Desafio do ECA Digital está na implementação
Por O Globo
Nova legislação é avanço indiscutível, mas seu êxito dependerá da adesão das plataformas
É sem dúvida um avanço a entrada em vigor da
lei conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital. O
simples fato de começar a vigorar uma legislação de proteção aos menores de
idade na internet é auspicioso. A dúvida, como em qualquer nova lei, é se as
novas regras funcionarão na prática — e até que ponto as plataformas digitais
contribuirão para evitar seu esvaziamento.
A partir de agora, as redes sociais e qualquer outro fornecedor de conteúdo ou serviço para menores deverão oferecer aos pais ferramentas de controle. Será preciso também manter mecanismos confiáveis de aferição de idade, para coibir o acesso dos menores a ambientes e conteúdos inapropriados — não basta mais a simples autodeclaração. Todas as plataformas terão de oferecê-los, mesmo que não sejam identificadas explicitamente como espaço infantojuvenil — caso de bancos, sites de entretenimento ou comércio eletrônico.
Também são enquadrados na determinação redes
como o Discord — visto até pouco tempo atrás como uma espécie de “terra de
ninguém” sem nenhum controle — e aplicativos de comunicação, como WhatsApp ou
Telegram. “Os pais poderão definir o tempo de tela de seus filhos, bloquear
conversas com terceiros e impedir transações financeiras”, disse ao GLOBO a
advogada Nuria López.
As plataformas serão obrigadas a remover
conteúdos assim que notificadas pelas partes afetadas, e não apenas mediante
sentença da Justiça — princípio que deveria valer não apenas para violações a
direitos de crianças e adolescentes, mas para qualquer violação no meio
digital. Também terão de manter seus sistemas de proteção sempre ativados no
nível mais alto. Dessa forma, haverá restrições à comunicação com os menores.
Por exigir alterações na infraestrutura e
redesenho de aplicativos, levará algum tempo para todos os recursos estarem
disponíveis. O rigor na identificação do usuário, com uso de biometria, é vital
para que a legislação surta o efeito desejado na proteção dos mais jovens, mas
serão necessários alguns meses até uma implementação satisfatória.
O Brasil fez bem ao escolher uma
regulamentação rígida, inspirada em regras adotadas na União Europeia (UE). A
enorme população de crianças e jovens sujeita a desníveis de renda e acesso
justifica um controle mais próximo dos pais. Para vigiar o cumprimento das
normas, foram criadas divisões especiais na Polícia Federal (PF) e na Agência
Nacional de Proteção de Dados (ANPD). “Estamos colocando em vigor uma das
legislações mais avançadas do mundo”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. “Chega de tolerância com a exploração, o abuso sexual, a pornografia
infantil, o bullying e a automutilação. O que é crime real é crime no ambiente
digital, e os criminosos sofrerão os rigores da lei.”
O êxito da nova legislação dependerá, contudo,
da adesão das plataformas. Algumas já tomam iniciativas positivas. O TikTok avisou
que, desde terça-feira, adolescentes deixaram de poder alterar sem supervisão
adulta as configurações mais restritivas de suas contas. O Discord passou a
exigir vídeo e documentos para avaliar a idade. Além da perseverança na
aplicação das regras, deve haver preocupação constante com seu aperfeiçoamento.
Sobretudo, as plataformas digitais não podem ficar inertes.
Não há justificativa razoável para reajuste a
servidores de Judiciário e MP
Por O Globo
Mesmo funcionários da base nesses setores já ganham bem mais que nas demais áreas do Estado
Enquanto o país anseia por mais disciplina em
“penduricalhos” e outras benesses desfrutadas pela elite do funcionalismo, os
servidores de escalões mais baixos do Judiciário e do Ministério Público (MP)
festejam a aprovação de aumentos salariais e a criação de novos cargos pelo
Congresso. Três projetos dessa natureza aclamados pelo Senado têm impacto
orçamentário estimado em R$ 242,8 milhões somente neste ano eleitoral — e daí
para a frente o valor será incorporado ao custo fixo da máquina pública.
Um Projeto de Lei (PL) reajusta os
vencimentos dos servidores do Ministério Público da União (MPU) e do Conselho
Nacional do Ministério Público (CNMP) em três parcelas de 8% ao ano. A primeira
será paga em julho, as demais em 2027 e 2028. A justificativa alegada não
poderia ser mais descabida: “Valorizar as carreiras, assegurar condições dignas
de trabalho e fortalecer a atração e retenção de servidores qualificados, com
reflexos na eficiência institucional e na capacidade do Ministério Público de
cumprir suas funções constitucionais”.
Ora, não há notícia de que as carreiras do
MPU e do CNMP não sejam mais valorizadas ou tenham condições indignas de
trabalho. Tampouco foram apresentadas provas de queda na procura por concursos
públicos ou de êxodo para o setor privado. Pelo contrário, há cada vez mais
interessados nos altos vencimentos oferecidos. Quanto à eficiência, se houver
reparos, eles nada têm a ver com remuneração. Em 2021, último ano para o qual
há dados disponíveis no Atlas do Estado Brasileiro, do Ipea, o servidor do
Judiciário ganhava 120% mais que o do Legislativo e quase 260% mais que o do
Executivo. Mesmo os 20% que ganham menos no Judiciário são mais bem remunerados
que servidores públicos em faixas salariais elevadas nos âmbitos municipal e
estadual.
Outro PL reestrutura carreiras
administrativas da Defensoria Pública da União (DPU). Nos níveis intermediário
e superior, serão agora 13 faixas em vez de 20. Reduzir níveis hierárquicos é
um objetivo sensato. Só que um trecho do PL busca “equalizar” as “discrepâncias
existentes” entre os funcionários da Defensoria e da Justiça Federal e MP. Na
hora de discutir remuneração, todos querem se igualar aos que ganham mais.
Suscetível à pressão, o Senado aprovou aumento de despesas da ordem de R$ 6
milhões por ano.
Também na quarta-feira, os senadores chancelaram a criação de mais 240 cargos e funções no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Serão 50 novos analistas, 70 técnicos, 20 cargos em comissão e cem funções comissionadas. Ao apresentar seu relatório no plenário, o relator Fernando Farias (MDB-AL) disse que o quadro pessoal do CNJ deve ser “compatível com as demandas institucionais”. Faltou Farias apresentar análises independentes sobre as demandas hoje não atendidas por falta de servidores e justificativas para um salto dessa ordem. O tratamento aos servidores do Judiciário pelo Senado demonstra que o lobby dos “penduricalhos” não enfrenta resistência do Parlamento para manter regalias.
BC e Tesouro são pressionados por guerra e
rombo fiscal
Por Folha de S. Paulo
Autoridade monetária faz corte modesto dos
juros com atenção aos impactos da alta do petróleo na inflação
Medidas para conter os preços dos
combustíveis elevam as incertezas fiscais num quadro de finanças depauperadas
sob Lula
O Banco Central decidiu
reduzir sua taxa de juros,
a Selic,
de 15% para 14,75% ao ano. Há até poucos dias, investidores e analistas
esperavam um corte de 0,5 ponto percentual, mas o início do ciclo de alívio
monetário se dá em um quadro complexo, marcado pelos
impactos da guerra no Oriente Médio.
Cautela e incerteza nortearam o comunicado do
Comitê de Política Monetária (Copom),
que evitou indicar próximos passos e optou pelo termo "calibração" da
política de juros, em vez de redução. Diante das dúvidas sobre a duração e as
consequências da ofensiva de Estados
Unidos e Israel contra
o Irã,
o colegiado estabeleceu, por unanimidade, um corte mais modesto.
Com a volatilidade geopolítica e a alta do
preço do barril do petróleo Brent
acima dos US$ 110, as projeções de inflação do
cenário de referência do BC pioraram significativamente. Para 2026, saltaram de
3,4% a 3,9%; para o terceiro trimestre de 2027, subiram de 3,2% para 3,3% em 12
meses —nos dois casos, acima da meta de 3%.
O cenário doméstico tampouco é
tranquilizador. Embora o Copom tenha salientado os efeitos dos juros altos na
desaceleração da atividade até o fim de 2025, os dados do início deste ano revelam
varejo mais forte, emprego robusto e crescimento da renda —boas notícias de
imediato para o cidadão, mas obstáculos para o controle da inflação.
As expectativas de mercado para o IPCA
permanecem acima da meta: 4,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,5% em 2028. A inflação
de serviços, altamente influenciada pelo ritmo de expansão da renda e do
emprego, segue elevada.
A confirmação de uma trajetória mais
confiável de desaceleração da economia e dos preços é crucial para que um ciclo
de redução da Selic se materialize, levando-a a menos de ainda elevadíssimos
12% no horizonte visível.
A alta dos preços de energia, agravada pelos
ataques do Irã à infraestrutura de gás natural nos países vizinhos, pressiona
custos globais e complica o cenário para todos os bancos centrais. Escaldados
pelo salto da inflação em 2022, eles adotarão cautela em qualquer passo de
afrouxamento enquanto durar o conflito.
A rapidez dos movimentos no mercado também
obrigou o Tesouro a realizar leilões de recompra de títulos de vultosos R$ 49
bilhões em três dias, na maior intervenção em mais de uma década, para prover
liquidez e mitigar a disparada dos juros futuros.
Intervenções para conter o encarecimento dos
combustíveis, como a zeragem de tributos federais e o
subsídio ao diesel, mesmo compensadas por um controverso imposto
temporário sobre exportações de petróleo, elevam as incertezas orçamentárias.
Medidas como essas são comuns em diversos
países, mas tornam-se preocupantes onde há contas públicas depauperadas, caso
do Brasil sob Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
Quanto mais insegurança quanto à situação fiscal, mais difícil será gerir os
títulos públicos e reduzir os juros.
A guerra sem causa de Trump
Por Folha de S. Paulo
Sem ser ameaçado pelo Irã, republicano age
por voluntarismo, desconsiderando consequências previsíveis
Mesmo que Teerã desenvolvesse armas
nucleares, não poderia atacar os EUA, já que não tem mísseis intercontinentais
e submarinos nucleares
A ciência política cunhou a expressão
"guerra de escolha", em que uma nação ataca outra por opção estratégica,
para diferenciá-la da guerra de necessidade, que é imposta a uma das partes.
Para descrever a contento o ataque dos EUA contra o Irã, é preciso
agora forjar um novo termo: "guerra de capricho".
Com efeito, a decisão de Israel de
lançar uma ofensiva contra Teerã ainda pode ser descrita como guerra de escolha
—deixando de lado a questão da legalidade e as incertezas envolvidas em
qualquer ação militar.
Os aiatolás nunca esconderam que visavam
destruir o Estado judeu. Tinham, ademais, meios de atingi-lo com mísseis e
drones ou por meio de agentes interpostos, como Hamas e Hezbollah. Dada a
possibilidade de ameaça existencial, faz sentido estratégico atacar a teocracia
num momento em que ela mostra fragilidade.
Nada disso se aplica aos EUA. Mesmo que Teerã
desenvolvesse armas nucleares, não conseguiria atacar os americanos, já que não
tem mísseis intercontinentais e submarinos nucleares. Se a ideia era impedir ou
atrasar a nuclearização, as negociações em curso até fevereiro soavam como um
caminho mais promissor.
Donald Trump parece
ter agido por voluntarismo. Imaginou que a ofensiva teria desfecho similar ao
da intervenção na Venezuela.
Mas a possibilidade de o regime iraniano
sobreviver às primeiras bombas e responder fechando o estreito de Hormuz, com impactos
inflacionários e potencialmente eleitorais, é uma carta que
sempre esteve sobre a mesa. Trump não a considerou como deveria porque não
quis.
É justamente isso que preocupa. Em seu
primeiro mandato, o presidente americano ainda se deixava influenciar por
servidores de carreira, tanto civis como militares, e por quadros tradicionais
do Partido Republicano. Esses agentes não asseguraram um mandato tranquilo, mas
ao menos bloquearam os impulsos mais destrutivos de um indivíduo que é
orgulhosamente ignorante e perigosamente vaidoso.
Agora, Trump não só cercou-se de conselheiros
que dizem amém aos seus desejos como anulou mecanismos institucionais que
buscam conter decisões insensatas de mandatários.
Poucas vozes do governo ousam contrapor-se a ele. É o caso de Joe Kent, que renunciou ao cargo de chefe da agência de contraterrorismo por discordar da guerra, que classificou de lobby israelense —embora a objeção seja enfraquecida por Kent pertencer a uma ala ainda mais radical do trumpismo e quase certamente ter motivações eleitorais.
Juros sob a névoa da guerra
Por O Estado de S. Paulo
Com o conflito no Oriente Médio e disparada
do petróleo, BC inicia ciclo de redução de juros de maneira tímida e corta
Selic de 15% para 14,75% ao ano. Lula, ainda assim, reclama
Em tempos de tanta incerteza, o Banco Central
(BC) cumpriu o combinado e reduziu a taxa básica de juros, mas em uma dose
menor do que imaginava há dois meses. Se em janeiro a perspectiva de queda da
Selic se baseava na desaceleração da atividade econômica e da inflação no País,
tudo mudou dois meses depois em razão da deflagração da guerra no Oriente Médio
e a consequente disparada dos preços do petróleo.
Não há como prever quando o conflito deve
acabar, de forma que tampouco é possível dizer o que o BC fará na próxima
reunião, marcada para o fim de abril. Presume-se que os impactos do confronto
no mercado interno, por ora, não foram tão grandes, do contrário o Comitê de
Política Monetária (Copom) teria mantido os juros em 15% ao ano. Mas também não
foram inócuos, haja vista que a Selic caiu apenas 0,25 ponto porcentual (p.p.),
para 14,75% ao ano.
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
foi pouco. Já em clima de campanha eleitoral, ele tinha a expectativa de que os
juros caíssem ao menos 0,50 ponto porcentual. Sua tropa de choque se manifestou
nas redes sociais. A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann,
disse que a decisão foi decepcionante. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) foi
além: sugeriu que o País é refém do mercado, que projeta juros elevados e
transforma suas apostas em uma profecia autorrealizável, quando nem mesmo
países em guerra têm juros tão altos.
Mas a própria atuação do Tesouro Nacional no
mercado nesta semana, com a maior intervenção da História no mercado de títulos
públicos em valores nominais, evidencia que as turbulências não são
desprezíveis. O volume de recompra dos papéis, de R$ 49 bilhões, socorreu
justamente os investidores que apostavam numa queda maior da Selic, que tiveram
de recalcular a rota em razão das incertezas sobre a guerra no Oriente Médio e
sobre uma nova greve dos caminhoneiros.
O Fed, banco central norte-americano, sob
intensa pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não surpreendeu
e manteve os juros entre 3,5% e 3,75% nesta semana. Por lá, o presidente da
instituição, Jerome Powell, deixou claro que os efeitos da guerra nos preços de
petróleo e nas expectativas de inflação preocupam e serão monitorados com
atenção, e ninguém vislumbra novos cortes tão cedo.
No Brasil, o comunicado divulgado após a
reunião não foi taxativo, e há apostas para os dois lados. A maioria dos
analistas viu indícios de que os juros podem cair mais no mês que vem, ou seja,
0,50 ponto porcentual. Outros acreditam que, a julgar pelo cenário e pelo tom do
comunicado, a taxa nem sequer deveria ter sido reduzida nesta semana.
Para este ano, as projeções para a inflação
subiram de 3,4% para 3,9%. No entanto, para o terceiro trimestre de 2027, o
chamado horizonte relevante, que guia as decisões do Copom, a alta foi bem
menor, de 3,2% para 3,3%, o que gerou certa perplexidade entre os economistas,
que esperavam uma alta maior.
Espera-se que a ata da reunião do Copom, a
ser divulgada na próxima semana, possa trazer mais pistas, mas a verdade é que
tudo vai depender da duração da guerra. Fato é que a Selic está em nível tão
elevado, e há tanto tempo, que parecia haver espaço para cortá-la sem muito
perigo.
Afinal, na economia real, a diferença entre
juros em 15% ou 14,75% é praticamente imperceptível. O crédito continua
caríssimo tanto para as famílias quanto para as empresas, como mostram os
números de inadimplência e de recuperações judiciais e extrajudiciais.
Se o cenário é ruim para o setor produtivo,
encontrar investimentos que rendam mais que os títulos atrelados à Selic sem
agregar muito o risco é praticamente impossível. No contexto internacional, o
País é um destino seguro para o capital estrangeiro, o que favorece o câmbio e,
consequentemente, o Banco Central.
Do governo, no entanto, o BC não deve esperar
qualquer ajuda. A guerra no Oriente Médio e as pesquisas que apontam para um
empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixaram o
Executivo apreensivo, ambiente perfeito para que germinem ideias populistas sem
qualquer preocupação fiscal. Resta ao País torcer para o conflito acabar o
quanto antes.
A ameaça de recriar o controle de preços
Por O Estado de S. Paulo
Insistência do governo Lula de fazer a
Petrobras retornar ao mercado de distribuição de combustíveis envolve pretensão
arriscada de controlar preços para tentar conter a inflação
É antiga e notória a intenção do governo de
Luiz Inácio Lula da Silva de fazer a Petrobras voltar ao mercado de
distribuição de combustíveis, de onde se afastou desde que foi concluída a
privatização da antiga BR Distribuidora (atual Vibra), em 2021, num processo
que se estendeu por dois anos. Lula, de fato, às vezes parece tentado a anular
a venda da ex-subsidiária na canetada, embora isso não esteja ao seu alcance.
Por isso não causaram surpresa as declarações de ministros, no dia do recente
anúncio do pacote para evitar o aumento do preço do diesel, dando como certa a
volta da estatal ao segmento.
Ou melhor, o conteúdo não surpreendeu, já que
a própria empresa anunciara, em agosto do ano passado, ter aprovado proposta de
retomada da atividade. Mais recentemente, a presidente da Petrobras, Magda
Chambriard, disse que o retorno está previsto no plano de negócios 2026-2030. A
forma como o tema foi tratado pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, porém,
deixou às claras o motivo da insistência do governo em voltar a incluir a
distribuição no portfólio de negócios da Petrobras: o controle de preços.
Ao dizer que, quando a subsidiária da estatal
atuava no segmento, “tínhamos uma referência (de preço)” e que, depois da privatização, o governo
percebe “abuso na prática de preços”, Costa praticamente admitiu que a
interferência governamental nos combustíveis se estendia do refino à
distribuição. Ou seja, o que antes ficava implícito nas gestões lulopetistas é
agora admitido como prática normal.
O ministro também argumenta que a fatia da
estatal era pequena, o que é pura balela. De fato, a participação da BR Distribuidora
era de pouco mais de 30%, mas num mercado onde atuavam mais de 200 empresas,
dos mais diversos portes, e no qual a Petrobras era líder absoluta, com uma
rede de mais de 8 mil postos de bandeira BR pelo País. Não era uma participação
modesta. Ao contrário, era relevante o suficiente para ditar a formação de
preços.
Preços que, saliente-se, deixaram de ser
legalmente controlados pelo governo em 2002, depois de um processo gradual de
abertura que durou cinco anos até o livre comércio de gasolina, diesel e GLP
nas refinarias e nos postos de combustíveis – uma liberação que funciona mais
em teoria do que na prática, já que a Petrobras, por deter quase toda a
capacidade de refino nacional, exerce influência inquestionável na formação de
preços.
Como se trata de uma empresa de economia
mista, isto é, com a maior parte do capital privado, mas sob o controle da
União, a interferência estatal nos preços é mais ou menos intensa, de acordo
com o governo de plantão. No caso do lulopetismo, a forte ingerência é preocupação
constante entre os acionistas privados.
O congelamento de preços de combustíveis por
um período prolongado na desastrosa gestão da petista Dilma Rousseff deflagrou
a pior crise financeira da Petrobras. Dilma gostava de congelamentos: depois de
baratear os combustíveis na marra, segurou também os preços das contas de luz
por cerca de dois anos. O resultado de tudo, como se sabe, foi recessão e uma
conta ainda mais salgada para o contribuinte.
A deterioração do caixa e os casos de
corrupção fizeram a Petrobras passar por uma completa reformulação. Por um
curto período de tempo, a blindagem funcionou, mas, a partir de 2023, de novo
sob Lula, mudanças no estatuto afrouxaram regras importantes de governança.
Agora, numa campanha eleitoral antecipada, a Petrobras volta à berlinda.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre
Silveira, chegou a chamar de “crime de lesa-pátria” a venda da BR
Distribuidora. Não fosse o acordo de não concorrência assinado pela Petrobras à
época da venda da distribuidora, que deu à empresa privatizada o direito de
usar a marca até 2029, a gestão lulopetista já teria iniciado a retomada do
controle.
Ainda que as incertezas da guerra de Estados
Unidos e Israel no Irã justifiquem medidas extraordinárias para garantir o
suprimento de combustíveis, ultrapassar o limite da emergência para instalar um
controle populista de preços é aposta obviamente perigosa, como mostram os
inúmeros desastres do passado – que Lula, obviamente, prefere ignorar.
O BNDES acionista
Por O Estado de S. Paulo
Banco retomou compra de ações de empresas em
2025. Experiência diz que é preciso cautela
A volta do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) às compras de participações acionárias em empresas
em 2025 acabou ganhando mais destaque no anúncio de resultados do que o lucro
líquido de R$ 26,8 bilhões registrado no ano passado. Não à toa, já que os
investimentos representam a mudança definitiva da política adotada no governo
Jair Bolsonaro, que declaradamente buscava zerar a carteira e extinguir a
BNDESPar, o braço de participações societárias do banco estatal.
Para uma economia traumatizada pela era das
“campeãs nacionais”, a política adotada pelo banco em gestões passadas de Luiz
Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, é quase um alívio que novas investidas
tenham ocorrido apenas no terceiro ano do atual mandato petista. Ao menos é um
sinal de que o ímpeto de fazer do Estado o condutor do processo de criação de
multinacionais brasileiras foi contido. A ideia de escolher a dedo os grupos
que ganhariam reforço vigoroso de capital fez o Tesouro injetar mais de R$ 440
bilhões no banco em pouco mais de seis anos.
Eram empréstimos com prazo de pagamento que
se estendiam por décadas – alguns até 2050 ou 2060 – que contribuíram para
fazer disparar a dívida pública. Para conter um déficit orçamentário galopante,
a partir de 2016 o governo passou a compactuar os reembolsos do BNDES ao
erário. Além do desperdício de recursos públicos, a política dirigida do banco
deixou uma imagem de promiscuidade nas relações entre governo e iniciativa
privada.
Apesar de evitar reconhecer publicamente o
erro e os prejuízos causados, o próprio lulopetismo parece admitir que a nódoa
deixada pela política protecionista é difícil de ser apagada. Tanto que decidiu
reformular os critérios para a entrada em participações societárias antes de
iniciar novas investidas. No ano passado, comprou R$ 409 milhões em ações na
oferta pública feita pela Cosan, adquirindo 2% do capital da empresa. Junto com
a Shell, a Cosan é dona da Raízen, que recentemente deu início ao maior
processo de recuperação extrajudicial do País, para renegociar dívidas de R$ 65
bilhões.
Ao Estadão, o diretor financeiro do BNDES, Alexandre
Abreu, classificou a Raízen como “um belo ativo”, que está passando por uma
dificuldade. O que é verdade, mas também pode servir como um alerta para fazer
com que a instituição caminhe devagar com o andor das aquisições acionárias.
Afinal, como banco de fomento, sua atribuição mais relevante é fornecer crédito
e financiamento com condições mais acessíveis do que as de mercado para
estimular o crescimento de empresas.
A atuação do BNDES é fundamental para estimular o empreendedorismo, aumentar a oferta de empregos e ajudar na reestruturação de setores. O radicalismo da liquidação das participações acionárias, pretendidas pela gestão Bolsonaro, talvez não fizesse sentido. Mas a sanha do banco investidor do lulopetismo, o braço do Estado na iniciativa privada, também não. O meio-termo é o do banco que assessore o desenvolvimento sem se apoderar das decisões estratégicas que cabem às empresas.
OMC vê forte impacto da guerra no comércio
global
Por Valor Econômico
O órgão multilateral projeta uma
desaceleração no ritmo de crescimento do PIB global de 2,8% para 2,5%, enquanto
o comércio global encolheria 0,5 ponto percentual, para 1,4% em 2026
O comércio mundial teve uma performance bem
melhor que a esperada diante da tempestade tarifária criada pelo presidente
Donald Trump, avalia a Organização Mundial do Comércio. Mas após esse choque,
que ainda não se dissipou e levará o volume de transações de mercadorias e
serviços no mundo a crescer menos que em 2025, um outro pode estar a caminho: o
aumento dos preços de energia causado por um conflito prolongado no Oriente
Médio. Nesse cenário, o crescimento do PIB global seria reduzido em 0,3 ponto
percentual (ou cerca de US$ 345 bilhões), de 2,8% para 2,5%, e o comércio
global encolheria 0,5 ponto percentual, para 1,4% em 2026 (ou US$ 131 bilhões).
A OMC fez coro às preocupações nacionais dos
bancos centrais que se reuniram ontem para definir os próximos passos de suas
políticas monetárias. O Banco Central Europeu calcula que a alta dos preços da
energia, e em especial do gás liquefeito, do qual a zona do euro é muito
dependente, terá “impactos materiais” na inflação. O BCE manteve os juros em
2%, mas previu que a meta de inflação será ultrapassada no ano. Em fevereiro, o
índice de preços ao consumidor subiu 1,9% em 12 meses e a estimativa é de que
encerrará 2026 em 2,6%. O crescimento deverá ser menor, de 0,9%. Antes do
choque de petróleo, a previsão era de 1,2%.
A zona do euro está agora em melhores condições
para enfrentar pressões inflacionárias do que em 2022, quando foi surpreendida
pelo corte de fornecimento do gás da Rússia, depois que o país invadiu a
Ucrânia. A inflação na época estava em alta e o mercado de trabalho, aquecido,
condições que não existem agora. “A inflação está bem ancorada”, disse
Christine Lagarde, presidente do BCE. Mas os estoques de gás estão baixos após
o fim do inverno, grande parte do fornecimento vem dos países do Oriente Médio
e têm agora a rota bloqueada no Estreito de Ormuz. Em um cenário de bloqueio
longo do fornecimento, o BCE estima que o preço do petróleo saltará para US$
150 o barril, o que faria a inflação na zona do euro subir para 4,4% no ano e a
economia caminhar para perto da recessão, com apenas 0,4% de expansão.
O Banco da Inglaterra, que ontem manteve a
taxa básica de juros em 3,75%, também prevê tempos difíceis. A inflação ao
consumidor, prevista em 2,1% em 2026, deverá subir para 3%, atingindo 3,5% na
metade do ano.
A OMC, no relatório “Perspectiva do Comércio
Mundial”, indicou que o comércio global teve bom desempenho no primeiro
bimestre do ano. Mas os impactos do protecionismo americano e da guerra
tarifária de Trump, que foram muito menos severos do que se previa, ainda estão
retraindo as trocas globais. O volume de comércio crescerá 1,9% no ano, supondo
que a crise da oferta de petróleo seja passageira, menos da metade dos 4,6% de
2025. Em valor, o comércio de mercadorias atingiu no ano passado US$ 26,2
trilhões e o de serviços, US$ 9,56 trilhões.
Há dois riscos para a expansão comercial
global. Um deles foi o que serviu de contrapeso às consequências negativas das
tarifas de Trump e impulsionou as trocas: os enormes investimentos em
Inteligência Artificial, que puxaram a demanda de insumos a ela relacionados
(semicondutores, equipamentos de transmissão de dados etc). A IA foi
responsável por 42% do crescimento do comércio global. Uma desaceleração nos
investimentos na tecnologia terá um baque considerável na expansão do comércio.
O outro risco é o conflito prolongado no Oriente Médio.
Segundo a OMC, as consequências se estendem
além da disseminação das pressões inflacionárias dos preços da energia. Elas
incluem a ameaça à segurança alimentar, já que pelo Estreito de Ormuz transita
um terço das exportações de fertilizantes do mundo — 35% da ureia importada
pelo Brasil passam por ali. A região conflagrada movimenta 7,4% dos serviços de
transporte do mundo e 8,4% dos gastos com viagens e turismo, além de sediar
hubs importantes do transporte aéreo.
O tráfego diário de 138 navios comerciais
caiu a praticamente zero, paralisando um fluxo de 20% da oferta mundial.
Segundo a OMC, entre 28 de fevereiro e 9 de março, foram cancelados 40 mil dos
72 mil voos programados. Apesar da alta das cotações — ontem chegaram a
encostar em US$ 119 o barril tipo Brent — elas ainda estão distantes do pico de
preços de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia (US$ 147 o barril). Mas a
guerra parece ter entrado em uma fase particularmente destrutiva, com Israel e
Irã alvejando a infraestrutura de produção, refino e transporte de óleo e gás
da região.
A OMC desenha também um cenário básico que, visto de hoje, é mais otimista. O conflito se encerraria logo, deixando cicatrizes na infraestrutura e capacidade de produção, mas os fluxos de mercadorias, serviços e transportes se restabeleceriam rapidamente, com volatilidade de curto prazo nas cotações do óleo. Não há sequer negociações entre os países beligerantes, o que torna distante a perspectiva de um acordo que reabra o Estreito e cessem os combates. Pelos estragos já vistos em três semanas, a continuidade da guerra tem potencial para espalhar uma onda de inflação e baixo crescimento globais.
O limite da força bruta no Irã
Por Correio Braziliense
Longe de um esfacelamento interno ou da
paralisia de suas forças armadas, o regime iraniano demonstra uma resiliência
operacional que desafia o cálculo estratégico de Washington e Tel Aviv
Na teoria militar clássica, a doutrina da
"decapitação" pressupõe que a eliminação física dos líderes de um
Estado ou regime adversário é o caminho mais curto para provocar o colapso de
suas instituições, a desorientação de suas tropas e, em última instância, a
rendição. No entanto, o que o mundo observa hoje no Oriente Médio, semanas após
a ofensiva sem precedentes dos Estados Unidos e de Israel contra o alto-comando
do Irã, subverte os manuais de guerra.
A expectativa de que o assassinato do líder
supremo, aiatolá Ali Khamenei, e do núcleo duro da Defesa precipitaria a
desintegração imediata da República Islâmica não se confirmou na prática. Longe
de um esfacelamento interno ou da paralisia de suas forças armadas, o regime
iraniano demonstra uma resiliência operacional que desafia o cálculo
estratégico de Washington e Tel Aviv. Sem fazer qualquer concessão moral a uma
teocracia autocrática, a análise fria e objetiva dos fatos revela um Estado que
absorveu um golpe letal, reorganizou-se nas sombras e manteve sua engrenagem de
poder ativa. Nem a morte do secretário de Segurança Ali Larijani, um dos homens
mais fortes do regime, na última terça-feira, abalou o planejamento que o Irã
faz da guerra.
O emblema mais contundente dessa sobrevida
institucional é o cenário no Estreito de Ormuz. Mesmo sob intenso bombardeio,
Teerã continua a exercer controle sobre o gargalo por onde escoa a artéria
energética global. A continuidade da mobilização militar, o disparo coordenado
de mísseis e a coesão de suas linhas de defesa indicam que a Guarda
Revolucionária possui um sistema de comando descentralizado e redundâncias
táticas que foram subestimadas pelos serviços de inteligência rivais. O Irã
prova, a um custo altíssimo, que o seu Estado é independente das figuras que o
governavam.
O apelo que os EUA fizeram para que aliados
se engajassem na liberação do Estreito de Ormuz foi pessimamente recebido. As
outras potências, como França e Reino Unido, não se mostraram dispostas a
enviar navios e armas para tentar forçar uma passagem das embarcações de
petróleo que estão empacadas no Golfo Pérsico.
A leitura pragmática do teatro de operações é
severa: a via da força bruta atingiu o seu limite de eficácia. A ausência de
apoio do resto do mundo aponta claramente: a aposta de que mais bombardeios
trarão a submissão de um regime que já demonstrou estar disposto a ir às
últimas consequências é uma ilusão que custará o mergulho da economia global em
uma recessão sem precedentes e, no pior dos cenários, a escalada para um
conflito não convencional.
Diante do impasse de uma guerra que não
produziu os resultados rápidos que seus deflagradores prometeram, a comunidade
internacional precisa abandonar a letargia. O esgotamento da solução militar
impõe uma guinada de rota. Por mais amarga, politicamente custosa e desgastante
que pareça neste momento de ânimos acirrados, a via diplomática deve ser
tentada mais uma vez.
Buscar um cessar-fogo estruturado não é um atestado de fraqueza, mas o reconhecimento maduro de que a aniquilação mútua não serve aos interesses de nenhuma nação. Quando a resistência de um lado e o poderio do outro criam um empate técnico, a diplomacia deixa de ser uma opção idealista para se consolidar como o único instrumento prático capaz de salvar o que resta da estabilidade global.
A queda, ainda insuficiente, dos juros no
Brasil
Por O Povo (CE)
O Banco Central anunciou uma redução em 0,25
ponto percentual na taxa básica de juros aplicada no Brasil, a chamada Selic.
Um movimento necessário, diante dos injustificáveis 15% que vigoravam, mas
ainda insuficiente para trazer o índice para algo mais próximo de uma realidade
econômica que não ampara, por sua estabilidade, tanta desconfiança do mercado.
Claro que seria injusto jogar toda a
responsabilidade no BC que, ao contrário, até busca cumprir seu papel ao adotar
uma postura de cuidado, até excessivo em algumas situações, para garantir sua
obrigação de atuar para que a inflação se mantenha em patamares próximos à meta
pré-estabelecida para os ciclos anuais. Talvez fosse o caso de começar a
discutitr a questão por aqui.
A meta de 3% ao ano determinada atualmente
para o Brasil demonstra-se irreal, observada até numa perspectiva mais longa.
Há poucas situações históricas nas quais ela foi observada, o que torna
incompreensível a decisão tomada lá atrás de estabelecê-la, obrigando o Banco
Central a persegui-la. Não é uma escolha, trata-se de uma obrigação funcional e
institucional.
Quando se decide por manter o índice em 15%
ao longo de mais de um ano, como aconteceu nas reuniões do período realizadas a
cada ciclo de 45 dias, é, muito mais, para cumprir sua parte no esforço de
todos para manter a inflação controlada. Algo que interessa à própria
sociedade, mas claro que já não parece tão suficiente quanto um dia já foi.
Talvez seja hora de discutir o próprio papel
do BC, inserindo outros objetivos dentro de sua meta, relacionadas a aspectos
mais direcionados à vida real das pessoas. Por exemplo, olhar também para o
mercado de trabalho e os índices de desemprego porque há situações nas quais o
esforço de manter os preços controlados demonstra-se ineficaz para atender à
população, observada para além do mercado financeiro.
Enfim, de volta à sutil redução que acaba de
ser anunciada, em decisão unânime do Comitê de Política Monetária, entende-se
que poderia ser maior, chegando aos 0,50 pontos percentuais, mas, também parece
compreensível a opção por um caminho mais conversador e cuidadoso diante do
cenário mundial incerto com a guerra que se trava entre Israel, Estados Unidos
e Irã numa área do mundo que regula o mercado global de petróleo. É momento
mesmo de estarmos atentos aos desdobramentos.
O que se espera, a partir de agora, é um
pouco mais de agilidade para trazer a política de juros para algo mais próximo
do que temos na realidade. Uma economia que resiste firme e estável a mudanças
de governo, que há tempos não causa qualquer susto por medidas de grande
impacto (pacotes ou coisas do gênero), enfim, que não faz jus ao ceticismo com
o qual segue sendo tratado. Algo, não sejamos ingênuos, que atende a interesses
de quem lucra num plano (estratosférico) e que não necessariamente faz parte da
comunidade brasileira. Ou seja, vive os seus efeitos danosos no
dia-a-dia.

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