quinta-feira, 12 de março de 2026

O recuo de Toffoli e o avanço da crise à direita, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Ministro reconhece suspeição no caso Master que avança sobre o União Brasil

A crise do Supremo Tribunal Federal ganha panos quentes com a decisão do ministro Dias Toffoli de se declarar suspeito para a relatoria do mandado de segurança pela instalação da CPI do Master na Câmara dos Deputados e para o julgamento da Segunda Turma que vai se manifestar sobre a prisão de Daniel Vorcaro, dono do banco.

Por quanto tempo, não se sabe, até porque o ministro Alexandre de Moraes, nomeou, para seu gabinete, o delegado da Polícia Federal Fábio Schor, seu braço direito nos inquéritos do golpe e das ‘fake news’, e o Fórum de Lisboa, popularmente conhecido como “Gilmarpalooza”, já está anunciado para os primeiros dias de junho. Abre-se, pelo menos, a perspectiva de que os holofotes do caso venham a ser partilhados com a política.

Não há dúvida, no entorno do presidente, de que sua popularidade e intenção de voto têm pago a conta do escândalo do Master pela condição de “representante máximo do status quo”, como disse o presidente do PT, Edinho Silva, ao Valor.

A informação de que o ex-prefeito de Salvador e secretário-geral do União, Antonio Carlos Magalhães Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e do Reag, começa espalhar, à direita, o estrago promovido pelo escândalo.

A informação saiu de um relatório do Coaf ao qual O Globo teve acesso. O conselho, que monitora movimentações financeiras suspeitas, é subordinado ao Banco Central e seus relatórios são compartilhados no Sistema Eletrônico de Informações, do governo federal. Enquanto foi relator do caso, Toffoli determinou que os relatórios fossem compartilhados unicamente com seu gabinete. Ao substituí-lo, o ministro André Mendonça restabeleceu o fluxo determinado por lei.

Já se sabe que os fundos de previdência de prefeituras e governos lesados pelo Master, os contatos na agenda de Vorcaro, os parlamentares que apresentaram projetos em seu benefício e aqueles a quem faz referência nas mensagens de WhatsApp conhecidas, são, majoritariamente, de partidos de direita. O depósito na conta de ACM Neto, porém, é o primeiro duto comprovado do escoamento, para a política, do rombo de R$ 60 bilhões aberto pelo banco. Outros virão.

Ex-prefeito de Salvador e pré-candidato do partido ao governo da Bahia, ACM Neto foi um dos maiores entusiastas, no DEM, da fusão com o PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro elegeu-se em 2018. Da fusão, nasceu o União, que recebeu o terceiro maior quinhão do fundo partidário (R$ 107 milhões) em 2025. O partido cresceu tanto que virou uma agremiação amorfa. Abarca de Milton Leite, o ex-presidente da Câmara paulistana ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (AP), passando pelo relator da PEC da Segurança, Mendonça Filho (PE), e pelo senador Sergio Moro (PR).

ACM Neto passou a secretário-geral desta massa amorfa, cedendo a presidência a Antonio Rueda, egresso do PSL. Ao assumir o União, Rueda disse que gostaria de comandá-lo como uma empresa. Se a delação da máfia dos combustíveis vier a ser aceita, como mostraram Breno Pires e Arthur Guimarães na Piauí, se saberá o quanto Rueda ajudou também os negócios do crime organizado.

No ano passado, ACM Neto deu mais um passo, avalizando a federação entre o União e o PP do senador Ciro Nogueira (PI), requerida, mas ainda não avalizada pelo TSE. O escândalo do Master deriva, em parte, da retranca imposta ao aparato de controle da corrupção, do Ministério Público ao STF, a partir da invalidação da Lava-Jato. E Ciro Nogueira personifica, como poucos, esta retranca. Pelo papel exercido no impeachment de Dilma Rousseff, pela formatação do poder do Centrão no Congresso e pelo papel assumido no governo Jair Bolsonaro.

O presidente do PP forma com Rueda a dupla que, potencialmente, mais tem chance de ser atingida pelas duas maiores investigações em curso na República, a do Master e a da máfia dos combustíveis. A despeito da proximidade de ACM Neto com a dupla, é na sua vizinhança que se deve procurar a origem do depósito.

O ex-prefeito é vizinho e amigo de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Na nota em que justifica o depósito, Neto o atribui à prestação de serviços de sua consultoria na “análise da agenda político-econômica nacional”. Correligionários a definiram com uma frase: “Igual à nota da Vivi”. Reputaram-na tão pouco convincente quanto a nota da mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci, para justificar o contrato de advocacia de R$ 129 milhões com o Master.

No União, a avaliação é que este depósito será mais danoso a ACM Neto do que a proximidade do PT baiano com Lima. Isso porque esta relação foi construída por dois ex-governadores, o senador Jaques Wagner (PT) e ministro da Casa Civil, Rui Costa, na privatização da Empresa Baiana de Alimentos, dona de supermercados populares. Esta operação originou o Credcesta, cartão consignado associado ao Master quando Augusto Lima se juntou a Vorcaro. Quando o governador e candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues, assumiu a Bahia, em 2023, esta relação havia se diluído.

O impacto político do Master mal começou. O futuro da CPI agora está nas mãos do ministro Cristiano Zanin. O depósito na conta de ACM Neto mostrará se o impacto regional sobre as campanhas dos envolvidos com o banco, em todo o país, dará, ao caso, concretude capaz de neutralizar o estrago generalizado sobre o Estado e sobre seu chefe.

 

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