Correio Braziliense
A institucionalização do feminismo no Brasil produziu avanços significativos na ampliação de direitos civis, trabalhistas e políticos. No entanto, a incorporação das experiências das mulheres negras nesse processo foi desigual
A narrativa consagrada sobre o Dia
Internacional da Mulher situa sua origem nas greves e marchas de operárias europeias
no início do século 20. Esse marco é historicamente relevante, mas insuficiente
para compreender a complexidade da desigualdade de gênero em sociedades
marcadas por colonialismo e escravidão. No caso brasileiro, a leitura do 8 de
Março deve considerar o dado estrutural da formação social de nosso país, a
qual é organizada pelo trabalho forçado de africanas escravizadas, que
sustentaram a economia.
A institucionalização do feminismo produziu avanços significativos na ampliação de direitos civis, trabalhistas e políticos. No entanto, a incorporação das experiências das mulheres negras nesse processo foi desigual. A intersecção entre gênero, raça e classe é elemento constitutivo da desigualdade brasileira. Políticas formuladas sob o signo da universalidade tendem a reproduzir desigualdades que pretendem combater.
Nesse contexto, trajetórias individuais
ajudam a iluminar a estrutura. A literatura de Cristiane Sobral, por exemplo,
desloca o debate para o plano simbólico sem perder o vínculo com o material. Em
Não vou mais lavar os pratos, a recusa da tarefa doméstica é contestação de uma
divisão social do trabalho que, no Brasil, tem cor definida. O poema opera como
crítica a uma ordem que historicamente confinou mulheres negras ao serviço
doméstico.
Algo semelhante ocorre no campo cultural. A
trajetória de Mestra Martinha do Coco, que iniciou a vida profissional como
trabalhadora doméstica antes de alcançar reconhecimento artístico, expõe um
padrão recorrente de mobilidade restrita e de acesso desigual aos circuitos de
legitimação cultural. Examinar quem tem acesso a esses espaços é examinar como
o Estado reconhece determinadas produções culturais como dignas de
investimento.
O mesmo ocorre com as escolhas do campo da
educação. A defesa de uma educação antirracista, como propõe Gina Vieira,
desloca o debate da esfera moral para a institucional. A maneira como meninas
negras são representadas no sistema educacional influencia suas trajetórias
acadêmica, social e profissional. O debate racial na escola revela que a
disputa é estrutural, porque decide quais narrativas serão reconhecidas como
constitutivas da história.
A escolha de exemplos do Distrito Federal não
decorre de regionalismo, mas de método. O DF concentra os Poderes da República
e sintetiza a tensão entre centralidade decisória e desigualdade social. É onde
se formulam leis de alcance nacional e onde se tornam visíveis as assimetrias
no acesso a serviços públicos e oportunidades econômicas. Isso nos permite
observar a distância entre a legislação e sua implementação. Quando mulheres
negras são sub-representadas no Congresso Nacional e em assembleias
legislativas, a consequência não é apenas simbólica. A composição dos espaços
de poder influencia a definição de prioridades orçamentárias e a forma como
problemas públicos são enquadrados.
Um desses problemas são as desigualdades
enfrentadas pelas mulheres negras, muitas vezes representadas pela imagem de
"mulher forte". Se, por um lado, reconhece-se a resistência histórica
diante da adversidade, por outro, naturaliza-se a sobrecarga e desloca-se para
o indivíduo a responsabilidade por suportar e superar condições estruturais
adversas.
Nesse sentido, a distinção entre igualdade
formal e igualdade material é particularmente relevante, porque a Constituição
consagra esse princípio, mas a efetividade dele depende de políticas públicas
sustentadas e de desenho institucional sólido. A garantia de acesso à creche,
saúde integral, proteção contra violência e inserção qualificada no mercado de
trabalho não decorre apenas da enunciação de direitos. Exige alocação de
recursos, continuidade administrativa e vontade política.
O Dia da Mulher permite avaliar se os avanços normativos foram acompanhados por transformações estruturais e se a representação política reflete a diversidade social. Mulheres negras são 28% da população brasileira, mas somos poucas ocupantes de cargos eletivos. O clamor por uma mulher negra no Supremo Tribunal Federal (STF) é reiteradamente ignorado, e, no Executivo federal, ocupamos pastas de baixo orçamento. Neste cenário de disputas eleitorais iminentes, precisamos atentar para a composição dos espaços decisórios. Se somos a maior parte da força de trabalho da base, precisamos ter maior participação nos espaços de decisão, porque a interrogação que permanece não é apenas quem governa, mas quais experiências sociais são reconhecidas como centrais na definição do projeto nacional.

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