Correio Braziliense
A decisão do ministro do STF André Mendonça
cita a formação de organização criminosa, danos bilionários e crimes de ameaça,
corrupção e lavagem de dinheiro
A nova fase da Operação Compliance Zero,
deflagrada, ontem, pela Polícia Federal, assombra os caciques do Centrão com os
quais mantinha forte relações, porque ampliou muito o alcance político e
institucional das investigações sobre a fraude envolvendo o Banco Master. Foram
presos o banqueiro Daniel Vorcaro; seu cunhado, o empresário Fabiano Zettel;
Luiz Phillipi Mourão, o "Sicário", que estaria conduzindo
monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno
da Silva.
Segundo a Polícia Federal, o banqueiro teria encomendado ao Sicário a simulação de um assalto para intimidar o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, que teria os dentes quebrados, mas o atentado não se consumou. O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Octávio Costa, repudiou as ameaças e reiterou o papel da imprensa na cobertura do caso.
A operação atingiu diretamente o Banco
Central ao impor medidas cautelares contra dois de seus servidores de carreira:
Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização da autarquia, e Belline
Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Ambos foram afastados
de suas funções, proibidos de acessar as dependências do BC e obrigados a usar
tornozeleira eletrônica por determinação do ministro André Mendonça, relator do
inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF).
A decisão que autorizou a operação, do
ministro André Mendonça, cita a formação de uma organização criminosa, danos
bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro
e invasão de dispositivos informáticos. Vorcaro já havia sido preso em novembro
do ano passado, na primeira fase da operação, mas foi solto na sequência. Desde
então, o empresário passou a usar tornozeleira eletrônica. A defesa de Vorcaro
nega as alegações atribuídas ao banqueiro, que "sempre esteve à disposição
das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o
início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da
Justiça".
Segundo a Polícia Federal, os dois servidores
teriam atuado como consultores informais do controlador do Banco Master,
fornecendo orientações estratégicas sobre processos administrativos conduzidos
pelo próprio Banco Central. De acordo com a decisão judicial que autorizou a
operação, Paulo Sérgio Souza e Belline Santana compartilhavam informações
internas, discutiam a situação regulatória do banco e sugeriam argumentos a
serem utilizados em reuniões com dirigentes da autoridade monetária. Em troca
desses serviços, teriam recebido pagamentos indevidos intermediados por
terceiros.
Infiltração no BC
Souza revisava documentos elaborados pelo
Banco Master antes de serem encaminhados ao próprio órgão regulador. Relatórios
técnicos, ofícios e manifestações institucionais teriam sido analisados e ajustados
com sua participação. Em alguns episódios, teria antecipado ao banqueiro
questionamentos que poderiam surgir em reuniões com autoridades do Banco
Central. Souza alertou Vorcaro sobre movimentações financeiras identificadas
pelos sistemas de monitoramento do BC, o que permitiu que adotasse medidas para
reduzir riscos de questionamentos.
Belline Santana aparece na investigação como
interlocutor frequente do banqueiro em temas relacionados à supervisão
bancária. Segundo o despacho do ministro Mendonça, ele prestava consultoria
estratégica ao controlador do Banco Master, discutia cenários regulatórios,
avaliava documentos e participava de decisões relacionadas à atuação do banco
perante o órgão supervisor. Em algumas ocasiões, solicitou que determinados assuntos
fossem tratados por telefone, evitando registros escritos das conversas.
Mensagens identificadas pela Polícia Federal
reforçam a suspeita de pagamento pelos serviços prestados. Em um diálogo de
aplicativo, Fabiano Zettel pergunta a Daniel Vorcaro sobre o pagamento
relacionado a Belline. Em outra mensagem, insiste: "Belline cobrando.
Paga?". O banqueiro responde: "Claro". Para os investigadores, a
troca de mensagens indica que havia remuneração vinculada à atuação do servidor
em benefício do banco. Belline é considerado um dos especialistas mais
experientes do órgão em fiscalização bancária. Técnico de carreira, Paulo
Sérgio Souza chegou ao cargo de diretor de Fiscalização em 2017.
O Banco Central, em nota oficial, informou
que detectou sinais de percepção de vantagens indevidas durante uma revisão
interna dos processos relacionados ao Banco Master. Diante dos indícios, os
dois servidores foram afastados de suas funções e tiveram acesso aos sistemas
da autarquia suspenso, enquanto a Polícia Federal foi comunicada. O caso Master
já estressou a relação entre o sistema financeiro, o governo e o Supremo
Tribunal Federal, diante da magnitude das suspeitas de fraude e das disputas
sobre o acesso a informações sigilosas da investigação. A inclusão de dois servidores
da própria autoridade monetária no inquérito amplia o alcance institucional do
problema.
O envolvimento dos dois funcionários cria
grande constrangimento e abala a credibilidade do Banco Central. Porém, segundo
especialistas, não coloca em xeque o sistema financeiro. Nos bastidores de
Brasília, a grande preocupação mesmo é uma eventual delação premiada de
Vorcaro, diante das evidências de seu envolvimento com políticos e ministros do
STF. O banqueiro foi transferido da Polícia Federal para o Centro de Detenção
Provisória de Guarulhos (CDPG), um presídio comum. Dificilmente terá a prisão
relaxada.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.