por Marcelo Odebrecht em delação no âmbito da Operação Lava Jato. Mais
recentemente, quantas decisões afrontosas à liberdade de imprensa não foram
tomadas pelo próprio Moraes no infindável inquérito das “fake news”?
É da natureza do jornalismo incomodar. Por
isso, a Constituição resguarda tanto a liberdade de imprensa como o sigilo da
fonte como pilares do Estado Democrático de Direito. Isso não significa, por
óbvio, que jornalistas estejam acima da lei. Erros devem ser corrigidos, e
crimes, punidos. Mas a resposta a uma reportagem nunca pode ser a intimidação
nem o emprego desproporcional da máquina estatal.
Numa democracia, autoridades devem estar
preparadas para o escrutínio público. E é precisamente isso que a imprensa
profissional continuará a fazer, goste ou não o Supremo.
Guerra sem objetivo é guerra sem fim
Por O Estado de S. Paulo
A pergunta inicial – por que a guerra
começou? – nunca foi satisfatoriamente respondida por Trump. Não surpreende que
a questão crucial ainda esteja em aberto: como a guerra terminará?
Após duas semanas, a campanha militar lançada
pelos EUA e Israel contra o Irã produziu resultados expressivos. Instalações
estratégicas foram atingidas, parte relevante do arsenal nuclear e de mísseis
balísticos foi destruída e a cadeia de comando sofreu golpes duros. Ainda
assim, a rápida sucessão da liderança em Teerã e a persistência das retaliações
iranianas mostram que o regime está longe de ruir e é capaz de impor custos
altos aos seus adversários e ao mundo. A pergunta inicial – por que a guerra
começou? – nunca foi satisfatoriamente respondida pelo principal responsável
por promovê-la, o presidente dos EUA, Donald Trump. Não surpreende que a
questão crucial ainda esteja em aberto: como a guerra terminará?
Desde o início, Washington apresentou fins
mutantes e, por vezes, conflitantes: neutralizar o programa nuclear, eliminar o
arsenal balístico, forçar uma mudança de regime ou obter rendição
incondicional. Cada um desses objetivos implicaria estratégias e horizontes
muito diferentes. O resultado é uma campanha militar eficaz em vários aspectos,
mas acompanhada de uma incerteza persistente sobre o que exatamente
constituiria vitória.
Alguns desfechos se delineiam. O mais
plausível é o de um regime sobrevivente, porém significativamente debilitado. A
República Islâmica sairia do conflito mais isolada, com menor capacidade de
projetar poder regional e com sua infraestrutura militar degradada. Mas a
sobrevivência deve vir acompanhada de endurecimento doméstico. Sob pressão
externa e com sua legitimidade ideológica corroída, o regime dos aiatolás tende
a se tornar ainda mais dependente do aparato securitário da Guarda
Revolucionária, consolidando uma estrutura de poder mais militarizada e menos
inclinada à acomodação externa.
Na prática, esse cenário provavelmente se
traduziria em um cessar-fogo inconclusivo. Washington declararia vitória após
ter reduzido substancialmente a ameaça estratégica iraniana; Teerã declararia
vitória simplesmente por ter sobrevivido. O conflito seria interrompido, mas
não resolvido, deixando uma disputa latente e a perspectiva de novos confrontos
no futuro.
Há possibilidades menos prováveis, mas
potencialmente decisivas. Uma guerra de atrito prolongada poderia manter o
Golfo em estado de instabilidade, elevando preços de energia e ampliando
pressões políticas sobre as potências envolvidas. Idealmente, o melhor
resultado seria uma mudança de regime que abrisse caminho para um governo menos
predatório, a saber, menos autoritário em casa e menos agressivo no exterior.
No extremo oposto está o pior desfecho: o colapso do Estado iraniano. A
fragmentação de um país com o peso geopolítico do Irã poderia detonar uma
guerra civil, proliferação armamentista (inclusive nuclear) descontrolada e uma
crise regional de enormes proporções.
Entre essas possibilidades emerge o
verdadeiro dilema estratégico. Encerrar a guerra cedo demais pode permitir que
o regime preserve capacidades suficientes para reconstruir sua ameaça no
futuro. Prolongá-la indefinidamente, por outro lado, aumenta o risco de
escalada regional e de choques energéticos que o próprio Irã tenta explorar.
Mesmo enfraquecido, Teerã ainda possui um instrumento de pressão formidável: a
capacidade de perturbar o fluxo de petróleo pelo Golfo e transformar o Estreito
de Ormuz em ferramenta de coerção econômica e política.
A política real raramente oferece escolhas
perfeitas – e o Oriente Médio costuma maltratar ideais e punir idealistas. O
objetivo realista – o melhor possível, com mais benefícios e menos custos – não
é a derrubada imediata do regime, mas alterar de forma duradoura o equilíbrio
estratégico. Isso significa degradar decisivamente as capacidades nucleares e
militares do Irã, limitar sua capacidade de chantagem energética e encerrar o
conflito antes que ele se transforme em algo mais amplo, profundo e imprevisível.
Guerras quase nunca terminam como foram
imaginadas no início. A tarefa agora não é produzir um Irã perfeito, mas
garantir que o fim desta guerra deixe o Oriente Médio menos perigoso do que o
regime que ela procurou enfraquecer.
Proteção de longo prazo
Por O Estado de S. Paulo
A boa notícia é que a vacina do Butantan
contra a dengue protege, com dose única, por cinco anos
Um estudo publicado na revista
científica Nature Medicine mostrou
que a vacina Butantan-DV manteve, ao longo de cinco anos, uma eficácia de
80,5%. Isso quer dizer que, por um período considerável de tempo, o imunizante
do Instituto Butantan evitou quadros graves de dengue como hemorragia ou casos
de dengue com sinais de alarme, como dor abdominal ou sangramento de mucosas.
E, no mesmo intervalo analisado, a eficácia geral contra a dengue sintomática
foi de cerca de 65%. Como se vê, trata-se de uma excelente notícia.
Isso porque a dengue não é mais uma doença
sazonal. Vetor do vírus, o mosquito Aedes
aegypti procria, em tese, durante o período quente e chuvoso
do ano, mas agora, com as mudanças climáticas, pode haver aumento dos casos em
qualquer época, o que exige medidas de contenção da epidemia. Para se ter uma
ideia, em 2024 foram nada menos do que 6,6 milhões de casos de dengue no
Brasil, com 6,3 mil mortes. Já no ano passado, houve uma queda: foram 1,7
milhão de casos e 1,8 mil mortes. Mas os números ainda são altíssimos.
O rigor do estudo autoriza o otimismo: foi
realizado um ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por
placebo, que acompanhou 16.235 voluntários de 2 a 59 anos de idade – ou seja,
um trabalho padrão-ouro. Descobriu-se ainda que, além de proteger contra os
casos graves, a Butantan-DV evitou hospitalizações: foram oito internações
entre os voluntários que receberam o placebo (5.976) e nenhuma no grupo dos
vacinados (10.259).
A vacina japonesa Qdenga, que já está
disponível no Brasil, também continua protegendo por até sete anos. São dois
anos a mais de alta proteção do que a Butantan-DV, mas o imunizante brasileiro
leva uma vantagem: enquanto a vacina da farmacêutica Takeda é aplicada em duas
doses, a do Instituto Butantan é de dose única. A vacina brasileira, portanto,
tem maior chance de adesão, pois não há a necessidade de o paciente voltar a
uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber mais uma dose.
Tudo isso pode resultar em campanhas de
imunização mais focadas, mais ágeis e mais baratas, com potencial de redução
dos custos logísticos em produção, distribuição e aplicação da vacina. E, não
menos importante, a Butantan-DV confirmou ainda seu alto grau de segurança, sem
nenhum sinal de alerta quanto à saúde dos voluntários. A fácil adesão, a
segurança elevada e a eficácia prolongada fazem da Butantan-DV um instrumento
promissor contra a dengue. Não à toa, a comunidade científica tem comemorado.
Já inserida no Programa Nacional de Imunizações (PNI), com 1,3 milhão de doses iniciais, a vacina brasileira deve alcançar a produção anual de 30 milhões de doses. A destinação do imunizante ao Sistema Único de Saúde (SUS) é um alento à população, que não pode de jeito nenhum baixar a guarda contra o mosquito, mantendo firme o combate aos focos de água parada, os criadouros do Aedes. Um PNI robusto, políticas públicas de prevenção e a colaboração da população aumentam a esperança de superação da dengue. O potencial de ganho é imenso: mais vidas salvas e menos sofrimento daqueles que adoecem.
O Brasil, de novo, brilha no Oscar
Por Correio Braziliense
Independentemente do resultado, O Agente
Secreto já pode ser considerado um filme vencedor
O Brasil disputa, neste domingo, mais uma
vez, uma estatueta na maior premiação do cinema mundial. Com quatro indicações
para o Oscar, o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, concorre
nas categorias de Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor ator e
Melhor elenco. A última vez que uma produção brasileira obteve tantas chances
de ser laureada foi em 2004, com Cidade de Deus, obra-prima de Fernando
Meirelles.
Independentemente do resultado, O Agente
Secreto pode ser considerado um filme vencedor. Em primeiro lugar, pelos
méritos por chegar ao Olimpo da indústria cinematográfica, após uma temporada
de sucesso em festivais relevantes por todo o mundo. Desde o lançamento no
circuito internacional, em maio do ano passado, acumulou mais de 70 premiações.
Em Cannes, Kleber Mendonça e Wagner Moura ganharam em melhor direção e melhor
ator. Em janeiro, O Agente Secreto foi o primeiro filme brasileiro a
vencer duas categorias — Melhor filme em língua não inglesa e Melhor ator em
filme de drama — na mesma edição do Globo de Ouro. E houve muitos outras provas
de reconhecimento.
Tão impressionante quanto a lista de
premiações é observar que O Agente Secreto conquistou plateias do
mundo inteiro com uma história genuinamente brasileira. A aventura do professor
Marcelo (personagem de Moura), perseguido por inescrupulosos de plantão na
ditadura militar dos anos 1970, resgata o ambiente opressor daquele período
sombrio da nossa história. Ao mesmo tempo, a ambientação no Recife, cidade
desde sempre marcada pela diversidade cultural e pela tradição do carnaval,
reproduz a essência do Brasil e seus contrastes: quente, caótico, libertário e
autoritário, solidário e violento, lutador e esperançoso.
Esse caldeirão de imagens, sons, gente e
emoção pode explicar por que O Agente Secreto transcende a realidade
nacional e consegue cativar o mundo. O filme de Kleber Mendonça, assim como os
clássicos do cinema e da literatura, retrata, acima de tudo, questões ligadas à
natureza humana: medo, poder, vingança, amor, família, esperança. Esse é o
vocabulário utilizado por Wagner Moura e pelo excepcional elenco. Aqueles que
perdem tempo ao desaprovar o suposto regionalismo do filme estão míopes para a
mensagem mais profunda do finalista do Oscar.
Com carreira sólida e projeção internacional
crescente, Wagner Moura ganhará uma notoriedade adicional na festa em Los
Angeles. Será um dos apresentadores da cerimônia, o que prova, mais uma vez, a
força dos artistas nacionais. Apesar das diferenças linguísticas, o talento
brasileiro é reconhecido nos palcos de Hollywood.
E a torcida não fica apenas para O
Agente Secreto. Outro brasileiro, Adolpho Veloso, concorre ao prêmio de melhor
fotografia pelo elogiado trabalho em Sonhos de Trem. As imagens
deslumbrantes captadas pela lente de Veloso já renderam outros troféus
importantes na temporada. Assim como O Agente Secreto, a produção
internacional da Netflix concorre ao prêmio de melhor filme.
Na frente ou por trás das câmeras, brasileiros têm se destacado cada vez mais na indústria cinematográfica. Histórias envolventes, interpretações marcantes, produções de alta qualidade contribuem para o cinema nacional se tornar um canal importante de reflexão e cultura. É o Brasil para ser visto e admirado.
O êxito da educação pública de qualidade
Por O Povo (CE)
A qualidade do ensino no estado do Ceará
tem-se tornado uma referência positiva para todo o País, a partir dos bons
índices demonstrados em aprovações em concursos e seleções, projetos
bem-sucedidos e histórias de estudantes que conseguiram ter novas perspectivas
por meio da educação. Essa qualidade é também demonstrada pelas mudanças que
ocorrem nas famílias com a entrada do estudante no ensino superior. Neste ano,
houve mais motivos para a celebração.
A Escola de Ensino Médio Adauto Bezerra, em
Fortaleza, comemorou a aprovação de 324 estudantes no ensino superior. Eles,
que concluíram o ensino médio em 2025, conquistaram vagas em universidades
públicas e particulares. De acordo com a gestão da escola, de todos os
aprovados, 170 ingressaram em universidades públicas e 60 foram contemplados
pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), que oferta bolsas de estudo em
universidades particulares. Os demais conquistaram vagas por outras formas de
acesso.
A fim de celebrar o feito, a instituição
reuniu todos os aprovados em um almoço festivo na escola, no fim de fevereiro,
acolhendo os novos universitários e festejando com pais e demais responsáveis.
Para muitas famílias, é a realização de um êxito que não pôde ser conquistado
por gerações anteriores, devido às circunstâncias e às faltas de oportunidades
de estudo.
Além disso, a Escola Adauto Bezerra divulgou
a aprovação de sete estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no
Ensino Superior via Enem. Isso demonstra o trabalho pedagógico inclusivo da
escola que permitiu o acesso ao ensino superior. Esse processo todo não é feito
abruptamente; exige tempo, dedicação e comprometimento de toda a comunidade
escolar para que surta efeito positivo na vida dos estudantes.
Também é merecidamente válido comentar o trabalho
da Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Adriano Nobre, em Itapajé,
que comemorou sete estudantes aprovados no curso de Medicina na última ediçãod
o Sisu, do ProUni e vestibulares. O acesso ao curso é considerado um dos mais
disputados do País, tanto em instituições públicas quanto privadas.
A EEEP Adriano Nobre já é tida como uma das
públicas de melhor desempenho de todo o Ceará, com jornada integral, oferecendo
o Ensino Médio associado à formação técnica.
Todos esses resultados, aliados à competência incontestável dos estudantes, demanda um esforço que precisa ser reconhecido. É consequência de um trabalho que inclui o ensino dedicado dos docentes, com atualização dos conteúdos e revisão contínua dos métodos e metodologia. Além disso, conta-se com o engajamento da comunidade escolar, a avaliação das propostas da instituição, o monitoramento pedagógico constante e o suporte emocional ao longo do ano. Os estudantes, docentes, gestores e demais da comunidade escolar merecem ser celebrados.

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