O Estado de S. Paulo
Mesmo que vença, Trump já perdeu no que realmente queria: demonstrar que o poder americano segue absoluto
A história presenciou governos de diversos grandes líderes, aqueles que conseguiam absorver o sentimento da população, organizar os setores produtivos, articular a máquina pública no diálogo com todos os interesses e posicionar o País frente ao mundo. Em outros casos, no entanto, convicções particulares, voluntarismo e desapreço à opinião de segmentos da população deram a tônica de governos em que o jogo próprio da democracia ficou em posição subordinada. Mas o mais complexo é quando o poder do líder é entendido, por ele, como irrestrito, seja no militar, seja no econômico.
Ao entrar na guerra contra o Irã, Donald
Trump, talvez enebriado pelas facilidades com que “tomou” a Venezuela, apostou
numa premissa rapidamente desmentida pelos fatos: a de que a superioridade
tecnológica, aérea e naval dos Estados Unidos bastaria para impor uma derrota
fulminante ao Irã. Desde 28 de fevereiro, o conflito mostra outra dinâmica. O
Irã não se comportou como um Estado convencional que se rende ao peso de
bombardeios, mas respondeu combinando ataques dispersos, pressão sobre rotas
marítimas e uso de mísseis e drones, num misto de lógica de guerrilha com
capacidade de destruição em escala. Mas isso está elevando os custos militares,
políticos e econômicos a níveis inimagináveis.
O erro estratégico de Trump está em ter
tratado o conflito como uma demonstração de força, quando, na realidade, abriu
espaço para uma guerra de desgaste. O Irã mostrou-se capaz de atingir cidades
israelenses, ameaçar bases ligadas aos Estados Unidos, pressionar
infraestrutura energética e expandir o teatro de operações para além da região.
Os países do Golfo passaram a conviver com a perspectiva de ataques a
instalações de energia, água e tecnologia, precisamente os pontos mais
sensíveis de economias altamente dependentes de eletricidade, dessalinização e
estabilidade logística. A guerra está corroendo os mecanismos de segurança que
sustentavam essa ordem.
O impacto geopolítico já é amplo. O fechamento do Estreito de Ormuz converteu-se no epicentro de uma crise que reconfigura o Oriente Médio. Os países do Conselho de Cooperação do Golfo entendiam que vinham pagando por sua segurança aos Estados Unidos, mas estão sendo duramente atingidos numa guerra que não queriam, sem que a proteção americana esteja sendo efetiva.
O dano econômico é severo. O petróleo subiu
muito, reacendendo temores inflacionários, volatilidade financeira e choques
nas cadeias globais. A própria produção de combustíveis está sendo atingida em
todo o Golfo. Para os Estados Unidos, isso corrói um dos fundamentos de sua
presença no Golfo: garantir circulação estável de petróleo e gás, proteger
aliados e sustentar a centralidade americana na governança energética mundial.
Trump queria reafirmar superioridade estratégica, mas a supremacia militar
americana já não se converte automaticamente em controle político do Oriente
Médio.
Trump age como se os Estados Unidos ainda fossem
a potência solitária pós-dissolução da URSS. Parece desconhecer que o
crescimento de outros polos econômicos mudou a lógica comercial, produtiva e
tecnológica.
Ao pressionar aliados, tratando a política
externa como extensão de sua vontade pessoal, ele corrói confiança,
previsibilidade e coordenação estratégica, justamente os ativos que sustentaram
os Estados Unidos no topo da hierarquia mundial por décadas. O resultado é
paradoxal: na tentativa de reafirmar a supremacia americana, Trump consegue minar
suas bases.
A guerra, no entanto, pode ser muito mais
demolidora do que sugerem os combates no campo de batalha. A lógica das
finanças mundiais mostra, há décadas, uma conexão financeira entre os países do
Golfo e os Estados Unidos. Além de comprar armas, eles aplicam os recursos de
seus fundos soberanos e riquezas familiares em títulos da dívida americana e
ações no mercado de capitais dos Estados Unidos. Mas a geração de recursos do
petróleo está comprometida neste ano e nos próximos. E mais, o turismo e os
serviços financeiros floresciam num mundo sem violência.
O fluxo de recursos do Golfo para ativos
americanos vai cessar, mas poderá ser negativo, afinal será necessário investir
em reconstrução. Quebrar a engrenagem comercial e financeira do Golfo é um duro
golpe para a supremacia americana. Agora há uma proposta de cessar-fogo na
mesa, mas os países do Golfo, sauditas à frente, parecem abandonar a posição
passiva para cobrar aos Estados Unidos que terminem o serviço, desmontando a
máquina de guerra iraniana, para restabelecer a estabilidade que os americanos
sempre prometeram.
Mesmo que vença, Trump já perdeu no que
realmente queria: demonstrar que o poder americano segue absoluto. No plano
militar, enfrenta dificuldades até contra drones de baixo custo. Na economia,
perdeu ainda mais ao fragilizar a posição do dólar, dado que várias operações
comerciais começaram a usar outras moedas. Nas finanças internacionais,
fragilizou a posição do maior financiador de títulos e ações de empresas
americanas: os produtores de petróleo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.