domingo, 15 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regulação do uso militar da IA é urgente

Por o Globo

Batalha da Anthropic contra governo americano é a mais relevante para futuro de guerras

A batalha militar mais relevante para o futuro do mundo não é travada hoje no Oriente Médio ou na Ucrânia, mas dentro dos Estados Unidos. Envolve o uso da inteligência artificial (IA) como arma e opõe o governo Donald Trump a uma das líderes no mercado de IA, a californiana Anthropic. O secretário da Guerra — nome ainda não aprovado pelo Congresso —, Pete Hegseth, anunciou a classificação da empresa como “risco à cadeia de suprimentos”, categoria em geral reservada a corporações estrangeiras cujos produtos são vistos como ameaça à segurança nacional. O motivo alegado é a recusa do CEO da Anthropic, Dario Amodei, em permitir qualquer aplicação de seus produtos. Amodei quer vetar uso para “vigilância em massa” ou “armas autônomas”, mesmo que não haja ilegalidade.

O modelo de IA Claude e suas variantes, da Anthropic, têm conquistado o mundo corporativo na disputa com o ChatGPT da OpenAI (esta aceitou os termos do contrato com o Departamento da Guerra). Como todos os pioneiros do setor, Amodei acredita desenvolver uma tecnologia todo-poderosa e pretende impor limites éticos a seu uso. A preocupação é pertinente.

Robôs de IA podem reunir informações dispersas em bancos de dados públicos e redes sociais para traçar um perfil detalhado dos cidadãos, facilitando a vida de ditadores e governos autoritários. Na Europa ou no Brasil, há barreiras jurídicas a isso, como a Lei Geral de Proteção de Dados. Nos Estados Unidos, não. “Um presidente que quiser coletar dados na internet e reunir a bases estatais constrói um Grande Irmão na hora que desejar”, escreveu o colunista do GLOBO Pedro Doria.

A ameaça mais crítica vem da evolução de agentes autônomos de IA. Eles podem em tese decidir atacar sozinhos, sem intervenção humana. Nos cenários mais catastróficos, poderiam invadir sistemas da polícia, desligar geradores de energia ou enviar mensagens a militares simulando ataques. “Agentes de IA são uma arma poderosa. Se não hoje, em breve serão mais poderosos que qualquer arma”, escreve o economista americano Noah Smith.

Smith defende que certos agentes sejam proibidos — como são proibidos aos cidadãos armas nucleares ou tanques de guerra. De acordo com ele, por mais que a motivação da Anthropic ao tentar restringir o uso de seus modelos seja nobre — ela diz que recorrerá à Justiça da decisão de Hegseth —, não cabe a uma empresa privada tomar decisões tão relevantes. Se uma empresa desenvolvesse armas nucleares, não deveria ter o direito de ditar seus termos ao governo numa democracia. “Amodei não foi eleito nem presta contas ao público”, afirma Smith. “Não se trata de questão legal ou de normas sobre propriedade privada. É questão do monopólio do Estado-nação no uso [legítimo] da força.”

Em entrevista à revista The Economist, Amodei pediu desculpas pelos termos que usou para se referir ao governo Trump e afirmou que as negociações com o Departamento da Guerra continuam. “Se há algo que podemos todos aprender na discussão desta tecnologia e de seu balanço de poder, é que as questões estão se tornando urgentes e precisamos acordar para elas”, disse. Ele tem razão. Não deveria ser necessário esperar um ataque terrorista ou a invasão de sistemas críticos para autoridades do mundo todo imporem limites ao uso militar da IA.

Caso do MPRJ revela manobras e expõe distorções dos supersalários

Por O Globo

Resposta a indagação do STF mostra os artifícios que inflam a remuneração da elite do funcionalismo público

A distorção dos supersalários no setor público não está restrita a servidores federais. Estende-se também a estados e municípios. São recorrentes as manobras e artimanhas usadas por juízes, procuradores e outros medalhões do funcionalismo para inflar seus contracheques além do permitido pela Constituição — R$ 46,4 mil mensais, salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

O caso do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) expõe de modo contundente o descontrole. No início do mês, reportagem do GLOBO revelou que 90% dos promotores e procuradores não apenas recebem acima do teto constitucional, como ganham mais de R$ 100 mil por mês. Em dezembro, engordada por gratificações natalinas, a remuneração de mais de cem passou de R$ 200 mil. A reportagem mostrou que contracheques generosos são comuns noutros organismos estaduais e municipais, como Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas do Estado, Procuradoria-Geral do Estado e do Município.

O ministro Gilmar Mendes, do STF, exigiu do MPRJ explicações detalhadas sobre as verbas indenizatórias — os proverbiais “penduricalhos”. A resposta, protocolada na última quarta-feira, é uma aula de como funcionam na prática. O MPRJ forneceu uma lista com sete modalidades de remuneração, seis de auxílio e sete de verbas recebidas a título de “indenização”. Ao todo, gastou em janeiro R$ 35,3 milhões com salários, mas R$ 121 milhões noutras verbas (78%). Em fevereiro, salários somaram R$ 36 milhões, ante verbas de R$ 266,8 milhões (88%).

Há “penduricalhos” de todo tipo: auxílio-saúde, alimentação, transporte, moradia, educação, mudança, diárias em deslocamento, indenização por plantões etc. A principal manobra usada para aumentar a remuneração é a “licença compensatória por assunção de acervo”, uma indenização por “excesso de trabalho”. Correspondeu a 42% do que o MPRJ pagou aos procuradores em janeiro e a 74% em fevereiro. Outro artifício é a “indenização por férias não gozadas”, quase 20% do total de janeiro (e 3% em fevereiro).

O questionamento de Gilmar foi motivado pela suspeita de haver pagamentos retroativos, proibidos por liminar a todas as esferas do funcionalismo enquanto o Supremo tenta criar uma disciplina sensata para os “penduricalhos”. O MPRJ nega ter feito qualquer pagamento retroativo. “Algo bem diverso é o sistema de indenização de dias de ‘inatividade’ não fruídos”, diz o ofício assinado pelo procurador-geral Antonio José Campos Moreira. Ele chega a defender que o limite de R$ 46,4 mil estabelecido pelo Conselho Nacional do Ministério Público para “atrasados” — na prática dobrando o teto constitucional — não deve se aplicar à parcela correspondente a um mês de férias não usufruídas nem às “licenças compensatórias”, maior fração do que ganham os procuradores.

O julgamento das ações sobre “penduricalhos” está marcado para o próximo dia 25. É fundamental que o STF dê um recado cristalino sobre tudo o que é ilegal e acabe em definitivo com distorções como as praticadas pelo MPRJ.

PF e imprensa implodem pacto de silêncio

Por Folha de S. Paulo

Impediu-se tentativa de altas autoridades de abafar indícios de alastramento da corrupção

A atitude correta da maioria dos ministros do STF seria favorecer investigação profunda e definitiva sobre as suspeitas

Foi abalado o pacto de silêncio tacitamente firmado nos últimos anos entre altas autoridades e a elite política do país em torno das evidências de alastramento da corrupção. A Polícia Federal, na esfera pública, e o jornalismo profissional, na sociedade, têm sido os responsáveis por fazer soar o alarme.

A esta altura, pode-se estimar o efeito da anestesia se ela ainda estivesse ativa. Com a sem cerimônia usada para suspender R$ 18,8 bilhões em multas da Lava JatoDias Toffoli teria enterrado qualquer investigação dos malfeitos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Passaria incólume a relação multimilionária do escritório da mulher de Alexandre de Moraes com o Banco Master, bem como a comunicação do ministro do Supremo com Vorcaro horas antes de ele ser preso, e seu banco, liquidado. Público e aposentados do INSS teriam sido privados de saber do furto de R$ 6,3 bilhões por quadrilhas enquistadas no Executivo federal. Não teriam visto a luz do dia os indícios de conexão entre o desfalque e um filho do presidente da República.

Não que as tentativas de abafar os escândalos e suas repercussões tenham cessado. O ministro Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilos, decretada pela CPI do Crime Organizado, da empresa de Dias Toffoli que recebeu pagamentos de um fundo ligado a Vorcaro.

Seu colega Flávio Dino aliviou a barra de Fabio Luis Lula da Silva ao derrubar a quebra de seus sigilos, decidida pela CPI do INSS. Não há assinatura petista no pedido de CPI para investigar Toffoli e Moraes no Senado.

Elevou-se o custo do abafa, no entanto. Com a ferida exposta, cada atitude de autoproteção de autoridades e políticos reverte em mais desgaste institucional. Abafar tornou-se quase impossível. A Polícia Federal deu mostras de independência suficientes para assegurar que as investigações vão prosseguir a despeito de haver pressão contrária nas altas esferas. A condução de André Mendonça dos dois inquéritos —Master e INSS— tampouco indica concessões à acomodação.

É uma lástima que o ânimo corporativista subjugue o republicano nessa crise grave, que pela primeira vez engolfa dois juízes da mais alta corte. A atitude correta da maioria dos ministros do STF seria favorecer investigação profunda e definitiva sobre as suspeitas, mesmo que isso implique atingir os próprios integrantes.

Esquivar-se da tarefa vai alimentar as correntes antissistema às portas da eleição nacional. E vai delegar a outros Poderes, de pendor plebiscitário, uma resposta que deveria vir embalada em diligência e equilíbrio.

Lula faz gambiarra para segurar o preço do diesel

Por Folha de S. Paulo

Decorrente da guerra, encarecimento dos combustíveis apanha governo com finanças depauperadas

Tentativa de compensar subsídio virá de imposto sobre exportações; Bolsonaro também usou cofres públicos para conter preços

Diante do iminente encarecimento dos combustíveis em razão da guerra no Oriente Médio, Luiz Inácio Lula da Silva se viu forçado a editar às pressas um pacote de subsídios para conter o preço doméstico do óleo diesel. Dado que o governo petista chegou a este ano eleitoral com as finanças depauperadas, o jeito foi passar os custos para a Petrobras.

Por decreto, o Planalto abriu mão de tributos sobre a venda de diesel, o que implica renúncia de receita equivalente a mais de R$ 20 bilhões em um ano. Uma medida provisória prevê ainda subsídio de até R$ 10 bilhões para empresas que venderem o óleo abaixo de um valor de referência.

Para evitar um déficit ainda maior que o projetado nas contas do Tesouro Nacional, fixou-se um imposto de 12% sobre as exportações de petróleo, que será recolhido, na maior parte, pela gigante estatal do setor.

Impossível não notar a coincidência com o roteiro de 2022, também ano de eleições presidenciais, quando Jair Bolsonaro (PL) usou os cofres públicos para conter o aumento dos preços dos combustíveis resultante da Guerra da Ucrânia. Antes como agora, agiu-se sob o temor de mais uma greve dos caminhoneiros e sob pressões do agronegócio.

É fato que, naquela ocasião, adotaram-se providências temerárias, de impacto orçamentário muito maior; também é fato que as contas do Tesouro estavam em situação menos dramática.

A gambiarra de Lula pode trazer benefícios ao atenuar a alta de preços e a piora de expectativas inflacionárias, que tendem a dificultar a redução dos juros do Banco Central. Há riscos, porém.

Primeiro, o cálculo da renúncia de receitas é menos incerto que o do ganho de arrecadação, que depende de preços do petróleo, da taxa de câmbio e da estratégia das empresas afetadas.

Segundo, trata-se de paliativo que tende a ser pequeno. As medidas não tratam de gasolina, combustível de aviação nem de outros aumentos de custos provocados pela guerra, como os de fertilizantes e fretes marítimos.

Se o governo se abstiver, corretamente, de intervir, a Petrobras deverá elevar preços, como já o fez nesta sexta (13) no caso do diesel, aparentemente em movimento concertado com Brasília.

Se não tivesse autonomia para definir o quanto cobra por seus produtos, a petroleira prejudicaria sua solidez econômica, afetando a inevitável importação de diesel e outros derivados.

Por fim, há o perigo de o paliativo se perpetuar. Mudança duradoura de patamar de preços não deve ser combatida com mais subsídios, isenções tributárias ou, pior ainda, tabelamentos.

Empresas quaisquer e consumidores devem receber sinais corretos de preços, que orientam reorganizações produtivas eficientes e, no caso específico de combustíveis, o caminho para a transição energética. Controles de preços geram distorções no consumo, no investimento e prejudicam a produtividade.

Pé-de-Meia funciona, mas não é suficiente

Por Folha de S. Paulo

Pesquisa mostra que programa de auxílio financeiro a alunos do ensino médio reduz taxa de evasão escolar

Estima-se diminuição de 6,5 pontos na evasão ante cenário sem o programa; articulação com outras ações podem melhorar resultados

Se a demanda por evidências na formulação de políticas públicas tornou-se um lugar-comum, é porque tal respaldo técnico é o meio menos arriscado e potencialmente mais eficaz de aplicar verbas públicas em prol do contribuinte.

Tome-se como exemplo o programa Pé-de-Meia. Quando foi implantado pelo governo federal em 2024, pesquisas indicavam possíveis benefícios em sistemas de auxílio financeiro a estudantes de estratos mais pobres para conter a evasão escolar —um gargalo histórico da educação brasileira, notadamente no ensino médio.

Agora, estudo realizado por Insper, Instituto Sonho Grande e Instituto Natura, lançado na sexta (13), revela que o programa alcança em parte seu objetivo, mas que resultados melhores podem ser obtidos por meio de ajustes e articulação com outras ações.

De acordo com a pesquisa, que projeta o impacto do Pé-de-Meia por meio de análises de iniciativas internacionais similares e dados sobre o comportamento de alunos perante bolsas, a taxa de evasão composta (nos três anos do ensino médio) com o programa é de 19,9%, uma redução de 6,5 pontos percentuais ante a estimativa sem o programa.

A diminuição mínima para um custo-benefício favorável é de 2,5 pontos. No Ceará, foi verificada a maior redução (10 pontos), e no Paraná, a menor (4,4).

O estudo conclui que locais com mais famílias vulneráveis são mais impactados, e que nem sempre aqueles em que a taxa de evasão era alta antes do Pé-de-Meia têm maior redução depois. Isso quer dizer que as desigualdades regionais nas taxas de evasão se mantêm com o programa.

Segundo os dados, 1 em cada 4 alunos que iria evadir não o faz por causa do Pé-de-Meia; 1 posterga a evasão, que pode ocorrer no 2º ou 3º ano; e 2 não alteram a decisão de abandonar os estudos. Aumentar o valor do auxílio não interfere nesse cenário.

Cerca de 56% dos R$ 9.200 recebidos por aluno durante todo o ensino médio são pagos no último ano dessa etapa, e o programa funciona mais como incentivo do que como forma de sustento. Assim, para os pesquisadores, elevar esse percentual a 75% pode incrementar eficácia.

Ademais, a evasão é fenômeno multifatorial que envolve desinteresse pelos estudos, violência doméstica, necessidade de trabalhar, discriminação e bullying, gravidez precoce, oferta educacional (falta de vagas ou de transporte) e problemas de saúde.

Sem ações interdisciplinares com foco na melhoria da aprendizagem, não há Pé-de-Meia que mantenha os alunos nas escolas.

A imprensa não se deixará intimidar

Por O Estado de S. Paulo

Ao mobilizar a PF contra um jornalista que expôs conduta imprópria do colega Dino, Moraes ameaça todos os jornalistas que ousarem perscrutar os ministros do STF. Em vão

Quando um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) mobiliza o aparato persecutório do Estado contra um jornalista em razão de uma reportagem incômoda, já não se pode dizer que o Brasil seja um país democraticamente saudável. Pois foi o que fez o sr. Alexandre de Moraes ao ordenar busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida, que ousou publicar em seu blog que o ministro Flávio Dino faz uso privado de um veículo do Tribunal de Justiça do Maranhão. Em qualquer democracia digna do nome, isso é inaceitável.

Segundo Moraes, tratado como um “herói” da democracia brasileira por segmentos da sociedade, o referido jornalista teria recorrido a “algum mecanismo estatal para identificação e caracterização dos veículos”, o que permitiria, segundo ele, “a exposição indevida relacionada à segurança de autoridades”. É uma acusação grave. Porém mais grave é o fato de Moraes ter confundido jornalismo investigativo com “perseguição” e, pior, tratado a reportagem como “empreitada criminosa”.

Em nota, Dino alegou que há normas que o autorizariam a usar o veículo público para seus deslocamentos privados. Vamos conceder que, de fato, possa haver. Mas, no regime democrático, autoridades, como quaisquer cidadãos, dispõem de amplos instrumentos para reagir a reportagens que considerem injustas, mentirosas ou potencialmente criminosas. Podem contestá-las publicamente, por exemplo, ou pedir direito de resposta. No limite, podem buscar reparação judicial, civil ou penal, quando houver fundamento. O que não se admite, em hipótese alguma, é que um ministro do STF use sua caneta para acossar jornalistas.

Se Moraes quis dar um recado a jornalistas que têm perscrutado o mau comportamento de ministros do Supremo – sobretudo agora, quando a Corte vê esvair sua credibilidade em meio à crise deflagrada pelo envolvimento de alguns dos seus ministros com o Banco Master –, gastou tinta à toa. A imprensa profissional não se deixará intimidar pelo STF.

O assédio contra o jornalista maranhense torna-se ainda mais perturbador quando se considera o evidente descabimento jurídico da ordem de Moraes. A prerrogativa de foro especial é do réu ou investigado, não da vítima. Luís Pablo, obviamente, não tem foro no STF. Se Dino entendeu haver ilícito penal em sua conduta, deveria ter recorrido à polícia e à instância judicial ordinárias. Em defesa do colega, Moraes, mais uma vez, criou uma situação em que o Supremo age simultaneamente como ofendido, instância investigativa e juiz da causa contra um cidadão comum.

Com toda razão, as mais importantes entidades representativas da imprensa nacional reagiram em uníssono à truculência de Moraes. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Associação Nacional de Editores de Revistas e a Associação Nacional de Jornais tiveram de lembrar ao ministro que a atividade jornalística está protegida pela Constituição. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo foi ainda mais direta ao afirmar que a decisão de Moraes coloca “não apenas o repórter sob risco, mas todos os jornalistas brasileiros”. É disso que se trata. A mensagem nada sutil do ministro é clara: investigar condutas de ministros do STF pode trazer consequências graves.

Lamentavelmente, o cerceamento do trabalho do jornalista maranhense não é um caso isolado na Corte. Recorde-se da censura imposta à revista Crusoé, que publicou que o ministro Dias Toffoli era “o amigo do amigo de meu pai” citado por Marcelo Odebrecht em delação no âmbito da Operação Lava Jato. Mais recentemente, quantas decisões afrontosas à liberdade de imprensa não foram tomadas pelo próprio Moraes no infindável inquérito das “fake news”?

É da natureza do jornalismo incomodar. Por isso, a Constituição resguarda tanto a liberdade de imprensa como o sigilo da fonte como pilares do Estado Democrático de Direito. Isso não significa, por óbvio, que jornalistas estejam acima da lei. Erros devem ser corrigidos, e crimes, punidos. Mas a resposta a uma reportagem nunca pode ser a intimidação nem o emprego desproporcional da máquina estatal.

Numa democracia, autoridades devem estar preparadas para o escrutínio público. E é precisamente isso que a imprensa profissional continuará a fazer, goste ou não o Supremo.

Guerra sem objetivo é guerra sem fim

Por O Estado de S. Paulo

A pergunta inicial – por que a guerra começou? – nunca foi satisfatoriamente respondida por Trump. Não surpreende que a questão crucial ainda esteja em aberto: como a guerra terminará?

Após duas semanas, a campanha militar lançada pelos EUA e Israel contra o Irã produziu resultados expressivos. Instalações estratégicas foram atingidas, parte relevante do arsenal nuclear e de mísseis balísticos foi destruída e a cadeia de comando sofreu golpes duros. Ainda assim, a rápida sucessão da liderança em Teerã e a persistência das retaliações iranianas mostram que o regime está longe de ruir e é capaz de impor custos altos aos seus adversários e ao mundo. A pergunta inicial – por que a guerra começou? – nunca foi satisfatoriamente respondida pelo principal responsável por promovê-la, o presidente dos EUA, Donald Trump. Não surpreende que a questão crucial ainda esteja em aberto: como a guerra terminará?

Desde o início, Washington apresentou fins mutantes e, por vezes, conflitantes: neutralizar o programa nuclear, eliminar o arsenal balístico, forçar uma mudança de regime ou obter rendição incondicional. Cada um desses objetivos implicaria estratégias e horizontes muito diferentes. O resultado é uma campanha militar eficaz em vários aspectos, mas acompanhada de uma incerteza persistente sobre o que exatamente constituiria vitória.

Alguns desfechos se delineiam. O mais plausível é o de um regime sobrevivente, porém significativamente debilitado. A República Islâmica sairia do conflito mais isolada, com menor capacidade de projetar poder regional e com sua infraestrutura militar degradada. Mas a sobrevivência deve vir acompanhada de endurecimento doméstico. Sob pressão externa e com sua legitimidade ideológica corroída, o regime dos aiatolás tende a se tornar ainda mais dependente do aparato securitário da Guarda Revolucionária, consolidando uma estrutura de poder mais militarizada e menos inclinada à acomodação externa.

Na prática, esse cenário provavelmente se traduziria em um cessar-fogo inconclusivo. Washington declararia vitória após ter reduzido substancialmente a ameaça estratégica iraniana; Teerã declararia vitória simplesmente por ter sobrevivido. O conflito seria interrompido, mas não resolvido, deixando uma disputa latente e a perspectiva de novos confrontos no futuro.

Há possibilidades menos prováveis, mas potencialmente decisivas. Uma guerra de atrito prolongada poderia manter o Golfo em estado de instabilidade, elevando preços de energia e ampliando pressões políticas sobre as potências envolvidas. Idealmente, o melhor resultado seria uma mudança de regime que abrisse caminho para um governo menos predatório, a saber, menos autoritário em casa e menos agressivo no exterior. No extremo oposto está o pior desfecho: o colapso do Estado iraniano. A fragmentação de um país com o peso geopolítico do Irã poderia detonar uma guerra civil, proliferação armamentista (inclusive nuclear) descontrolada e uma crise regional de enormes proporções.

Entre essas possibilidades emerge o verdadeiro dilema estratégico. Encerrar a guerra cedo demais pode permitir que o regime preserve capacidades suficientes para reconstruir sua ameaça no futuro. Prolongá-la indefinidamente, por outro lado, aumenta o risco de escalada regional e de choques energéticos que o próprio Irã tenta explorar. Mesmo enfraquecido, Teerã ainda possui um instrumento de pressão formidável: a capacidade de perturbar o fluxo de petróleo pelo Golfo e transformar o Estreito de Ormuz em ferramenta de coerção econômica e política.

A política real raramente oferece escolhas perfeitas – e o Oriente Médio costuma maltratar ideais e punir idealistas. O objetivo realista – o melhor possível, com mais benefícios e menos custos – não é a derrubada imediata do regime, mas alterar de forma duradoura o equilíbrio estratégico. Isso significa degradar decisivamente as capacidades nucleares e militares do Irã, limitar sua capacidade de chantagem energética e encerrar o conflito antes que ele se transforme em algo mais amplo, profundo e imprevisível.

Guerras quase nunca terminam como foram imaginadas no início. A tarefa agora não é produzir um Irã perfeito, mas garantir que o fim desta guerra deixe o Oriente Médio menos perigoso do que o regime que ela procurou enfraquecer.

Proteção de longo prazo

Por O Estado de S. Paulo

A boa notícia é que a vacina do Butantan contra a dengue protege, com dose única, por cinco anos

Um estudo publicado na revista científica Nature Medicine mostrou que a vacina Butantan-DV manteve, ao longo de cinco anos, uma eficácia de 80,5%. Isso quer dizer que, por um período considerável de tempo, o imunizante do Instituto Butantan evitou quadros graves de dengue como hemorragia ou casos de dengue com sinais de alarme, como dor abdominal ou sangramento de mucosas. E, no mesmo intervalo analisado, a eficácia geral contra a dengue sintomática foi de cerca de 65%. Como se vê, trata-se de uma excelente notícia.

Isso porque a dengue não é mais uma doença sazonal. Vetor do vírus, o mosquito Aedes aegypti procria, em tese, durante o período quente e chuvoso do ano, mas agora, com as mudanças climáticas, pode haver aumento dos casos em qualquer época, o que exige medidas de contenção da epidemia. Para se ter uma ideia, em 2024 foram nada menos do que 6,6 milhões de casos de dengue no Brasil, com 6,3 mil mortes. Já no ano passado, houve uma queda: foram 1,7 milhão de casos e 1,8 mil mortes. Mas os números ainda são altíssimos.

O rigor do estudo autoriza o otimismo: foi realizado um ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, que acompanhou 16.235 voluntários de 2 a 59 anos de idade – ou seja, um trabalho padrão-ouro. Descobriu-se ainda que, além de proteger contra os casos graves, a Butantan-DV evitou hospitalizações: foram oito internações entre os voluntários que receberam o placebo (5.976) e nenhuma no grupo dos vacinados (10.259).

A vacina japonesa Qdenga, que já está disponível no Brasil, também continua protegendo por até sete anos. São dois anos a mais de alta proteção do que a Butantan-DV, mas o imunizante brasileiro leva uma vantagem: enquanto a vacina da farmacêutica Takeda é aplicada em duas doses, a do Instituto Butantan é de dose única. A vacina brasileira, portanto, tem maior chance de adesão, pois não há a necessidade de o paciente voltar a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber mais uma dose.

Tudo isso pode resultar em campanhas de imunização mais focadas, mais ágeis e mais baratas, com potencial de redução dos custos logísticos em produção, distribuição e aplicação da vacina. E, não menos importante, a Butantan-DV confirmou ainda seu alto grau de segurança, sem nenhum sinal de alerta quanto à saúde dos voluntários. A fácil adesão, a segurança elevada e a eficácia prolongada fazem da Butantan-DV um instrumento promissor contra a dengue. Não à toa, a comunidade científica tem comemorado.

Já inserida no Programa Nacional de Imunizações (PNI), com 1,3 milhão de doses iniciais, a vacina brasileira deve alcançar a produção anual de 30 milhões de doses. A destinação do imunizante ao Sistema Único de Saúde (SUS) é um alento à população, que não pode de jeito nenhum baixar a guarda contra o mosquito, mantendo firme o combate aos focos de água parada, os criadouros do Aedes. Um PNI robusto, políticas públicas de prevenção e a colaboração da população aumentam a esperança de superação da dengue. O potencial de ganho é imenso: mais vidas salvas e menos sofrimento daqueles que adoecem.

O Brasil, de novo, brilha no Oscar

Por Correio Braziliense

Independentemente do resultado, O Agente Secreto já pode ser considerado um filme vencedor

O Brasil disputa, neste domingo, mais uma vez, uma estatueta na maior premiação do cinema mundial. Com quatro indicações para o Oscar, o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, concorre nas categorias de Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor ator e Melhor elenco. A última vez que uma produção brasileira obteve tantas chances de ser laureada foi em 2004, com Cidade de Deus, obra-prima de Fernando Meirelles.

Independentemente do resultado, O Agente Secreto pode ser considerado um filme vencedor. Em primeiro lugar, pelos méritos por chegar ao Olimpo da indústria cinematográfica, após uma temporada de sucesso em festivais relevantes por todo o mundo. Desde o lançamento no circuito internacional, em maio do ano passado, acumulou mais de 70 premiações. Em Cannes, Kleber Mendonça e Wagner Moura ganharam em melhor direção e melhor ator. Em janeiro, O Agente Secreto foi o primeiro filme brasileiro a vencer duas categorias — Melhor filme em língua não inglesa e Melhor ator em filme de drama — na mesma edição do Globo de Ouro. E houve muitos outras provas de reconhecimento.

Tão impressionante quanto a lista de premiações é observar que O Agente Secreto conquistou plateias do mundo inteiro com uma história genuinamente brasileira. A aventura do professor Marcelo (personagem de Moura), perseguido por inescrupulosos de plantão na ditadura militar dos anos 1970, resgata o ambiente opressor daquele período sombrio da nossa história. Ao mesmo tempo, a ambientação no Recife, cidade desde sempre marcada pela diversidade cultural e pela tradição do carnaval, reproduz a essência do Brasil e seus contrastes: quente, caótico, libertário e autoritário, solidário e violento, lutador e esperançoso.

Esse caldeirão de imagens, sons, gente e emoção pode explicar por que O Agente Secreto transcende a realidade nacional e consegue cativar o mundo. O filme de Kleber Mendonça, assim como os clássicos do cinema e da literatura, retrata, acima de tudo, questões ligadas à natureza humana: medo, poder, vingança, amor, família, esperança. Esse é o vocabulário utilizado por Wagner Moura e pelo excepcional elenco. Aqueles que perdem tempo ao desaprovar o suposto regionalismo do filme estão míopes para a mensagem mais profunda do finalista do Oscar.

Com carreira sólida e projeção internacional crescente, Wagner Moura ganhará uma notoriedade adicional na festa em Los Angeles. Será um dos apresentadores da cerimônia, o que prova, mais uma vez, a força dos artistas nacionais. Apesar das diferenças linguísticas, o talento brasileiro é reconhecido nos palcos de Hollywood.

E a torcida não fica apenas para O Agente Secreto. Outro brasileiro, Adolpho Veloso, concorre ao prêmio de melhor fotografia pelo elogiado trabalho em Sonhos de Trem. As imagens deslumbrantes captadas pela lente de Veloso já renderam outros troféus importantes na temporada. Assim como O Agente Secreto, a produção internacional da Netflix concorre ao prêmio de melhor filme.

Na frente ou por trás das câmeras, brasileiros têm se destacado cada vez mais na indústria cinematográfica. Histórias envolventes, interpretações marcantes, produções de alta qualidade contribuem para o cinema nacional se tornar um canal importante de reflexão e cultura. É o Brasil para ser visto e admirado.

O êxito da educação pública de qualidade

Por O Povo (CE)

A qualidade do ensino no estado do Ceará tem-se tornado uma referência positiva para todo o País, a partir dos bons índices demonstrados em aprovações em concursos e seleções, projetos bem-sucedidos e histórias de estudantes que conseguiram ter novas perspectivas por meio da educação. Essa qualidade é também demonstrada pelas mudanças que ocorrem nas famílias com a entrada do estudante no ensino superior. Neste ano, houve mais motivos para a celebração.

A Escola de Ensino Médio Adauto Bezerra, em Fortaleza, comemorou a aprovação de 324 estudantes no ensino superior. Eles, que concluíram o ensino médio em 2025, conquistaram vagas em universidades públicas e particulares. De acordo com a gestão da escola, de todos os aprovados, 170 ingressaram em universidades públicas e 60 foram contemplados pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), que oferta bolsas de estudo em universidades particulares. Os demais conquistaram vagas por outras formas de acesso.

A fim de celebrar o feito, a instituição reuniu todos os aprovados em um almoço festivo na escola, no fim de fevereiro, acolhendo os novos universitários e festejando com pais e demais responsáveis. Para muitas famílias, é a realização de um êxito que não pôde ser conquistado por gerações anteriores, devido às circunstâncias e às faltas de oportunidades de estudo.

Além disso, a Escola Adauto Bezerra divulgou a aprovação de sete estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Ensino Superior via Enem. Isso demonstra o trabalho pedagógico inclusivo da escola que permitiu o acesso ao ensino superior. Esse processo todo não é feito abruptamente; exige tempo, dedicação e comprometimento de toda a comunidade escolar para que surta efeito positivo na vida dos estudantes.

Também é merecidamente válido comentar o trabalho da Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Adriano Nobre, em Itapajé, que comemorou sete estudantes aprovados no curso de Medicina na última ediçãod o Sisu, do ProUni e vestibulares. O acesso ao curso é considerado um dos mais disputados do País, tanto em instituições públicas quanto privadas.

A EEEP Adriano Nobre já é tida como uma das públicas de melhor desempenho de todo o Ceará, com jornada integral, oferecendo o Ensino Médio associado à formação técnica.

Todos esses resultados, aliados à competência incontestável dos estudantes, demanda um esforço que precisa ser reconhecido. É consequência de um trabalho que inclui o ensino dedicado dos docentes, com atualização dos conteúdos e revisão contínua dos métodos e metodologia. Além disso, conta-se com o engajamento da comunidade escolar, a avaliação das propostas da instituição, o monitoramento pedagógico constante e o suporte emocional ao longo do ano. Os estudantes, docentes, gestores e demais da comunidade escolar merecem ser celebrados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.