Sucessor de Castro deveria ser escolhido em eleição direta
Por O Globo
Juristas afirmam que manobra de renunciar
antes da cassação pelo TSE torna inadequada escolha pela Alerj
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que tornou inelegível o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) trouxe incerteza sobre a escolha do novo chefe do Executivo. Temendo a cassação, Castro renunciou ao cargo na véspera do julgamento. Em caso de renúncia, a Constituição estadual determina que o governador interino — o desembargador Ricardo Couto — convoque eleição indireta para os deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) escolherem o novo ocupante do Palácio Guanabara. Mas, diante da evidente manobra de Castro, renunciando ao cargo para evitar a cassação, juristas ouvidos pelo GLOBO afirmaram que a eleição deveria ser direta, já que essa é a regra quando um governador é deposto antes de seis meses do fim do mandato. O TSE, porém, reafirmou ontem a decisão pela eleição indireta.
O pleito direto beneficiaria a população, e
não quem tentou burlar as regras. “A crise na Alerj compromete a capacidade de
ela promover uma eleição indireta com a necessária legitimidade democrática”,
diz o jurista Álvaro Palma de Jorge, da FGV. “Para reforçar a legitimidade, o
mais adequado é consultar o povo, por meio de eleição direta.”
É preciso considerar que Castro se aproveitou
de brechas da legislação para tentar escapar de punições mais severas. Sua
intenção era concorrer ao Senado, mas o roteiro não saiu como planejado. A
maioria da Corte entendeu que a manobra de renúncia não afasta a inelegibilidade
até 2030 (oito anos contados a partir de 2022). Como já não estava mais no
cargo, o tribunal não analisou a cassação, referendando a eleição indireta. Se
Castro tivesse ficado no cargo e sido cassado, como era provável, ela teria de
ser direta.
O PSD argumentou que a renúncia de Castro era
tentativa de “fraude” e pediu que Couto consultasse o TSE antes de marcar a
eleição indireta. O partido é interessado, pois o ex-prefeito Eduardo Paes se
declarou candidato ao governo — não importa; caberia ao TSE decidir. Couto fez
a consulta. No início da noite, o TSE reafirmou que ele deveria convocar a
eleição indireta. Na História, manobras parecidas foram repudiadas pelas
instituições. Em 1992, o então presidente Fernando Collor renunciou na
tentativa de escapar do impeachment. Não adiantou. O Supremo manteve a
condenação, Collor perdeu o cargo e ficou oito anos inelegível.
Castro foi condenado por abuso de poder
político e econômico. O motivo foi o escândalo do Ceperj, contratação irregular
de milhares de funcionários para atuar como cabo eleitoral na campanha de 2022
(Castro nega e diz ter tomado providências assim que soube do caso). Com a
saída dele, deveria assumir o vice, Thiago Pampolha. Mas Pampolha passou a
ocupar uma vaga no Tribunal de Contas do Estado em maio passado. Como o
ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar estava afastado sob suspeita de vazar
informações da Polícia Federal para o Comando Vermelho, o presidente do
Tribunal de Justiça, Couto, assumiu interinamente.
A sequência de governadores declarados
inelegíveis, condenados ou presos convulsiona a política fluminense há anos.
Diante da incerteza, o melhor para o Rio seria a eleição direta. Os eleitores —
e não os deputados — deveriam escolher o futuro governador até o pleito regular
em outubro. O TSE entendeu que houve manobra espúria para burlar a legislação,
tanto que manteve a inelegibilidade. Por coerência, deveria ter determinado
eleição direta.
Lei Antifacção é passo imprescindível no
combate ao crime organizado
Por O Globo
Texto sancionado com vetos por Lula preserva
essência do projeto, mas, sozinha, lei não resolverá problema
Aprovado em fevereiro na Câmara, o Projeto de
Lei Antifacção foi sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva com vetos pontuais. Um deles à punição a indivíduos por praticar condutas
graves típicas de facções criminosas, mesmo quando não pertencem ao crime
organizado. Outro ponto barrado previa divisão entre União e estados das
receitas oriundas de valores ou bens apreendidos com criminosos.
Lula argumentou que o item incorria “em
inconstitucionalidade ao incluir outros entes da Federação como destinatários
de receita atualmente destinada, em caráter exclusivo, à União, sem apresentar
estimativa do impacto financeiro-orçamentário”. O crucial é que os vetos não
alteraram a essência do texto aprovado no Congresso, evitando novos atritos com
os parlamentares depois de uma costura política difícil. O Estado brasileiro
conta agora com novos instrumentos para enfrentar as organizações criminosas
que amedrontam a população.
A nova lei caracteriza como facção criminosa
um agrupamento de três ou mais pessoas que emprega violência,
ameaça ou coação para impor controle territorial ou social, intimidar a
população e autoridades ou atacar infraestrutura e serviços essenciais. As
penas para o crime de “domínio social estruturado”, considerado hediondo, vão
de 20 a 40 anos. O tempo de prisão pode ser aumentado quando o condenado
exercer comando ou liderança, recrutar crianças ou adolescentes, usar
tecnologias de criptografia, drones ou sistemas de vigilância.
A legislação permite ainda elevar a pena em
dois terços quando houver envolvimento de funcionário público. Aos condenados,
não há possibilidade de anistia, indulto ou fiança. Líderes, chefes e
integrantes de núcleos de comando passarão a cumprir obrigatoriamente a pena em
estabelecimento federal de segurança máxima. Para evitar que líderes presos
continuem comandando suas organizações detrás das grades, encontros no
parlatório ou por meio virtual poderão ser monitorados ou gravados. Para
facilitar o trabalho policial, a prática dos crimes previstos na nova lei passa
a ser suficiente para prisão preventiva.
A nova legislação é um passo imprescindível no combate a facções e milícias. A PEC da Segurança, recentemente aprovada pelo Congresso, também fornece elementos necessários para o Estado travar essa batalha. Mas é evidente que mudanças legislativas não darão conta, sozinhas, de resolver a questão. Elas devem ser acompanhadas de um plano nacional, coordenado pelo governo federal, para reocupar os territórios em poder das organizações criminosas e levar serviços públicos decentes a essas áreas. É preciso também combater a infiltração cada vez mais insidiosa do crime organizado nas instituições. Nada acontecerá se não houver empenho das lideranças, determinação e persistência.
ECA Digital tem boas intenções, mas eficácia
gera dúvidas
Por Folha de S. Paulo
Arcabouço que visa proteger jovens no mundo
digital acerta com controle parental e fim da rolagem infinita em telas
Agência com poder de interferir em decisões
relativas a conteúdos, porém, é passo em falso; isso cabe ao Judiciário
A sensação que se tem ao navegar na internet é
a de que se está no Velho Oeste, onde as leis até existem, mas segui-las ou não
torna-se uma decisão individual —ou empresarial, no caso de algumas big techs.
Tecnicamente, todas as normas legais do mundo
físico se aplicam ao ambiente digital. Mas é óbvio que, se o Estado já tem
dificuldades para fazer cumprir a lei no mundo físico, pena mais ainda para
fazê-lo na rede, que favorece o anonimato e coloca até delitos graves ao
alcance de um clique.
A precariedade da norma no mundo digital é
mais preocupante no caso de crianças e adolescentes, que tendem a ser usuários
intensivos de telas. Eles não têm autonomia, nem jurídica nem neurológica, para
tomar certas decisões e ainda são particularmente vulneráveis a abusos,
ao vício e
à publicidade pouco ética.
Acumulam-se evidências de que a imersão
excessiva na internet é prejudicial ao desenvolvimento e, em alguns casos, pode
ter um impacto devastador sobre a saúde mental e
física. Iniciativas para tornar o mundo digital um ambiente menos hostil são
necessárias. É nesse contexto que entrou em vigor o ECA Digital.
O novo
arcabouço traz medidas de bom senso, como exigir uma
verificação de idade um pouco mais robusta do que a autodeclaração para acessar
certos sites.
Na mesma linha estão os dispositivos que
visam ampliar as possibilidades de controle parental e os que procuram inibir a
utilização, pelas plataformas de redes sociais,
de artifícios
como a rolagem infinita ou a distribuição de recompensas com o
claro intuito de sequestrar a atenção do jovem pelo maior tempo possível.
Os legisladores, porém, se aventuraram e
acabaram tomando algumas más decisões. Reconheça-se que a tarefa a que se
propuseram, pela complexidade jurídica e técnica, tem algo de hercúlea.
Proteger completamente os menores de riscos
levaria ao banimento de discursos legítimos, e proteger totalmente a liberdade
de criadores acabaria expondo-os a conteúdos que seus tutores podem considerar
inadequados.
Entre os passos em falso, destaca-se o
reforço da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), com competência para
regulamentar e fiscalizar tudo o que diga respeito a menores e o ambiente
digital, incluindo decisões sobre quais conteúdos são ou não legítimos e a
aplicação de multas que
podem chegar a exorbitantes R$ 50 milhões.
Cabe ao Judiciário e não a outros Poderes
arbitrar dúvidas relativas aos limites de direitos fundamentais. Na mesma
seara, parece temerária a obrigação de remoção de conteúdo antes de haver uma
decisão judicial.
Diante do risco de multa, advogados das empresas
terão a última palavra e tenderão a remover o que pareça levemente
problemático. É claro que tudo isso ainda é novo e carece de regulações.
Resta observar como o novo regramento se sai
no teste do
tempo, com os ajustes de legislação que se façam necessários.
Rio à deriva
Por Folha de S. Paulo
Últimos 30 anos foram marcados por
governadores envolvidos em escândalos de corrupção, prisões e impeachment
Agora, com a renúncia e inelegibilidade de
Cláudio Castro (PL), cabe a um magistrado governar interinamente
Lá se vão quase três décadas que o Rio de
Janeiro foi tragado por uma sucessão ininterrupta de
governadores envolvidos numa miríade de escândalos de corrupção, lavagem de
dinheiro e organizações criminosas, a provocar condenações, prisões, impeachment e,
agora, renúncia e inelegibilidade.
O mais recente capítulo desta penúria
institucional que assola o Palácio Guanabara atende pelo nome de Cláudio
Castro (PL).
O agora ex-governador decidiu
renunciar ao cargo na segunda (23), véspera da retomada do seu
julgamento no Tribunal Superior Eleitoral. A manobra, a fim de evitar a
cassação, não impediu que ele fosse
declarado inelegível até 2030 —ainda cabe recurso.
Castro foi acusado de montar um esquema para
criar 27 mil cargos fantasmas e alocar apadrinhados às vésperas da campanha de
2022, driblando regras administrativas e eleitorais no que ficou conhecido como
o caso das
folhas de pagamento secretas.
Em nota, o ex-governador diz que recebeu a
decisão com "grande inconformismo". "Saio de cabeça
erguida", disse na despedida, sem falar com a imprensa.
O TSE também
condenou o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo
Bacellar, que já estava afastado, e o ex-vice-governador Thiago
Pampolha. Bacellar perde o
mandato; Pampolha já havia renunciado para assumir uma vaga no
Tribunal de Contas.
Sendo assim, a função sobrou, de forma
interina, para o presidente do
Tribunal de Justiça, Ricardo Couto de Castro. Oportunamente, ele
declarou que "não está preparado". Caberá ao magistrado governar até
que a Alerj realize eleição para um mandato-tampão até o final do ano.
A trajetória vertiginosa de instabilidade
inicia-se com o casal Garotinho (1999-2006): Anthony, primeiro, e Rosinha,
depois, chegaram a ser presos e investigados por, entre outros, delitos
eleitorais e organização criminosa.
Já Sérgio Cabral (2007-14),
alvo da Lava Jato, ficou encarcerado por mais de seis anos acusado de corrupção
e lavagem de dinheiro; Luiz Fernando
Pezão (2015-18), preso ainda no mandato, foi condenado a 98
anos por corrupção, mas a decisão foi anulada.
Por fim, Wilson Witzel (2019-20)
sofreu impeachment após acusações de contratos ilícitos relativos à pandemia
—Castro estava no posto desde então.
O segundo estado mais rico da nação parece enredado em clientelismo, corrupção sistêmica e infiltrações do crime organizado nas esferas de poder. A chance de os fluminenses começarem a escapar dessa teia, ao menos, está próxima: as eleições de outubro.
A reputação de Dias Toffoli
Por O Estado de S. Paulo
Repasse da J&F à holding que adquiriu
cotas de Toffoli em resort e o histórico de decisões do ministro em favor dos
irmãos Batista corroem de vez sua credibilidade perante a sociedade
Nunca é demais lembrar que a autoridade de um
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) decorre de sua investidura formal no
cargo, mas a confiança dos jurisdicionados na toga é conquistada pela decência
de quem a veste. Sem lastro moral, decisões juridicamente corretas podem ser
percebidas como suspeitas. É nesse sentido que uma milionária transação
financeira, revelada pelo Estadão,
atinge em cheio a aura de imparcialidade do ministro Dias Toffoli como
integrante da mais alta Corte do País.
Um relatório do Conselho de Controle de
Atividades Financeiras (Coaf), obtido com exclusividade por este jornal,
apontou uma transferência de R$ 25,9 milhões da J&F, empresa dos irmãos
Joesley e Wesley Batista, para a PHB Holding, do advogado Paulo Humberto
Barbosa. Esta, por sua vez, comprou cotas do resort Tayayá pertencentes à
Maridt, empresa da família Dias Toffoli da qual o ministro do STF já admitiu
ser sócio oculto.
Em resposta ao Estadão, todas as empresas
envolvidas no negócio negaram irregularidades. Por ora, não há prova de
ilicitude alguma nessa operação financeira. Não obstante, a classificação da
movimentação como “atípica” pelo órgão de inteligência financeira, sua
arquitetura e o liame temporal com decisões tomadas pelo ministro em favor da
J&F suscitam dúvidas legítimas da sociedade no que concerne à sua lisura.
A cronologia dos fatos é desconfortável para
Dias Toffoli. Em dezembro de 2023, em decisão monocrática, o ministro suspendeu
o pagamento de uma multa de R$ 10,3 bilhões imposta à J&F como
contrapartida do acordo de leniência firmado entre a empresa e o Ministério
Público Federal no âmbito da Lava Jato. Cerca de dois anos após livrar os
irmãos Batista dessa pesada sanção, imposta em razão de uma pletora de crimes
que eles mesmos confessaram ter cometido, Dias Toffoli recebeu milhões de reais
de uma obscura holding pertencente a um advogado com histórico de prestação de
serviços à J&F. Não se pode condenar quem suspeite que essa intermediação
tenha se prestado a uma espécie de compensação.
As explicações apresentadas pelo gabinete de
Dias Toffoli, pela PHB Holding e pela J&F não dissipam essa dúvida. A
alegação da J&F de que os valores foram transferidos à PHB Holding a título
de pagamento de honorários advocatícios – por que a uma holding, e não ao
escritório de advocacia? – suscita indagações adicionais sobre a forma e o
objetivo real da operação. Da mesma maneira, o fato de a J&F afirmar “não
ser sócia” do Tayayá tampouco elimina a justa percepção da sociedade de que os
fatos – o alívio bilionário concedido à empresa e a compra das cotas da Maridt
no Tayayá – se entrelaçam. Não surpreende que Dias Toffoli seja o ministro
menos confiável do STF na opinião de 81% dos entrevistados em pesquisa
AtlasIntel/Estadão.
Indicado ao Supremo pelo presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, em 2009, após ter sido advogado do PT, Dias Toffoli
sabidamente não preenchia o requisito constitucional do “notável saber
jurídico”. Afinal, foi reprovado não uma, mas duas vezes no concurso para a
magistratura. O Senado, ao aprovar seu nome em sabatina, tem inequívoca
responsabilidade política por essa péssima escolha para a Corte.
Há algum tempo, porém, a presença de Dias
Toffoli no STF não é maculada apenas pela baixa qualificação técnica do
ministro, mas também pela aparente falta de “reputação ilibada”. Mais do que um
requisito constitucional para ingresso na Corte, trata-se da observância de um
de comportamento irrepreensível, compatível com a dignidade e a relevância do
cargo. À luz dos fatos recentes – que, além dessa transação financeira
envolvendo a J&F, incluem a proximidade de Dias Toffoli com o caso Master
–, a reputação do ministro está indelevelmente desgastada.
Este jornal não atribui ao ministro Dias
Toffoli a prática de qualquer crime. A presunção de inocência é garantia
constitucional elementar num Estado Democrático de Direito. Mas não é preciso
ir tão longe para reconhecer que sua reputação está em frangalhos. Suas
conexões insofismáveis com pessoas e negócios suspeitos falam por si sós. A
palavra de um juiz, para ser digna de confiança, precisa ser respaldada por uma
biografia imaculada – o que, como resta evidente, não é o caso.
A inesperada resiliência do comércio global
Por O Estado de S. Paulo
Enquanto a política se agita entre barreiras
e guerras comerciais, a economia se adapta, redireciona fluxos e cria novos
vínculos. O arbítrio dos demagogos é forte, mas o livre-comércio é mais
Em entrevista ao Estadão, a diretora-geral da
Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, advertiu que o
sistema internacional de comércio enfrenta as maiores disrupções em 80 anos.
Tarifas unilaterais, rivalidades geopolíticas e políticas industriais
agressivas parecem anunciar o desmonte da ordem econômica construída no
pós-guerra. Se dependesse da atmosfera política atual, seria fácil concluir que
a globalização entrou em estado terminal. A realidade, porém, é mais complexa.
O comércio internacional, é verdade, voltou a
ser instrumentalizado na competição estratégica entre potências. Os EUA
recorrem cada vez mais a tarifas e barreiras comerciais; a China turbina
setores industriais com generosos subsídios estatais; a União Europeia ampliou
políticas industriais. Em diferentes graus e por razões distintas, as
principais economias do mundo vêm tensionando as regras que ajudaram a criar –
como proprietários que desconfiam da solidez da casa que eles próprios
construíram.
E, no entanto, apesar de todo o ruído
político, o comércio global segue funcionando com surpreendente normalidade.
Mais de 70% das transações internacionais ainda operam sob as regras da OMC. As
cadeias globais continuam integrando fábricas, fornecedores e mercados em
diversos continentes. Empresas organizam sua produção em escala internacional e
governos negociam novos acordos – muitas vezes em formatos regionais ou
plurilaterais. A globalização, longe de desaparecer, passa por um processo de
reorganização: mais cautelosa, mais politizada, mas ainda profundamente
estruturante para a economia mundial. Quando barreiras surgem em um ponto do
sistema, fluxos comerciais frequentemente encontram outros caminhos. Só em
2026, Índia e Mercosul celebraram com a Europa acordos massivos de
livre-comércio e empresários nos EUA lograram desbaratar o arsenal tarifário de
Donald Trump na Justiça.
Essa resiliência tem razões sistêmicas.
Décadas de integração produtiva criaram uma rede de interdependências difícil
de desmantelar sem custos elevados. Um automóvel montado na América do Norte
pode depender de semicondutores asiáticos, software europeu e minerais
africanos. Para milhares de multinacionais, desfazer essas cadeias significaria
abrir mão de eficiência, escala e acesso a mercados. Fornecedores, consumidores
e governos dos cinco continentes seguem dependentes dos ganhos de produtividade
proporcionados por mercados abertos e competitivos.
O risco, portanto, não é o desaparecimento
desse sistema, mas sua fragmentação. Disputas geopolíticas, combinadas ao
emprego populista de políticas industriais e barreiras comerciais, podem forçar
uma lógica de blocos rivais, degradando a previsibilidade que sustentou a
expansão do comércio nas últimas décadas.
Nesse cenário, a OMC – ainda que muito mais
limitada do que no auge da globalização pós-guerra fria – continua relevante.
Não porque tenha resolvido seus impasses, mas porque o mundo ainda não
encontrou nada melhor para substituí-la. Mesmo debilitada por bloqueios e
sabotagens, suas regras e mecanismos de resolução de disputas seguem sendo a
principal infraestrutura institucional do comércio, reduzindo riscos de
conflitos descontrolados e funcionando como amortecedor contra a lei do mais
forte.
Preservar esse sistema exigirá adaptação. A
própria Okonjo-Iweala defende reformas que tornem a OMC mais ágil, ampliem o
uso de acordos plurilaterais e atualizem regras para novas áreas da economia
digital. Ao mesmo tempo, economias emergentes, como a Índia, pressionam por um
equilíbrio que permita conciliar integração comercial e desenvolvimento
industrial.
O comércio internacional atravessa, sem
dúvida, uma fase turbulenta, mas é mais resistente do que muitos supõem.
Governos podem tentar controlar seus fluxos, mas raramente conseguem ignorar por
muito tempo as convergências de interesses que os impulsionam. Mais cautelosa
do que há duas décadas, a globalização talvez tenha perdido parte do entusiasmo
político que a acompanhou no passado, mas continua sendo a engrenagem
silenciosa que mantém a economia mundial em movimento.
Guerra dita a política monetária
Por O Estado de S. Paulo
Banco Central enfatiza que impacto do
conflito no Oriente Médio irá definir ciclo de juros
Por seis vezes a ata da reunião de março do
Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) fez referência
direta aos conflitos no Oriente Médio para amparar as decisões da política
monetária, que cortou em apenas 0,25 ponto porcentual (p.p.) a taxa básica de
juros, agora em 14,75% ao ano. Em razão das incertezas da guerra travada entre
Estados Unidos e Israel contra o Irã, optou também por não dar qualquer
indicação sobre a duração e intensidade do ciclo de queda de juros, à espera
dos desdobramentos geopolíticos.
O Copom não poderia ser mais claro: explicou
que as expectativas de inflação, que vinham declinando, subiram após o início
do conflito e permanecem acima da meta de inflação “em todos os horizontes”.
Mais uma vez, enfatizou sua função de trazer a inflação para o centro da meta
(3% ao ano, como determinou o Conselho Monetário Nacional) e sublinhou que a
calibração dos juros dependerá de novas informações vindas do front, que
atingem em cheio países emergentes, como o Brasil.
Enquanto o BC se mantém firme no propósito de
não agir sob pressão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preocupado com
suas chances de reeleição, se queixou de que só “por causa da guerra” o BC
deixou de baixar mais os juros – como se o caos provocado pelo conflito,
afetando o preço dos combustíveis e de diversas etapas das cadeias produtivas
que dependem deles, não tivesse nenhuma repercussão no Brasil.
Como sabem todos aqueles que se informam, a
guerra no Oriente Médio tem afetado a ordem econômica em todo o planeta, e o
Brasil não tem como passar incólume aos reveses de um conflito que atinge o
centro produtor de petróleo mundial. Ao contrário do discurso lulopetista, o
País não é autossuficiente em combustíveis. Importa 25% do diesel e 10% da
gasolina que consome. Não há como “abrasileirar” preços dos combustíveis, como
desejam Lula e os petistas desde sempre, diante da necessidade de importação e
da enorme volatilidade dos preços externos.
O posicionamento do Copom foi bastante
previsível – e num momento tão turbulento e indefinido, previsibilidade e
cautela trazem alguma segurança. Mesmo assim, o imponderável da guerra se
refletiu no mercado e produziu análises distintas do recado do Copom. Houve
quem identificasse evidências de que a porta está aberta para um corte de 0,5 p.p.
em abril; quem visse na abordagem que o BC irá manter a queda suave, de 0,25
p.p.; quem preferisse se ater ao médio prazo, com 12% ao final do ano, ou mesmo
quem não veja compromisso com novos cortes, para citar apenas algumas análises
divulgadas pelo Broadcast/Estadão.
Mais do que nunca, cabe ao Executivo atender ao apelo do Banco Central para manter a inflação sob controle, reduzindo gastos e evitando o incentivo ao consumo. Manter prudência justamente para permitir a continuidade de um ciclo seguro de queda de juros não é pedir muito. É apenas o básico.
Petróleo ajuda governo a atingir o piso da
meta fiscal
Por Valor Econômico
Mas o verdadeiro resultado, se consideradas
as despesas abatidas do limite (R$ 63,35 bilhões), será um déficit pelo menos
desta ordem
O governo Lula termina seu último ano da
mesma forma que no primeiro: sem ter conseguido nenhum resultado positivo anual
nas contas públicas. O Relatório de Avaliação de Despesas e Receitas primárias
do primeiro bimestre confirma essa percepção, ao reduzir o superávit primário
da meta, de R$ 34,9 bilhões (0,25% do PIB), para R$ 3,5 bilhões, contando com o
piso da banda fiscal (déficit zero). Ao contrário do ano passado, não houve
nenhum contingenciamento ou bloqueio de verbas significativo. O bloqueio anunciado
foi de R$ 1,6 bilhão, para cumprir o limite de despesas, excedido em R$ 2,57
bilhões no período. O verdadeiro resultado, se consideradas as despesas
abatidas do limite (R$ 63,35 bilhões), será um déficit pelo menos desta ordem.
O Prisma Fiscal, com projeções de consultorias privadas, prevê um rombo de R$
65,9 bilhões.
As estimativas de receitas totais estão
caindo na primeira avaliação, enquanto a de despesas primárias estão em alta.
As receitas líquidas de transferências devem cair R$ 13,7 bilhões. As despesas
crescerão R$ 23,3 bilhões e pularão de 18,9% do PIB para 19,4% do PIB no ano. A
arrecadação administrada pela Receita Federal poderá encolher R$ 8,56 bilhões.
A arrecadação do Regime Geral de Previdência Social cairá R$ 7,86 bilhões. A
Previdência, a maior despesa do orçamento, terá um rombo projetado até agora de
R$ 9,45 bilhões maior do que o previsto na lei orçamentária, de R$ 338,6
bilhões.
Após a dedução permitida dos precatórios (R$
57,8 bilhões), dos gastos com defesa (R$ 2,5 bilhões) e das despesas com
educação e saúde financiadas pelo Fundo Social (R$ 3 bilhões), o déficit fiscal
previsto será de R$ 31,4 bilhões.
O que deverá permitir com que o governo
federal consiga, em princípio, fechar as contas públicas no piso com mais
conforto é, em grande parte, a disparada dos preços do petróleo. Uma revisão
bastante parcial, feita agora, permitiu um acréscimo de receitas de R$ 16,7
bilhões, valor que poderá ser bem maior. A estimativa que constava na Lei
Orçamentária era de preço médio do barril a US$ 59,25, com um dólar médio de R$
5,77. Agora, esses valores foram alterados para US$ 78,71 e R$ 5,32,
respectivamente, o que elevará essas receitas não administradas em 22,48%.
O governo, para evitar a disparada dos preços
do diesel importado, determinou no início do mês a isenção do PIS-Cofins do
combustível e uma subvenção de até R$ 10 bilhões, com um gasto total estimado
em R$ 16,8 bilhões e criou um imposto de exportação para cobrir estas despesas.
Na revisão bimestral, há a primeira estimativa de arrecadação com o novo
imposto: R$ 15,6 bilhões. Esta meta, porém, pode ser ultrapassada, porque a
produção está crescendo, as exportações de petróleo estão aumentando e os
preços estão há alguns dias estacionados ao redor de US$ 100 o barril.
Poderá haver frustração de receitas caso não
se realizem algumas das premissas macroeconômicas que basearam a Lei
Orçamentária Anual (LOA). A previsão do PIB do ano já recuou de 2,44% para
2,33%, mas ainda está razoavelmente acima da esperada pelos analistas privados
(boletim Focus), de 1,84%. Diante da ameaça inflacionária trazida pela guerra
no Oriente Médio, a inflação estimada, de 3,7%, deve ser superada (4,17% no
Focus), nesse caso em benefício da arrecadação. A projeção para o comportamento
da massa salarial nominal foi reduzida de 10,5% para 10,32%. A taxa de juros
média foi ajustada de 13,11% para 13,53%.
O governo Lula pretende evitar dissabores
eleitorais com a alta dos preços do petróleo e, além de corte de impostos e
subsídios, fez uma ofensiva junto aos governadores para dividirem um novo subsídio
ao diesel. Ontem assinou uma Medida Provisória (MP) destinando R$ 15 bilhões
para continuar oferecendo capital de giro e financiamentos para inovação e
aumento da produção às empresas atingidas pelas tarifas impostas por Donald
Trump e, agora, pelo conflito no Oriente Médio. Esse é um dinheiro que sobrou
do primeiro plano “Brasil Soberano” e será reutilizado.
Ao abrir a bolsa de bondades, o governo
poderá ser tentado a ceder à fila de pedidos de corte de impostos para
fertilizantes, fretes, alimentos e outros setores afetados, caso a guerra
continue por mais tempo. O governo não tem recursos para isso, pois, além de
rever a receita com petróleo já incluiu também a expectativa de arrecadação com
o leilão para alienação de direitos e obrigações da PPSA, a estatal que recebe
o pagamento em petróleo dos contratos de partilha, entre outros. Estima-se que
ele possa render R$ 31 bilhões.
Os recursos que o governo não usa para obter superávits fiscais, mas para aumentar despesas, têm custo adicional nas taxas de juros elevadas que o maior tomador de empréstimos, o Estado, paga. A crise já levou o Banco Central a reduzir o corte esperado da Selic e os próximos ajustes dependerão muito do tumultuado cenário externo. A essa altura, é temporada eleitoral para o governo. Em 2010, os gastos públicos sob Lula cresceram 22% (o IPCA foi 5,91%), o PIB foi recorde do século, 7,5%, e sua candidata Dilma Rousseff foi eleita pela primeira vez. O presidente tem hoje margem de manobra muito menor, mas o histórico mostra que muitas vezes se busca um modo de esticar as despesas em fim de governo. Não deveria.
Venda de remédios por supermercados não tem
só lado bom
Por Correio Braziliense
Há perigoso hiato na fiscalização. Em
municípios menores, dependentes do comércio local — com giro financeiro
limitado e precariedade de investimentos —, a firmeza em fiscalizar tem tudo
para desaparecer
A entrada em vigor da lei que permite a venda
de medicamentos em supermercados (Lei 15.357) inegavelmente representa uma
vantagem para o consumidor, que tende a se beneficiar da competição pelos
melhores preços entre as redes, de mais opções e da possibilidade de grandes
grupos atacadistas, que atuavam nos dois setores, reduzirem custos operacionais
ao juntarem as duas pontas em uma única instalação. Mas há um outro lado que
requer atenção das autoridades e de entidades setoriais — negligenciá-lo é
tornar uma iniciativa importante em janela para balbúrdia.
Pela lei, que segue princípios semelhantes
aos das drugstores norte-americanas, as redes supermercadistas terão de erguer
um ambiente à parte para poderem operar com medicamentos. Ou seja, seguirão as
mesmas regras sanitárias de uma drogaria tradicional. Os remédios não poderão
ser expostos junto a alimentos ou a outros produtos, e a presença de
farmacêutico, para a orientação da clientela, continua obrigatória.
Além disso, a regra dos medicamentos
controlados não mudou: mesmo nos supermercados, exigirão apresentação de
receita, que ficará retida, tal como é hoje nas farmácias. E os remédios só
poderão ser entregues depois do pagamento.
Tais restrições, a princípio, seriam
suficientes para que não houvesse desvios e distorções. Porém, especialistas
farmacêuticos e do ramo supermercadista não enxergam assim. Ameaças pairam
sobre uma boa iniciativa.
Uma das mais contundentes advertências vem do
Conselho Federal de Farmácia. Segundo o CFF, a lógica comercial não pode se
sobrepor à preocupação com a saúde, nem pressionar a autonomia técnica do setor
instalado junto ao supermercado. E outra: a fiscalização tem de ser reforçada
para que as restrições sanitárias não afrouxem — o acondicionamento de remédios
não pode ser rebaixado ao cuidado devido às latas de salsicha. Isso, claro,
exige formação e presença de mais profissionais.
E é aqui, na fiscalização, que surge perigoso
hiato. Nos grandes centros urbanos e nas redes de pesada participação no setor
supermercadista, a atuação da vigilância sanitária é constante, visível e
geralmente rigorosa. O problema está no contrário disso. Nos municípios
menores, dependentes do comércio local — com giro financeiro limitado e precariedade
de investimentos —, essa firmeza tem tudo para desaparecer. Nesses casos, a
população torna-se refém da lógica comercial predatória, como adverte o CFF.
Outra preocupação de especialistas é o ambiente
de "hiperconsumo", sobretudo nas grandes cidades. Característica dos
supermercados, um produto leva a outro; há o estímulo pela busca, sobretudo de
ofertas. Teme-se que, com medicamentos, aconteça algo semelhante: incentivo à
compra impulsiva de um produto que deve ser obtido racionalmente.
Tudo isso posto, faz-se a pergunta óbvia e inevitável: o Estado pesou tais dificuldades ou prevaleceu a regra eleitoreira de enfatizar as virtudes da lei, desprezando os problemas que vêm com ela?
A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro
Por O Povo (CE)
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
Tribunal Federal (STF), agiu corretamente ao conceder direito de prisão
domiciliar ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos e 3
meses por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático
de Direito, organização criminosa armada e incitação aos atos de 8 de janeiro
de 2023. As condições estão dadas para o tratamento diferenciado que lhe acaba
de ser garantido.
Jair Bolsonaro, que está preso desde 4 de
agosto de 2025, apresenta, de fato, um quadro de saúde delicado, atestado pela
equipe de médicos que o acompanhou numa crise grave de broncopneumonia. Não há
porque duvidar do diagnóstico que estes profissionais apresentaram,
convencendo, inicialmente, o Procurador Geral da República, Paulo Gonet, cujo
parecer encaminhado ao ministro do STF foi no sentido de recomendar a
transferência do ex-presidente para sua residência, onde passa a cumprir
temporariamente sua pena, pelo acolhimento do pedido também no âmbito do STF.
Alexandre de Moraes acerta, ainda, quando
impõe regras claras ao condenado para que ele tenha direito à condição especial
que passa a usufruir. Primeiro, determinando a prisão domiciliar por um período
inicial de 90 dias, ao fim do qual se fará uma nova avaliação do cenário para
entender se faz sentido que permaneça na domiciliar ou se é o caso de
reencaminhá-lo à cela, no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal,
a chamada "Papudinha".
Para o período foram estabelecidas, na
decisão do ministro, condições a serem cumpridas para que o benefício se
mantenha. Uma medida necessária, evitando que a própria saúde do preso seja
prejudicada por ações alheias ao esforço, que precisa ser prioritário nesse
momento, de recuperação plena das suas condições pessoais de saúde. As
restrições impostas parecem justificadas, inclusive como forma de evitar que o
movimento em torno dele acabe por expô-lo indevidamente numa hora em que
precisa se proteger dos riscos mundanos.
Ademais, é preciso não perder de vista que os
crimes imputados a Bolsonaro são graves, dizem respeito a atos que colocaram em
risco a democracia brasileira. Esta mesmo que, defendida por várias instâncias
da sociedade quando ameaçada lá atrás, com papel fundamental do Supremo e do
ministro que o condenou, abre a possibilidade de um filho seu, o senador Flávio
Bolsonaro, disputar a presidência da República com chances reais de sair
vitorioso. É o que dizem as pesquisas.
Era fundamental condenar quem ajudou a colocar a institucionalidade em risco no período histórico conturbado da passagem de poder no País entre 2022 e 2023, feita a investigação com o rigor exigido, agora se espera que a pena seja cumprida na plenitude. Claro que respeitando-se as condições humanas e sem hesitar na garantia ao condenado de todos os direitos que a lei lhe assegura. Máxima que vale para qualquer cidadão que esteja hoje entregue ao sistema penal brasileiro, espera-se, e que não pode ser negado a alguém pelo sobrenome ou a posição política.

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