Raiz do juro alto está nas amarras orçamentárias
Por O Globo
Indexação ao mínimo e vinculação obrigatória
de despesas à receita respondem por 40% da alta na dívida
De equívoco em equívoco, o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá representado, ao fim de 2026, uma alta de 10% na dívida pública, para acima de 80% do PIB. Desse aumento, cerca de 40% — ou R$ 518 bilhões — se devem exclusivamente à indexação de benefícios previdenciários e programas sociais ao salário mínimo e à vinculação orçamentária obrigatória de gastos em saúde e educação, de acordo com cálculos do economista Samuel Pessôa. Tal expansão da despesa é o motivo para a taxa de juros brasileira estar entre as mais altas do mundo. Num país célebre pela carga tributária infame, o governo Lula, com o beneplácito do Congresso, apostou no aumento dos impostos para cobrir a despesa. Essa toada é o caminho para o caos. Se a campanha eleitoral permitir algum debate relevante, esse é um tema inescapável.
Logo depois de assumir em 2023, Lula propôs,
e o Congresso aprovou, regra prevendo a possibilidade de aumento real do
salário mínimo. O valor passou a ser corrigido pela inflação e recebeu
acréscimo relacionado ao crescimento da economia dois anos antes. No ano
seguinte, houve tentativa de correção ao estabelecer 2,5% como teto de ganho
acima da inflação. A manobra, porém, não evitou um impacto fiscal de quase R$
100 bilhões de 2023 até o ano passado, com previsão de mais R$ 72,3 bilhões
neste ano, segundo cálculos de Pessôa. A maior fatia dessa alta vem da
Previdência. Como 70% dos benefícios previdenciários estão indexados ao mínimo,
cada real de aumento no salário tem impacto de dezenas de milhões de reais nas
contas do INSS.
O governo não pode negar que havia outras
opções. A primeira era manter o reajuste considerando somente a variação dos
preços. Era a política adotada pelo governo anterior, e não havia pressão
popular alguma por mudança. A segunda era conceder aumento real, mas
desvinculando o salário mínimo da Previdência. Quem está no mercado de trabalho
tem gastos maiores que aposentados (com dependentes, vestuário, transporte
etc.). A correção das aposentadorias apenas pela inflação manteria o poder de
compra sem comprometer a saúde fiscal do país. Mas não. Lula preferiu —
conscientemente — aumentar o gasto, elevar a carga tributária e acelerar o
endividamento.
Outro equívoco foi a volta da vinculação
obrigatória das despesas com saúde e educação à arrecadação. Em 2016, no
governo Michel Temer, as regras do teto de gastos impuseram uma trava à
progressão desses dispêndios. Lula resolveu acabar com o controle. Os gastos
nas duas áreas passaram a acompanhar o aumento de receita do governo, sem
nenhum critério de eficiência. Ao longo dos quatro anos do terceiro mandato,
essa decisão terá impacto fiscal de R$ 347,3 bilhões. Saúde e educação são
prioritárias. Mas, no quadro atual, a regra é insustentável, porque sufoca o
orçamento. É o inchaço das despesas obrigatórias que inviabiliza investimentos
públicos de toda ordem.
No discurso populista, o governo alega dar
ênfase aos mais pobres. A história recente e a realidade desmentem tal visão.
Gastos descontrolados, endividamento público, juros altos e carga tributária
asfixiante explicam o atraso brasileiro. Nos últimos 40 anos, o Brasil ficou
para trás na corrida global e está ainda mais distante dos mais ricos. O mundo
correu, e o Brasil caminhou, deixando os brasileiros, principalmente os mais
pobres, em situação pior.
Aumento de ‘penduricalhos’ demonstra que
problema se tornou incontornável
Por O Globo
Estudo constata regalias em expansão, com
pagamento de pelo menos R$ 24,3 bilhões acima do teto em 2025
O Supremo Tribunal Federal (STF)
pretende começar a julgar na próxima quarta-feira a constitucionalidade das
verbas indenizatórias pagas de modo recorrente à elite do funcionalismo público
— popularmente conhecidas como “penduricalhos”. Liminares dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes,
confirmadas pelo plenário, suspenderam o pagamento de auxílios, gratificações
por acúmulo de função, licenças compensatórias ou férias convertidas em
dinheiro — e deram 60 dias para os três Poderes nas esferas federal, municipal
e estadual revisarem as benesses. A situação está longe de resolvida. Ao
contrário, os “penduricalhos” têm crescido e se tornaram um desafio
incontornável, como revela um novo estudo do pesquisador Sérgio Guedes-Reis
para a República.org.
“Em um intervalo de apenas quatro a cinco
meses, houve considerável expansão nos ganhos extrateto, inclusive nas
carreiras da magistratura e Ministério Público”, afirma o estudo. “O
quantitativo de juízes e membros do MP ganhando acima do teto passou de 31,4
mil para 37,9 mil, e o valor pago acima do limite constitucional nesse grupo
saiu de R$ 14,7 bilhões para R$ 17,5 bilhões.” Guedes-Reis levou em conta no
cálculo não apenas os contracheques de juízes, promotores e advogados da União,
mas também ganhos de defensores públicos estaduais e procuradores em 11
estados, bem como de duas capitais, São Paulo e Rio de Janeiro. Apenas nessa
fração do funcionalismo, estimou que o valor gasto acima do teto salarial — R$
630 mil anuais, ou a remuneração de um ministro do Supremo — foi de R$ 24,3
bilhões. Pelo menos 67,3 mil servidores ganharam mais que o permitido pela
Constituição. “Há evidência, portanto, de intensificação da corrida por
supersalários dentre as carreiras de elite do setor público”, afirma
Guedes-Reis. O trabalho aponta “evidências robustas” de que o abuso está também
disseminado por estados e municípios.
O estudo compara a remuneração brasileira à
equivalente em uma dezena de países e conclui: “As quatro carreiras jurídicas
brasileiras têm sido remuneradas em expressivo descompasso com a realidade
internacional”. Os 7.400 juízes mais bem pagos do Brasil recebem mais que todos
os 53 mil juízes dos dez países. “Esse grupo expressivo descumpriria o teto
remuneratório brasileiro mesmo se ele fosse equiparado ao italiano, que
corresponde a mais que o dobro”, diz o estudo.
Além de constatar a distorção, a pesquisa recomenda um modelo de transição ordenada a uma remuneração em consonância com o padrão internacional. “A reestruturação remuneratória, embora complexa, não é incompatível com as balizas jurídicas hoje vigentes”, diz Guedes-Reis. A economia estimada para os cofres públicos alcançaria R$ 578 bilhões em 20 anos, ou R$ 186 bilhões em dez anos — metade viria da magistratura e um quarto do Ministério Público. Trata-se, evidentemente, apenas de um exercício. Mas é uma contribuição valiosa tanto para o julgamento no Supremo quanto para as propostas legislativas sobre o tema.
Afastar militares do poder para evitar
tentativas de golpe
Por Folha de S. Paulo
Congresso deveria aprovar lei que isole
radicalmente os membros das Forças Armadas das funções civis
A sociedade, que paga caro para manter
militares, exige em contrapartida que eles não se metam em assuntos de governo
e eleições
Mais uma eleição nacional se aproxima sem que
o Congresso tenha fechado a porta para a participação de militares nas posições
civis do governo federal. Essa permissividade muito contribuiu para as tensões
institucionais durante a Presidência de Jair
Bolsonaro (PL) e já deveria ter sido
erradicada.
Proposta de
emenda à Carta apresentada em 2021 pela então deputada Perpétua Almeida (PC do
B-AC) trouxe regra relativamente eficaz para essa restrição.
Militares que queiram ocupar cargos de natureza civil na administração pública,
nos três níveis federativos, precisarão abandonar definitivamente a caserna.
Outro projeto, apresentado no Senado pelo
líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), também exige a renúncia do militar que
decida candidatar-se em eleições.
O centrão chegou a apoiar o projeto de
Perpétua Almeida no início, mas deixou-o de lado depois que passou a comandar,
com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), a Casa Civil de
Bolsonaro.
Mesmo com a entrada das tropas oligárquicas
de Nogueira no núcleo que decidia o destino de dezenas de bilhões de reais em
emendas orçamentárias, 6.157 fardados, da ativa e da reserva, detiveram postos
de caráter civil na gestão anterior. Não surpreende que, no final do governo,
se tenha reativado em alguns a doença, crônica na República brasileira, do
intervencionismo militar.
Assediada por um presidente autoritário, a
cúpula das Forças
Armadas ainda sofria a pressão de suas bases, temerosa de
perder as copiosas posições de prestígio e renda que amealhara de 2019 a 2022.
O bloqueio da aventura golpista dependeu fundamentalmente da resistência do
comando do Exército, sob o general Marco Antônio Freire Gomes.
Para evitar uma nova situação de quase
ruptura, é preciso isolar os militares das funções civis. O ideal seria que as
restrições propostas na PEC, hoje parada na Câmara, fossem além e impedissem
que militar que tenha ocupado posição de chefia, mesmo que esteja na reserva,
participasse do poder civil no Executivo, no Legislativo e no Judiciário.
A carreira militar no Brasil já dispõe de
mecanismos especialíssimos de proteção e aposentadoria. A sociedade, que não é
rica, paga caro
para sustentar as Forças Armadas, que deveriam se dedicar
exclusivamente à tarefa da defesa territorial e estar fortemente imunizadas
contra o risco de contágio, seja o político-partidário, seja o da
criminalidade.
Exército, Marinha e Aeronáutica defendem a
democracia quando se restringem ao seu papel estritamente militar. De eleições
e governos devem cuidar os civis e os representantes da população.
O que causa espanto é que os três Poderes
—Legislativo, Executivo e Judiciário— ainda não tenham se unido em torno do
interesse comum de reduzir o risco de um golpe de Estado e da subsequente
implantação de um regime que os deixaria manietados ou os reduziria a figuras
apenas decorativas de uma ditadura.
Sem desculpas para adiar o livre comércio
Por Folha de S. Paulo
Entrada em vigor do acordo Mercosul-UE,
prevista para maio, não encerra impasses e tentativas de proteção
Acordo beneficia consumidores e sela aliança
entre blocos imersos em incertezas sobre os rumos da economia global e o
multilateralismo
O acordo entre o Mercosul e
a União
Europeia finalmente deverá entrar em vigor até o final de maio.
Antes de alcançar a liberalização de mais de 90% do fluxo comercial na década
de 2040, setores sensíveis estarão expostos a choques de concorrência, o que
exigirá investimentos em competitividade.
Sua assinatura em janeiro encerrou 26 anos de
negociação. Segundo as regras, a ratificação pelos parlamentos do Mercosul, concluída
nesta semana por Brasil e Paraguai,
garante o início da vigência —mesmo com a revisão de seus termos em curso pelo
Tribunal de Justiça da UE.
Parcela limitada do comércio será liberada
imediatamente. O Mercosul reduzirá a zero só 10,7% de suas linhas tarifárias, o
que equivale a 15,4% das compras brasileiras vindas da UE em 2024. O setor de
alimentos e parcelas das indústrias de bens de capital, produtos de
informática, eletrônicos e ópticos do país perderão seus atuais níveis de
proteção.
Na outra mão, cerca de 39% dos itens
agropecuários do Mercosul entrarão na UE livres de tarifas. Nesse rol estão o
café, as frutas e madeiras processadas do Brasil.
Quanto aos demais, os prazos de redução das
tarifas —até 18 anos para os sul-americanos e 15 anos para os europeus— e as
cotas limitadoras do acesso livre serão suficientes para a adaptação ao
ambiente de maior concorrência. Tal formato atende às demandas dos setores
produtivos, mas sacrifica os benefícios que consumidores teriam se a abertura
comercial fosse mais rápida.
Como ocorre na adoção de acordos dessa
envergadura, não se prevê passividade de ambos os lados à medida que comecem os
desembarques de bens com tarifas anuladas. O conjunto de regras, que vai além
da proteção tarifária, será testado na prática.
As inserções no texto de salvaguardas
para a proteção do setor agrícola europeu, contra surtos de
importação do Mercosul, e a iniciativa similar do Brasil em relação a segmentos
industriais e rurais, adotada no início deste mês, darão margem a impasses.
Mesmo lenta e plena de concessões, a abertura
traz benefícios mais relevantes do que a manutenção de proteções que favorecem
setores pouco competitivos e a elevação esperada de 0,34% do PIB brasileiro
até 2044 e de 0,7% do europeu em 14 anos.
Sobretudo o acordo sela uma aliança expressiva entre blocos imersos em incertezas sobre os rumos da economia global e a sobrevivência do multilateralismo embasado no direito internacional. Em nenhum momento dos últimos 26 anos, Mercosul e UE precisaram tanto de sua adoção.
Delação de Vorcaro requer cautela
Por O Estado de S. Paulo
Provável colaboração recoloca em pauta os
limites de um instrumento jurídico cuja má utilização, como mostrou a Lava
Jato, macula processos, fragiliza instituições e favorece a impunidade
O sr. Daniel Vorcaro, por meio de seu
advogado, formalizou a intenção de firmar um acordo de delação premiada. Na
quinta-feira passada, o investigado deu o primeiro passo ao assinar um termo de
confidencialidade. Por ordem do ministro André Mendonça, relator das
investigações sobre o Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), no mesmo
dia, Vorcaro foi transferido do presídio de segurança máxima de Brasília para a
Superintendência da Polícia Federal, onde terá melhores condições para negociar
com as autoridades.
O movimento do banqueiro recoloca no centro
do debate público um instrumento jurídico que tem sido mal compreendido e, não
raras vezes, mal utilizado no País. Delação premiada não é prova de coisa
alguma. Trata-se de um meio de obtenção de prova, entre tantos outros, sujeito
a requisitos legais muito bem definidos na Lei 12.850/2013. Entre eles,
destacam-se a voluntariedade do investigado ou réu colaborador, a utilidade das
informações prestadas, a revelação da estrutura de uma organização criminosa e,
principalmente, a imprescindível confirmação de seus termos por elementos
probatórios diversos e independentes. Sem esses pressupostos, não há acordo
válido, há um discurso interesseiro.
A delação de Vorcaro, portanto, deve ser recebida
com um misto de serenidade e ceticismo. A história recente do País é pródiga em
lições. Será um erro ignorá-las. Uma vez celebrados os acordos de delação
premiada, muitas autoridades arrefeceram o ímpeto investigativo, como se a
palavra dos colaboradores bastasse para seus propósitos. No âmbito da Operação
Lava Jato, não foram poucas as denúncias oferecidas pelo Ministério Público com
base quase exclusivamente em depoimentos de colaboradores. Resultado:
condenações, acordos e multas bilionárias anulados poucos anos depois – muitos
por decisões monocráticas do ministro Dias Toffoli, ele mesmo alvo potencial da
delação de Vorcaro – e a corrosão da credibilidade de um instrumento que
deveria fortalecer, e não substituir, uma investigação policial.
O caso do Banco Master tem características
ainda mais delicadas do que o esquema do “petrolão”. O crescimento vertiginoso
da instituição financeira, sob a liderança de Vorcaro, foi acompanhado pari passu pela construção de
uma rede de relações entre o indigitado e autoridades dos mais altos escalões
dos Três Poderes. Não é trivial o potencial de comprometimento da cúpula da
República com os negócios do encalacrado banqueiro. Sabe-se, por exemplo, que
ao menos dois ministros do STF, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, têm
vínculos insofismáveis com o caso Master.
É nesse contexto que a delação de Vorcaro não
só será firmada, de resto a etapa mais fácil, como terá de ser homologada pelo
próprio STF. Forças muito poderosas atuarão para impedir esse acordo – ou anulá-lo.
Daí a necessidade de cautela diante da
perspectiva de uma nova “delação do fim do mundo”. A tentação de transformar as
confissões de Vorcaro em espetáculo ou instrumentalizá-las para fins
político-eleitorais será enorme. Para os investigadores, pode parecer um atalho
para a solução de um caso de altíssima complexidade. Para parte da imprensa, um
enredo irresistível, com personagens poderosos, episódios picantes e vazamentos
seletivos em série. Para a sociedade em geral, a promessa de uma nova catarse. O
busílis é que não se faz justiça sob a lógica do entretenimento, mas sim com
investigação rigorosa e provas robustas.
A delação de Vorcaro tem de ser tratada com
sobriedade institucional. Não é condição indispensável para a responsabilização
de culpados nem muleta para investigações tíbias. Ao contrário. Quanto mais
ruidoso for o teor do acordo, maior deve ser o escrutínio das autoridades sobre
a consistência dos elementos de prova que o sustentam – assumindo-se, claro,
que existam.
Por fim, a imprensa precisa se desvencilhar
da cilada da espetacularização. Tratar delações como o clímax de escândalos de
repercussão nacional é um erro que já custou caro ao País. A delação de Vorcaro
deve ser apenas o começo, jamais o fim, de um bom trabalho investigativo. Passa
da hora de o Brasil amadurecer para a cobertura midiática desses acordos e para
cobrar investigações e processos bem instruídos, de modo a produzir decisões
judiciais que resistam ao tempo.
Realidade versus percepção
Por O Estado de S. Paulo
Tanto no Brasil quanto nos EUA, mercado de
trabalho aquecido e crescimento do PIB não têm provocado sensação de melhora
econômica, o que complica as chances eleitorais dos incumbentes
Uma fórmula há muito consagrada, a de que
bons números econômicos reelegem o partido já instalado no poder, vem sendo
desafiada nos últimos anos.
Na eleição presidencial de 2024 nos EUA, o
democrata Joe Biden desfrutava de indicadores econômicos sólidos, o que em tese
garantiria a eleição da também democrata Kamala Harris. Ao longo de todo o
mandato de Biden, entre fevereiro de 2021 e dezembro de 2024, os EUA geraram
16,6 milhões de postos de trabalho. Biden, aliás, foi o primeiro presidente
americano a ver geração positiva de emprego em todos os meses de seu governo. O
PIB também teve bom desempenho. No entanto, como se sabe, Donald Trump derrotou
Kamala e retornou à Casa Branca.
Aqui no Brasil, o desemprego caiu, em 2025,
para o menor nível já registrado na série histórica do IBGE. A renda média do
trabalhador vem batendo recordes de alta sucessivos. O PIB, ainda que em
desaceleração, tem registrado ganhos ao longo do terceiro mandato de Luiz
Inácio Lula da Silva.
Mas pesquisas de opinião divulgadas
recentemente mostram que a população, a despeito dos bons dados, não tem uma
percepção otimista da situação econômica do País. De acordo com o Datafolha, o
porcentual de brasileiros que acreditam que a economia está pior subiu de 41%
em dezembro para 46% em março. Ao mesmo tempo, caiu de 29% em dezembro para 24%
em março o porcentual dos que entendem que a economia está melhor.
Isso pode significar que, a despeito do PIB
positivo e do forte mercado de trabalho, há uma percepção mais ou menos
generalizada de que o custo de vida subiu muito nos últimos tempos.
Na eleição americana de 2024, ainda que a
inflação tenha recuado mais para o final da gestão Biden, a questão do custo de
vida era a grande preocupação do americano médio. Já sob Trump, a economia
mostra notável resiliência, a despeito das barbeiragens tarifárias do governo,
graças sobretudo aos vultosos investimentos em inteligência artificial, mas
isso não parece bastar para mudar a sensação, entre a maioria do eleitorado, de
que seu poder de compra diminuiu. O americano comum vem se queixado do preço
dos alimentos, e a aquisição da casa própria tem sido bem mais difícil para os
adultos da atual geração do que foi para seus pais ou avós.
No Brasil, onde só agora a inflação começa a
cair, ainda que muito lentamente, a população ainda se ressente da carestia.
Não é porque a inflação recua que os preços automaticamente caem. Eles apenas
param de aumentar em ritmo mais acelerado, mas ainda assim seguem subindo.
Além disso, de acordo com o Banco Central, o
nível de endividamento das famílias brasileiras atingiu o patamar de 49,7% em
dezembro de 2025. O comprometimento de renda, isto é, o porcentual da receita
familiar destinado ao pagamento de dívidas e despesas fixas, vem subindo desde
2024 e encerrou 2025 em 29,2%.
Tanto no Brasil quanto nos EUA, bem como em
vários outros países, o embate entre a frieza dos indicadores e o cotidiano do
cidadão médio têm dificultado as chances eleitorais de governos incumbentes.
“Com indicadores como os atuais,
historicamente a aprovação do governo deveria ser maior. O que estamos vendo é
uma quebra desse padrão, que também aparece em outros países, como EUA, Europa
e Chile”, afirmou o economista Manoel Pires, do FGV Ibre, a O Globo.
Ele destacou ainda que, apesar do mercado de
trabalho aquecido, a inflação de alimentos continua pesando para o estrato da
população que agora está isenta de pagar Imposto de Renda (IR). O governo Lula
apostou nessa medida, que elimina o IR para trabalhadores formais com salário
de até R$ 5 mil, para turbinar sua popularidade em ano eleitoral. Mas, como os
preços continuam altos, a sensação de melhora econômica é, em parte,
neutralizada.
A percepção da realidade, como se vê, destoa
dos dados em geral positivos da economia porque esses indicadores não se
traduzem em aumento ou recuperação do poder de compra de boa parte dos
brasileiros, que podem manifestar sua insatisfação na votação que se aproxima.
Um leilão de poluição e carestia
Por O Estado de S. Paulo
Governo contrata reserva de energia térmica
com impacto na conta de luz estimado em 10%
O governo fechou acordo de compra de uma
substancial potência de energia elétrica, equivalente a quase uma e meia Itaipu
Binacional, no leilão de reserva de capacidade de energia que pretende garantir
a segurança do abastecimento de eletricidade nacional até 2031. A prevenção
contra instabilidades que já causaram apagões em período de forte demanda é uma
boa iniciativa, mas a opção por um megaleilão enfraqueceu a disputa, o custo
para o governo e para o consumidor aumentou e abriu caminho para a
predominância da geração termoelétrica, com 86% da energia contratada produzida
em usinas a gás, carvão e biometano.
A realização do leilão, no dia 18 passado,
que era tida como um marco para o setor, acabou sendo alvo de inúmeras
críticas, principalmente de entidades que representam consumidores de energia,
tanto grandes indústrias quanto usuários comerciais e residenciais. De fato,
com o resultado não se pode dizer que o governo tenha feito um bom negócio,
embora o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, tenha classificado “o
maior leilão de térmicas da história deste país” como “um dia histórico”.
Considerando todo o suposto esforço que o
governo diz estar fazendo para a transição rumo ao modelo de energia renovável,
fica difícil entender a lógica do ministro.
Não há dúvida de que é preciso garantir o
fornecimento ininterrupto de energia num sistema que interliga todo o
território brasileiro, de dimensão continental. Faz todo o sentido recorrer a
uma espécie de seguro de capacidade, para ter reserva técnica à disposição em
caso de hiatos de produção, como o de fontes eólicas e solares, por exemplo,
que não geram energia 24 horas por dia, ou mesmo algum problema climático que
coloque em risco grandes reservatórios. Mas a formatação do leilão deu origem a
dúvidas de que tenha beneficiado empresas geradoras sem considerar os
interesses do consumidor, que é quem paga efetivamente a conta. A começar pelo
total da potência, 19 gigawatts (GW), ou cerca de 10% de toda a capacidade
atual do sistema, um exagero que pode ter sido um dos principais motivos da
fraca competição. Apesar de cem projetos terem saído vencedores, referem-se às
mesmas térmicas em diferentes anos. O desconto ao preço-teto estipulado pelo
governo não chegou a 6%.
A Abrace Energia, associação que representa
mais de 50 grupos empresariais grandes consumidores, o União pela Energia,
movimento de setores industriais, e a Frente Nacional dos Consumidores de
Energia estimaram em 10% o impacto do resultado do leilão nas contas de luz.
Num momento em que a própria Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prevê
reajuste médio de 8% nas tarifas em todo o País este ano, praticamente o dobro
da projeção de inflação esperada, a estimativa de repasse do leilão é mais um
tranco para o consumidor.
Como política preventiva e de contenção de danos, o leilão decerto traz algum alívio, mas não representou um sucesso para os usuários de energia. Por outro lado, para usinas termoelétricas que tiveram contratos alongados a um preço bastante vantajoso, foi um bom negócio.
Os compromissos da Suprema Corte
Por Correio Braziliense
São bem-vindas iniciativas que reforcem a
imagem do Supremo Tribunal Federal como balizador da sociedade, freio
institucional às contradições e abusos reinantes na vida nacional — e no
próprio sistema de Justiça
Uma instituição da relevância e da
complexidade do Supremo Tribunal Federal não pode ser vista como um bloco
monolítico. Em Brasília, é conhecida a anedota de que existem 11 Supremos, tal
a diversidade de pensamento e autonomia dos ministros integrantes da Corte.
Feita essa consideração, convém ressaltar a importância de algumas decisões
monocráticas, pois sinalizam pontos positivos no STF em meio à atual onda de
críticas que atinge a mais alta instância da Justiça brasileira.
Um exemplo dos bons sinais provenientes do
Supremo reside na decisão do ministro Flávio Dino de determinar a perda de
cargo para integrantes de tribunais em conduta incompatível com a magistratura.
O caso julgado refere-se a um juiz estadual de Mangaratiba (RJ). Após constatar
que o magistrado favorecia policiais militares e retinha indevidamente
processos na vara local, o Conselho Nacional de Justiça aplicou a pena de
aposentadoria compulsória ao integrante da magistratura fluminense.
Flávio Dino anulou a decisão do CNJ por
entender que a reforma da Previdência, aprovada em 2019, extinguiu o instituto
de aposentadoria compulsória como sanção administrativa. No caso específico,
entendeu Dino, infrações graves cometidas por juízes devem ser punidas com
perda do cargo.
A aplicação de sanções mais rigorosas a
magistrados com condutas criminosas se junta a outras decisões proferidas pelos
ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes. Ambos impuseram limites à devassidão das
verbas indenizatórias, os conhecidos "penduricalhos", que permitem a
integrantes dos Três Poderes, particularmente no Judiciário e no Ministério
Público acumularem vencimentos dezenas de vezes acima do teto constitucional.
Esse tema, muito controverso na classe jurídica, será julgado pelo plenário do
Supremo na próxima quarta-feira.
São bem-vindas iniciativas que reforcem a
imagem do Supremo Tribunal Federal como balizador da sociedade, freio institucional
às contradições e abusos reinantes na vida nacional — e no próprio sistema de
Justiça. Antes de tudo, juízes têm a obrigação de mostrar princípios que regem
a magistratura: conduta ilibada e notável saber jurídico. Trata-se de um
imperativo no momento em que, por vontade própria, decidiram seguir carreira em
um tribunal. É preciso ser honesto. Sem meios-termos, sem aparências.
Nesse sentido, declarações recentes de outro ministro do STF, André Mendonça, refletem a expectativa da coletividade: "Ao final e ao cabo, somos servidores públicos e, como tal, devemos preservar a relação de confiança que a sociedade e o cidadão depositam em nós". Em meio à profunda crise de credibilidade que enfrenta, urge o Supremo Tribunal Federal afastar qualquer dúvida sobre o compromisso inarredável com esses valores. Espera-se, pois, que o Código de Ética defendido pelo presidente e ministro Edson Fachin seja um divisor de águas e não apenas uma carta de intenções.
Boas-vindas à nova provedora
Por O Povo (CE)
Em toda a história de 165 anos da Santa Casa
da Misericórdia de Fortaleza, é a primeira vez que uma mulher ocupa o cargo da
Provedoria. Na semana que passou, na manhã do dia 19, Dia de São José,
padroeiro do Ceará, a empresária Magda Busgaib foi empossada na gestão em uma
celebração considerada histórica para a instituição.
A nova provedora foi eleita para atuar no
cargo durante o triênio 2026-2029, substituindo o professor Vladimir Spinelli
Chagas, que esteve à frente da irmandade de março de 2023 a março deste ano. O
professor Vladimir, a propósito, contribuiu enormemente para os serviços da
Santa Casa, redefinindo prioridades, buscando incessantemente soluções de
melhoria para os trabalhos e o melhor serviço aos pacientes e cooperando, com
sua vasta experiência, para um modelo de gestão inovador.
Sob sua gestão, a Prefeitura de Fortaleza deu
início à intervenção administrativa no local, contando com a sua dedicação e
competência para lidar com a desconfortável situação de dívidas acumuladas e
alguns serviços indisponíveis à população.
Ao longo de sua administração, foi mantida a
articulação política com os governos além de realizadas atividades de
treinamento, recuperação de equipamentos, reformas e apoios e convênios com
universidades e outras instituições de ciência e tecnologia. A situação
econômico-financeira, com o subsídio de emendas parlamentares, foi sendo
contornada por meio de um cuidadoso planejamento estratégico. É preciso, pois,
reconhecer todo o trabalho desenvolvido pelo professor Vladimir, responsável
pela liderança diante de um espinhoso trabalho de lidar, por um lado, com
déficit financeiro constante e, por outro, com a delicada situação de cuidar de
pacientes que necessitam de atenção com a saúde.
Magda, a propósito, assume a Provedoria da
Irmandade Beneficente Santa Casa de Fortaleza, complexo que inclui, além da
unidade de saúde, o Cemitério São João Batista e o Hospital Psiquiátrico São
Vicente de Paulo.
Segundo ela, o Cemitério deve receber mais
atenção no primeiro ano de seu mandato, pois será necessária uma
reestruturação, abrangendo obras estruturais e melhorias administrativas. Além
disso, ela enfatizará seu trabalho na conclusão da reestruturação do Hospital
São Vicente de Paulo, sem se esquecer do foco na filantropia da Santa Casa.
Desejam-se bons trabalhos à nova provedora da Santa Casa, reconhecidamente uma mulher que tem destacado suas ações em causas sociais. O POVO, que sempre respeitou e apoiou a instituição que presta serviços de saúde extremamente relevantes à população, coloca-se, mais uma vez, do lado da Provedoria a fim de contribuir para preservar as atividades da Santa Casa, honrando os profissionais que lá trabalham, os gestores e a população, que tanto precisa de atenção à saúde.

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