STF tem de examinar situação política insólita do Rio
Por O Globo
Sucessão estadual desperta questionamentos
que exigem ação urgente da Corte superior
O Rio de Janeiro vive uma situação insólita que cria enorme insegurança jurídica na escolha do novo governador para concluir o mandato deixado vago por Cláudio Castro (PL). Castro renunciou na última segunda-feira, numa tentativa fracassada de evitar sua inelegibilidade (ele quer concorrer ao Senado). Não adiantou, pois mesmo assim o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o declarou inelegível no dia seguinte. A sucessão de manobras e questionamentos que se seguiram a sua renúncia exige agora que o Supremo Tribunal Federal (STF) se debruce com urgência sobre a turbulência política que tomou conta do estado. Nada do que tem acontecido faz bem ao Rio, muito menos ao Brasil.
A situação, já confusa, ganhou contornos
esdrúxulos nesta quinta-feira, com a eleição-relâmpago do deputado Douglas Ruas
(PL) para presidir a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Partidos de oposição recorreram à Justiça, que determinou a anulação da sessão.
Pelo regimento, o presidente em exercício, Guilherme Delaroli (PL), deveria ter
convocado a eleição para a presidência ao menos 48 horas depois que o cargo
houvesse sido declarado vago pelo TSE. Mas mediante uma condição: redistribuir
as cadeiras descontando os votos dados na eleição de 2022 ao
ex-presidente Rodrigo
Bacellar (União), que se afastara do cargo sob acusação de ter
vazado informações ao Comando Vermelho e foi cassado no julgamento que condenou
Castro. Tudo foi feito, porém, em meras duas horas, com cumprimento protocolar
das sessões regimentais obrigatórias. Ruas, pré-candidato do PL ao governo na
eleição de outubro e evidente interessado em disputá-la no cargo, só concorreu
consigo mesmo.
Pelas regras de sucessão, com a renúncia de
Castro, o vice, Thiago Pampolha, deveria ter assumido o Palácio Guanabara. Só
que desde maio ele ocupa uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Como Bacellar — nome seguinte a Pampolha na linha sucessória — estava afastado,
assumiu interinamente o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo
Couto. Caberia a ele convocar eleição indireta para um governador que exercerá
mandato-tampão até a eleição de outubro.
Uma primeira dúvida diz respeito à linha
sucessória: o novo presidente da Alerj, quem quer que seja, estaria autorizado
a assumir o governo no lugar de Couto para convocar a eleição indireta ao
mandato-tampão? E se fosse Ruas, ele próprio candidato a tal mandato? E as
manobras para elegê-lo foram ilegais como entendeu a Justiça do Rio?
Há, por fim, dúvidas sobre as regras das
eleições para o mandato-tampão. A Alerj aprovou lei determinando voto aberto,
mas o ministro Luiz Fux, do STF, estipulou que a votação deveria ser secreta. A
Procuradoria-Geral da República se manifestou a favor do voto aberto. No
plenário virtual, a ministra Cármen Lúcia concordou com Fux sobre o voto
secreto, mas divergiu sobre o prazo de desincompatibilização. Seria fundamental
que o STF aproveitasse para se debruçar com afinco sobre as questões levantadas
pela conturbada sucessão de Castro. Não podem os mais de 17 milhões de
habitantes do Rio ser reféns de política tão rasa. O STF deve se pronunciar
para que as regras sejam respeitadas, sem atropelos que beneficiem um ou outro
grupo político. É essencial zelar por uma disputa com lisura, que garanta o
funcionamento do estado até que o eleitor possa escolher seu governador em
outubro.
Condenação de Meta e Google nos EUA mostra
que ECA Digital foi acerto
Por O Globo
Plataformas não estão dispostas a cumprir regras minimamente sensatas por iniciativa própria
Duas condenações nos Estados Unidos nesta
semana mostram que a Justiça tem adotado posição mais rigorosa com as
plataformas digitais, pelo menos quando está em jogo a proteção de crianças e
adolescentes. Um júri de Los Angeles condenou YouTube e Meta num
caso em que eram acusados de manter um sistema “viciante” que criou problemas
de ordem mental numa jovem. No Novo México, a Meta foi condenada a pagar multa
de US$ 375 milhões por violar lei estadual de proteção ao consumidor e
ludibriar usuários sobre a segurança de Facebook, Instagram e WhatsApp,
permitindo exploração sexual infantil.
Em ambos os julgamentos, as empresas não
conseguiram se defender da acusação de lançar mão de artifícios para conquistar
e manter audiência sem preocupação com os problemas causados em crianças e
adolescentes. Os vereditos são de grande relevância, por servirem de referência
a outros processos da mesma natureza — só em tribunais californianos há mais de
3 mil reclamações judiciais contra as plataformas — e a outros países que
também tratam de regular a atuação dessas empresas, caso do Brasil.
No processo do Novo México, os procuradores
criaram perfis falsos de crianças no Facebook e no Instagram, e eles atraíram
conteúdos sexualmente sugestivos e pedidos para compartilhamento de material
pornográfico. Três homens adultos foram presos num motel, atraídos pelo aceno
por meio dessas contas falsas. O ex-diretor de engenharia da Meta Arturo Béjar
depôs como testemunha de acusação e confirmou que as redes da plataforma podem
ajudar predadores sexuais.
Em Los Angeles, um júri condenou as duas
empresas a pagar US$ 6 milhões de indenização à autora do processo. Como de
costume, a defesa das plataformas argumentou que elas estão isentas de
responsabilidade legal por conteúdos postados pelos usuários. Mas o alvo da
acusação desta vez foi outro, mirou nos artifícios usados para tornar crianças
e adolescentes dependentes das redes, como a rolagem infinita de vídeos e seu
acionamento automático. Hoje com 20 anos, a autora do processo começou no
Instagram com 9. Antes de completar 10, havia baixado mais de 200 vídeos do
YouTube. Criou 15 contas no Instagram antes dos 15. Na adolescência, sofreu de
ansiedade, depressão e de transtorno dismórfico corporal — condição em que
alguém não aceita o próprio corpo. Ao depor nesta semana na Corte de Los
Angeles, Mark
Zuckerberg, dono da Meta, foi questionado sobre os filtros que
permitem aos usuários alterar a própria imagem para aparecer nas redes. Repetiu
que estava mais preocupado com “a liberdade de expressão”.
No Brasil, felizmente a regulação de proteção a crianças e adolescentes é mais rigorosa, sobretudo depois que entrou em vigor a nova lei conhecida como ECA Digital, com uma nova camada de salvaguardas. Os processos nos Estados Unidos mostram que as plataformas estão longe de cumprir regras minimamente sensatas por iniciativa própria. Por isso é essencial que a lei as obrigue a adotá-las.
STF oferece solução inaceitável para os
penduricalhos
Por Folha de S. Paulo
Ministros pretendiam criar agenda positiva, mas
corporativismo e conveniência prevaleceram no plenário
Não há como ignorar que a corte construiu um
puxadinho para abrigar os interesses de seus semelhantes
Tinha tudo para ser uma agenda positiva. Os
ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes,
do STF (Supremo
Tribunal Federal), expediram em fevereiro decisões provisórias com as
quais suspenderam o
pagamento dos obscenos
penduricalhos no âmbito dos três Poderes.
Para uma corte desgastada pelo escândalo
do Banco Master e
pelo autoritarismo do ministro Alexandre de
Moraes, parecia uma maneira de reconquistar alguns pontos perante a
opinião pública.
Mas não foi o que aconteceu. Quando o tema
chegou ao plenário, todos os integrantes do STF se alinharam em torno de
uma solução muito
aquém do ideal, manchada pelo corporativismo e pelo ativismo de
conveniência.
Foi como se Dino houvesse se esquecido de que
prometeu dar "fim ao império dos penduricalhos". Ou como se Gilmar já
não se sentisse perplexo "quanto
à desordem que vivenciamos no que diz respeito à remuneração".
Ambos tinham razão nessas declarações. Os
penduricalhos, a despeito dessa alcunha bonachona, representam uma afronta
à Constituição —e,
o que é mais grave, uma afronta praticada por aqueles que deveriam estar entre
os primeiros a respeitá-la.
Pois são magistrados e membros do Ministério
Público os principais beneficiários desse embuste nada republicano.
Com o propósito de receber acima do teto constitucional (o máximo permitido ao
funcionalismo, hoje em confortáveis R$ 46.366,19), essas corporações inventam
verbas extras, apresentadas como se fossem pagamentos excepcionais.
Ocorre que a excepcionalidade logo se torna
regra, incorporando-se aos já polpudos contracheques dessas carreiras públicas.
Ou seja, sem nenhuma cerimônia, faz-se letra morta do limite inscrito em nossa
Carta Magna.
O Supremo, como guardião constitucional,
tinha uma linha de ação bastante óbvia pela frente. Mas, para os ministros do
STF, até as maiores obviedades parecem sujeitas a interpretações.
Em vez de aplicar a lei, o plenário do
Supremo criou outro limite para o Judiciário e o Ministério Público: as verbas
indenizatórias (incluindo pagamento de férias não gozadas e acúmulo de
jurisdição) não podem ultrapassar 35% da remuneração do servidor.
Além disso, os ministros permitiram o
pagamento de um adicional por tempo de serviço, com repasse de 5% a cada cinco
anos, cujo valor total tampouco poderá ultrapassar 35% do teto.
Na prática, isso significa que, tudo somado,
o Supremo inventou um novo teto para magistrados e procuradores, equivalente a
70% acima do teto atual.
Não há como negar que, diante da pândega atual, a decisão constitui alguma economia de recursos do contribuinte. Mas tampouco há como ignorar que a corte construiu um puxadinho para abrigar os interesses de seus semelhantes —e o fez invadindo prerrogativas do Congresso, a quem cabe legislar. Em busca de um acerto vistoso, o Supremo cometeu dois graves erros.
França e Itália impõem derrotas à
ultradireita
Por Folha de S. Paulo
Pleitos municipais franceses e referendo
sobre reforma do Judiciário italiano dão mostras de moderação do eleitorado
Somados à vitória socialista em Portugal,
resultados sugerem que votantes podem não ser tão suscetíveis ao populismo
Será difícil confirmar, neste momento, uma
tendência de rechaço da cidadania da Europa Ocidental
ao avanço da
ultradireita. Mas o pleito municipal na França e
o referendo sobre a reforma constitucional do Judiciário na Itália emitiram,
quase ao mesmo tempo, sinais de desconforto do eleitorado com o conservadorismo
mais radical.
Qualquer conclusão razoável há de ceder à
paciência e, pelo menos em relação a essas duas economias centrais da União
Europeia, aguardar os desdobramentos em 2027 das eleições
presidenciais francesas e das parlamentares italianas.
Entretanto ambos os pleitos não deixaram de
indicar derrotas inquestionáveis das campanhas da ultradireita nesses países.
Na Itália, a negativa
expressa em 53,7% dos votos válidos ao projeto do governo
de Giorgia
Meloni de separação das
carreiras de juiz e promotor, atualmente fundidas na magistratura
italiana, fragiliza sensivelmente a imagem política da primeira-ministra.
Meloni, do partido Irmãos da Itália,
empenhara-se em público por essa reforma na Constituição de 1946. A rigor,
fracassou duas vezes. Primeiro, não conseguiu arrebanhar os votos favoráveis no
Parlamento.
Depois, no referendo de domingo (22) e no dia
seguinte, antecipara que não renunciaria em caso de derrota. Assim se mantém,
em contradição com a prática no mais elevado cargo italiano.
Já os resultados eleitorais na França trazem
algum fôlego à esfera centrista do presidente Emmanuel
Macron, cujo governo está exposto à letargia e ao desgaste público
desde o pleito legislativo de julho de 2024. Sobretudo ganha força a
candidatura que vier a ser apoiada pelo Palácio do Eliseu no próximo ano.
O pleito não apenas limitou vitórias dos partidos extremistas de direita e
esquerda a cidades pequenas, com exceção de Nice, onde a ultradireita
prevaleceu. Também marcou a recusa do eleitorado dos principais municípios
franceses às bandeiras levantadas por Marine Le Pen e
Jordan Bardella, ícones do Reunião Nacional.
Em Paris, a vitória do vice-prefeito Emmanuel
Grégoire sobre a conservadora Rachida Dati prolongará por mais seis anos a
gestão do Partido Socialista. Em duas cidades onde concentrou esforços
(Marselha e Nïmes), a ultradireita saiu derrotada.
Somados à eleição do presidente socialista António José Seguro em Portugal, os pleitos na França e na Itália sugerem que o eleitorado europeu pode não ser tão facilmente suscetível a apelos populistas como se costuma temer.
O Supremo debochou do Brasil
Por O Estado de S. Paulo
Se a intenção dos ministros do STF era
arrefecer o mal-estar da sociedade, o novo teto remuneratório para o Poder
Judiciário e o Ministério Público só corroeu ainda mais a credibilidade da
Corte
A um só tempo, o plenário do Supremo Tribunal
Federal (STF) conseguiu a proeza de parir uma aberração jurídica e ofender a
inteligência alheia numa única sessão. Anteontem, Suas Excelências validaram,
sob nova roupagem, os chamados penduricalhos, vedados expressamente pela
Constituição. Ao extinguir alguns desses privilégios e preservar outros tantos,
fixando-lhes um limite de 35% do subsídio pago aos ministros da Corte, o STF
criou um novo teto remuneratório à margem do Congresso. Para piorar, um teto
que, na prática, só beneficia as castas do Poder Judiciário e do Ministério
Público.
Espremendo-se os votos supostamente virtuosos
em defesa da moralidade pública e do erário, o que sai é o Supremo dizendo à
Nação, de forma inequívoca, que há uma Constituição válida para a esmagadora
maioria dos cidadãos e outra, bem mais generosa, à qual estão submetidos
magistrados, procuradores e promotores.
O art. 37, inciso XI, da Lei Maior
estabelece, em português cristalino, que nenhuma remuneração no serviço público
pode ultrapassar o salário bruto dos ministros do STF. Hoje, isso corresponde a
R$ 46.366,19. Não há margem para acrobacias semânticas nem para a multiplicação
de pagamentos adicionais que, embora travestidos de “indenizatórios”,
funcionam, a bem da verdade, como clara burla do limite constitucional.
A esse novo teto “extraoficial”, digamos
assim, que conviverá com o teto constitucional até que o Congresso edite uma
lei definindo que verbas podem ser classificadas como indenizatórias, o Supremo
deu o nome de “regime de transição”. Ora, não se negocia uma
inconstitucionalidade flagrante. Não se transige com privilégios que afrontam a
própria ideia de República.
Fosse mais cioso de seu papel no Estado Democrático
de Direito, o Supremo teria extinguido todo e qualquer penduricalho, de forma
que nenhum servidor público no Brasil pudesse receber mensalmente mais do que
R$ 46,4 mil. E os que não ficarem contentes com esse patamar de remuneração,
que peçam exoneração e busquem condições melhores na iniciativa privada. É tão
simples quanto isso.
Mas, ao estabelecer parâmetros arbitrários e
autorizar pagamentos fora do texto constitucional, o STF não apenas usurpou uma
prerrogativa do Poder Legislativo, como o condicionou. Se o Congresso nada
fizer, a elite de servidores do Poder Judiciário e do parquet continuará a
receber suas benesses – talvez um pouco menores em valores, mas igualmente
imorais e inconstitucionais – como se nada de errado houvesse. Mais bem dito:
além de legislar, o STF criou um fato consumado, qual seja, um modelo de
remuneração sui generis que
relativiza o teto constitucional e normaliza a exceção.
A alegação de economia para o erário chega às
raias do deboche. Não se economiza ao validar pagamentos inconstitucionais que
nem sequer devem ser realizados. Se determinadas verbas indenizatórias violam o
teto, têm de ser eliminadas, não limitadas. Ao estabelecer um porcentual
aceitável de penduricalhos, o Supremo ignorou deliberadamente que o problema
não está nos excessos, mas na própria existência desses privilégios.
Se a afronta ao texto constitucional por seu
maior guardião já é perturbadora, o desdém do STF pela realidade da esmagadora
maioria dos trabalhadores brasileiros, que nem sonha com férias de dois meses
anualmente, é ofensivo. Cidadãos comuns não dispõem de expedientes
corporativistas para engordar seus holerites. Já no topo do funcionalismo
público, consolida-se um sistema paralelo, no qual o teto só existe como
referência formal, contornado por uma infame arquitetura de vantagens.
Não é improvável que os ministros do STF
acreditem piamente que a decisão irá arrefecer o mal-estar da sociedade diante
dos abusos e mau comportamento de alguns deles. O efeito, porém, é
diametralmente oposto: a corrosão ainda maior da credibilidade da Corte, vista
como uma ermida para o corporativismo.
É preciso afirmar sem rodeios: o teto
constitucional não comporta puxadinhos. É o limite absoluto para a remuneração
do funcionalismo público. Que isso não tenha sido declarado pelo Supremo com
todo o vigor que a questão exige é uma submissão inaceitável do melhor
interesse público ao patrimonialismo e ao espírito de corpo.
Um sigilo muito conveniente
Por O Estado de S. Paulo
Agora se entende por que a auditoria do TCU
sobre a atuação do Banco Central no caso Master estava sob sigilo. As
conclusões são constrangedoras para o BRB e o ministro Jhonatan de Jesus
Como esperado, a auditoria realizada pelo
Tribunal de Contas da União (TCU) para avaliar a atuação do Banco Central (BC)
na liquidação extrajudicial do Banco Master não identificou “impropriedades,
omissões ou negligência” por parte da autarquia. Ao contrário. Os técnicos
concluíram que a medida foi “imperativa, legal e tecnicamente fundamentada,
adotada tempestivamente após o esgotamento fático das alternativas de
recuperação e diante da insolvência e da possível prática de ilícitos pela
instituição supervisionada”.
Até segunda-feira, 23 de março, esse era o
único trecho do relatório a que a reportagem do Estadão havia tido acesso.
Embora a auditoria tenha sido concluída havia quase dois meses, seu conteúdo
permanecia sob sigilo por ordem do ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso
na corte de contas. Em vez de incluir o tema na pauta do TCU e submetê-lo ao
plenário de ministros, Jhonatan de Jesus determinou a suspensão do processo até
o surgimento de “elementos oficiais pertinentes” de outras apurações e
investigações no âmbito do BC, da Controladoria-Geral da União (CGU) e do
Supremo Tribunal Federal (STF).
Ora, prudência não combina com o estilo
impetuoso do ministro, espécie de representante do Centrão no TCU. Depois do
barulho que ele fez entre o fim do ano passado e o início deste ano, quando
determinou que os servidores do TCU fizessem uma inspeção in loco no Banco Central com
“máxima urgência” e não descartou a possibilidade de emitir uma cautelar para
impedir a venda de ativos do Banco Master a despeito de sua liquidação, o
excesso de zelo em relação ao documento não passou despercebido.
E tudo ficaria por isso mesmo, não fosse a
Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado dar publicidade à auditoria
conduzida pelo TCU. O documento trouxe, de fato, revelações estarrecedoras, não
sobre a atuação do Banco Central, mas sobre a conduta do BRB, banco estatal
controlado pelo Distrito Federal que tentou comprar o Master, e sobre a atuação
do próprio ministro Jhonatan de Jesus.
Os técnicos do TCU, segundo o Estadão, identificaram “graves
irregularidades” e “projeções financeiras com erros primários” na proposta de
aquisição do Master pelo BRB. O negócio foi rejeitado pelo Banco Central no dia
3 de setembro após cinco meses de análise, mas o relatório revela que o governo
do Distrito Federal recorreu três vezes ao TCU na tentativa de pressionar o BC
por sua aprovação – uma na véspera do veto e duas no dia em que a compra foi
negada.
A análise do TCU é categórica. Os técnicos
recomendam que o ministro Jhonatan de Jesus peça não apenas o arquivamento da
ação que investigava o Banco Central, mas que notifique o Tribunal de Contas do
Distrito Federal e o Ministério Público do Distrito Federal para apurar
“indícios de gestão temerária no âmbito do BRB”.
Para quem achava que a situação não poderia
ser mais constrangedora, ela é, sobretudo para o ministro Jhonatan de Jesus. O
relatório do TCU aponta que foi o próprio Daniel Vorcaro, dono do Master, que
requisitou à corte de contas, no dia 16 de dezembro de 2025, a suspensão dos
atos do Banco Central, o veto à venda de bens do grupo, a realização de uma
inspeção na autarquia e a imposição de sigilo absoluto no processo.
Todos esses pedidos se materializaram em
despachos emitidos por Jhonatan de Jesus, o primeiro dois dias depois, quando o
ministro sugeriu suposta “precipitação na adoção da medida extrema” por parte
do BC ao liquidar o Master. Jhonatan de Jesus, por óbvio, negou ter atendido
aos pedidos de Vorcaro e alegou que suas decisões seguiram critérios técnicos e
processuais, bem como manifestações dos técnicos e do Ministério Público junto
ao TCU.
Parece ocioso discutir se o ministro estava
ou não atuando a serviço da defesa de Daniel Vorcaro quando o fato é que o TCU
nem sequer deveria ter entrado no caso. Antes de ser liquidado, o Master era um
banco privado – fora, portanto, do escopo de atuação da corte de contas. A
credibilidade do Banco Central foi posta em xeque pela corte de contas, mas o
voluntarismo de Jhonatan de Jesus colocou o tribunal no olho do furacão. Agora,
é o BRB e o TCU que precisam se explicar.
A criatividade de Moraes
Por O Estado de S. Paulo
Ministro inventa prisão domiciliar para
Bolsonaro com limite de 90 dias, inexistente na lei
A decisão do ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) Alexandre de Moraes de conceder prisão domiciliar a Jair
Bolsonaro atende a um imperativo humanitário indiscutível. O estado de saúde do
ex-presidente, notoriamente precário desde o atentado sofrido em 2018, foi
agravado por um quadro recente de broncopneumonia ocorrido na “Papudinha”, o
que exigiu sua rápida internação em UTI. Um pequeno atraso no socorro ao
hospital, por qualquer razão, poderia ter levado Bolsonaro à morte.
Resta evidente, portanto, que os cuidados
médicos contínuos de que Bolsonaro necessita são incompatíveis com o regime
fechado. Reconhecer esse fato não implica a defesa de um tratamento
privilegiado ao ex-presidente, mas salvaguardar o próprio Estado de Direito,
que não admite que uma execução penal seja transformada em tortura, muito menos
em vingança.
Dito isso, o debate sobre a decisão de Moraes
não está encerrado. Para começar, há uma questão jurídico-institucional
relevante a ser considerada. A execução da pena, por regra, cabe às varas de
execução penal. A centralização desse controle no gabinete de um ministro do
STF, ainda que sob justificativas excepcionais, subverte a lógica da
distribuição de competências do sistema judicial. Ademais, ao assumir
pessoalmente o caso, Moraes apequena todo o Poder Judiciário, como se só ele
fosse capaz de cuidar do casos envolvendo Bolsonaro. Assim, gera insegurança
jurídica ao submeter os fatos e as leis às suas veleidades.
A concessão da prisão domiciliar humanitária
foi correta, como este jornal já defendeu, à luz de laudos médicos, do parecer
da Procuradoria-Geral da República e do histórico clínico do apenado, que
apontam para a necessidade de monitoramento constante. Ignorar esse quadro
implicaria assumir o risco de morte de Bolsonaro sob custódia do Estado, um
evento de consequências imprevisíveis para o País.
O busílis está na fixação do prazo de 90 dias
para a prisão domiciliar. Nem o Código de Processo Penal nem a Lei de Execução
Penal estabelecem limite temporal para esse regime especial no que concerne a
questões de saúde. Isso porque, como é óbvio, sua duração depende
fundamentalmente da evolução clínica do investigado, réu ou apenado, não de
estimativas feitas por um juiz.
O fundamento adotado por Moraes, baseado na
literatura médica sobre o prazo de recuperação de idosos com broncopneumonia,
não deveria se sobrepor à ausência de previsão legal. Caberia conceder a
domiciliar sem inovar no ordenamento jurídico. É fato que Bolsonaro já
demonstrou não ser um réu confiável, mas se cessarem as razões que justificam o
benefício ou houver descumprimento de seus pressupostos, a lei já prevê o
retorno do ex-presidente ao regime fechado.
Decisões judiciais comportam interpretação, é
evidente. Mas há diferença entre interpretar a lei e criá-la sob critérios
arbitrários. Ao fixar um prazo inexistente, Moraes avançou além de sua
competência e reiterou a prática de moldar o Direito conforme suas vontades.
O Estado de Direito exige respeito estrito aos limites para o exercício do poder. Quando essas balizas são ignoradas, abre-se espaço para arbitrariedades.
Guerra prolongada poderia levar o BC a
aumentar juros
Por Valor Econômico
O alerta consta do Relatório de Política
Monetária, que sugere a possibilidade de uma reação 'preemptiva' a sinais de
impacto significativo e duradouro nos preços
A continuidade por tempo prolongado da guerra
de EUA e Israel contra o Irã pode levar o Banco Central (BC) a reagir
preventivamente a um impacto significativo e duradouro nos preços, adverte o
Relatório de Política Monetária divulgado ontem. Nessas circunstâncias, as
taxas de juros teriam de subir, uma nuance que não estava explicitamente
presente na ata da reunião mais recente do Comitê de Política Monetária,
divulgada na última terça. A reação “preemptiva” também constou das conclusões
dos principais bancos centrais do mundo, de forma explícita no caso das
declarações dos dirigentes do Banco Central Europeu (BCE) e de forma implícita
na reunião do Federal Reserve, na qual a hipótese de elevação dos juros foi
discutida. A diferença é que a maioria dos BCs já encerrou o ciclo de
afrouxamento monetário ou está perto disso. O BC brasileiro mal começou o
caminho de volta da Selic.
O BC optou por redução menor dos juros, de
0,25 ponto percentual, porque as expectativas de inflação se elevaram com a
“alta recente dos preços de energia”. A previsão é de preços do petróleo pelo
menos 24% mais altos que o esperado no relatório de dezembro. O preço médio do
barril do Brent seria de US$ 75 no primeiro trimestre, US$ 86 no segundo e US$
77 no terceiro e quartos trimestres. Além das commodities de energia, as
metálicas também estão em alta.
A guerra contribuiu para tornar as condições
financeiras mais restritivas em março. A ampliação dos conflitos geopolíticos,
registra o relatório, pode levar os países a elevarem seus gastos com defesa em
um momento de déficits fiscais elevados, o que cria outro risco
desestabilizador: “a reprecificação abrupta de ativos ... com expectativa de
interação adversa de vulnerabilidades fiscais e financeiras”.
Os efeitos esperados de um choque negativo de
oferta do petróleo são o aumento da inflação e a diminuição do crescimento,
aponta o BC. Ontem a OCDE previu que, com os conflitos no Oriente Médio, o
crescimento mundial cairá de 3,3% para 2,9% em 2026, com alta importante do
nível de preços. Nos EUA, a inflação ao consumidor chegaria a 4,2% (é hoje de
2,7%) e subiria 1,2 ponto percentual nos países do G20, das nações mais ricas.
“A guerra no Irã, que se soma à da Ucrânia e à guerra tarifária dos EUA, estão
moldando o maior choque estagflacionário que o mundo já viu em cinco décadas”,
disse Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional e professor
de Harvard (FT, 26/3). O Goldman Sachs previu ontem chance de 30% de a economia
americana enfrentar uma recessão em 12 meses.
Seguir o manual de política monetária, de só
combater os efeitos secundários de um choque de oferta, não será fácil. A continuidade
e ampliação do conflito poderá ter, segundo o BC, “impactos sobre os preços e
sobre a atividade econômica significativos e duradouros”. Tanto os efeitos
diretos como o alto grau de incerteza que os acompanham dificultam “a função de
reação dos bancos centrais”.
O exemplo da pandemia deixou as autoridades
monetárias em geral mais alertas para agir, pois na crise anterior consideraram
a alta da inflação como transitória e até hoje os EUA, por exemplo, não
conseguiram levar a inflação de volta para a meta. O BCE conseguiu fazer isso
em 2025. Dessa forma, aponta o BC, “elevação das expectativas de inflação,
prêmios de risco e inclinação na curva de juros podem sinalizar a necessidade
de reação preemptiva”.
Fatores domésticos contribuíram para a
cautela do BC. A economia ao fim de 2025 estava um pouco mais aquecida do que
se imaginava e mostrou ligeira aceleração no primeiro trimestre deste ano. O
PIB de 2025 (2,3%) foi mais baixo que o dos três anos anteriores, mas os
serviços surpreenderam. Nos doze meses encerrados em fevereiro, os preços do
segmento evoluíram 6%. Com o aumento do petróleo e o crescimento acima do
potencial estimado, a projeção de inflação subiu. No horizonte relevante para a
política monetária, o terceiro trimestre de 2027, ela subiu de 3,2% para 3,3%,
e só chegará em 3,1% no terceiro trimestre de 2028. Além disso, cresceram para
30% as chances de que o IPCA ultrapasse o teto da meta (4,5%) este ano.
O enorme aperto monetário, mesmo amortecido
pela política expansionista do governo federal, estava moderando a economia e a
inflação. O aumento do custo do crédito diminuiu a demanda e conduziu ao
aumento dos pagamentos líquidos (quando o volume de quitação do crédito supera
o de novas concessões). Com isso, o impulso do crédito foi negativo em 1,1% do
PIB para pessoas físicas e de 0,2% do PIB para empresas.
No entanto, as expectativas de inflação do Focus para 2027 não se moveram, indicando que as pressões sobre os preços poderiam se restringir ao ano corrente. A consultoria Oxford Economics simulou o que aconteceria agora com um choque igual ao da invasão da Ucrânia em 2022, com preços do petróleo semelhantes, e concluiu que o pico da inflação seria de 5,2% no primeiro trimestre de 2027, distante da elevação de dois dígitos do núcleo do IPCA vista no segundo trimestre de 2022. Isso permitiria ao BC continuar cortando com moderação os juros, uma perspectiva que só estaria descartada se o pior cenário se materializar.
A arte que sobrevive ao RG do autor
Por Correio Braziliense
Nesse ecossistema de celebridades
instantâneas, a escolha voluntária pelo anonimato firmou-se, ironicamente, como
a mais ruidosa das rebeldias
Dois anonimatos artísticos famosos tratados
de modo diferente nos últimos dias deixaram claro o choque que existe entre a
curiosidade jornalística e o valor do mistério na criação. De um lado, a
agência de notícias Reuters cravou a confirmação da verdadeira identidade do
provocador artista urbano britânico Banksy. Embora o nome civil do muralista
circulasse em fóruns e especulações há anos, o "furo" impõe agora a
chancela incontestável do jornalismo tradicional. De outro, o lançamento, nesta
quinta-feira, do aguardado documentário "A Febre Elena Ferrante" adota
um caminho diametralmente oposto. A produção mergulha no estrondoso sucesso da
escritora italiana sem, contudo, violar o pacto de anonimato que a autora da
tetralogia napolitana mantém com seus leitores desde a sua estreia literária em
2011, com "A amiga genial".
O contraste entre as duas abordagens levanta
um debate ético espinhoso: até que ponto o interesse jornalístico justifica
arrancar a máscara de quem escolheu não tê-la? A agência de notícias, ao
justificar sua decisão editorial sobre Banksy, apega-se à premissa do interesse
público e da responsabilização. O argumento sustenta que um indivíduo cuja obra
movimenta dezenas de milhões de dólares no mercado de artes, interfere em
leilões e influencia o debate político global não pode operar indefinidamente
sob a conveniência das sombras.
"As pessoas e instituições que buscam
moldar o discurso social e político estão sujeitas a escrutínio,
responsabilização e, às vezes, desmascaramento. O anonimato de Banksy — uma
característica deliberada, voltada para o público e lucrativa de seu trabalho —
permitiu que ele operasse sem tal transparência", explicou a Reuters. É
uma justificativa válida sob a ótica estrita da transparência comercial e do
registro histórico.
Contudo, a cultura não é feita apenas de
cifrões e certidões de nascimento. A postura adotada pelos realizadores de
"A Febre Elena Ferrante" demonstra que é plenamente possível dissecar
a magnitude de um fenômeno artístico respeitando a fronteira imposta por seu
criador. Para Ferrante — como ela mesma declarou por escrito —, os livros, uma
vez prontos, não precisam mais de seus autores. A ausência de um rosto obriga o
público a mergulhar na essência do texto, livre das simpatias, antipatias ou
preconceitos que a figura pública do escritor fatalmente evocaria.
Mas vivemos na era da superexposição e da
transparência compulsória, em que o culto à personalidade de quem cria
tornou-se quase um pré-requisito para o consumo daquilo que é criado. Nesse
ecossistema de celebridades instantâneas, a escolha voluntária pelo anonimato
firmou-se, ironicamente, como a mais ruidosa das rebeldias. Quando um artista
decide apagar o próprio rosto para deixar apenas a sua obra sob os holofotes,
ele desafia a lógica mercantil do espetáculo.
Em última análise, a ânsia por desvendar o RG de um gênio criativo reflete um fetiche limitador da nossa época. Descobrir o nome do homem que pintou meninas com balões e ratos anarquistas nos muros da Palestina não altera um milímetro a contundência da crítica estampada no concreto. Conhecer a verdadeira face da mulher que descreveu a complexa e crua amizade entre Lila e Lenu não muda a profundidade emocional daquelas páginas. O jornalismo, por ofício, sempre buscará a verdade dos fatos, e esse é o seu papel nas democracias. Porém, no terreno da criação artística, a sociedade precisa reaprender a aceitar que a única verdade que realmente importa, e que resistirá ao teste do tempo, é a obra em si e o impacto irremovível que ela causa em nossa sociedade — e não quem estava por trás dela.
O crescimento do PIB do Ceará
Por O Povo (CE)
A notícia é boa: o crescimento do Produto
Interno Bruto (PIB) do Ceará em 2025 foi de 2,87%, situando-se, portanto, acima
da média nacional de 2,3%. Um feito que tem a ver com as políticas públicas com
assinatura do governo, não há como afastar isso, mas, na verdade, que está
muito mais relacionada a uma atitude de colaboração entre as autoridades e o
setor produtivo estadual.
Portanto, de início, a performance resulta de
um entendimento salutar de que é possível colocar o interesse do público acima
da enfadonha disputa política que o tempo todo divide a sociedade por
ideologias, simpatias partidárias ou focos eleitorais fora de tempo. Há como
criarmos um espaço de convergência, livre das contaminações indevidas para que
prevaleça o que realmente importa para o dia-a-dia do cearense, valendo
destacar que interlocutores importantes da economia local situam-se em campo
político diferente daquele que integra o governador atual e seu grupo.
Os dados divulgados pelo Instituto de
Pesquisa Econômica do Ceará (Ipece) mostram como destaque o resultado que
apresentou o serviço de Serviços, com alta de 3,09%, enquanto a Agropecuária
registrou 2,55% e a indústria acumulou crescimento de 1,99% no ano passado. O
grande destaque, detalhando mais ainda os números, ficou com a atividade
turística, que teve grande peso no resultado, impactando positivamente em
setores como transportes, hotelaria e alimentação.
O resultado deve ser comemorado porque os
números frios justificam, mas a reflexão precisa ser um pouco mais profunda. Há
uma defasagem histórica na performance da economia do Ceará - e do Nordeste-, o
que impõe uma realidade na qual o Estado - e a região -, precisa ter um
crescimento consistente acima da média nacional, ao longo de um tempo largo,
para chegar a um tamanho dentro da economia do Brasil que corresponda à sua
presença.
Os números de 2025 que acabam de ser
divulgados apresentam uma importância fundamental: mostrar que a reversão do
cenário histórico de carências econômicas que nos cerca exige um comportamento
das forças da sociedade em geral, no setor público e na área privada, que
desconsidere aspectos políticos e, considerando a característica do ano de
2026, também os interesses eleitorais. A gente precisa, desde agora, separar as
coisas em nome do que é realmente prioridade.
Isso não significa deixar de ter posicionamento, exibir uma falsa neutralidade ou coisa do tipo, mas, pelo contrário, impõe que as opções sejam assumidas de maneira clara. A partir disso, deixando que as coisas aconteçam no plano natural e, distante do foco eleitoral, colocando suas ações a serviço de uma necessidade real do cearense. Especialmente quando se está falando de uma realidade econômica que, como fator de justiça, precisamos transformar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.