Folha de S. Paulo
Com nova operação da PF, é razoável suspeitar
que possa existir mais gangues na finança
Regulação e fiscalização fracas e corruptos
fortes facilitaram a ramificação do crime
Reag, Master, BRB,
Fictor. Gente
do comando do grupo Fictor é investigada por ter contatos com um
Thiago de Azevedo, vulgo "Ralado", que tinha negócios com o
"Bonde do Magrelo", braço do Comando
Vermelho no interior de São Paulo. "Ralado" corrompia gente
de bancos, conseguia empréstimos para empresas de fachada e, então, quebrava ou
fechava as fachadas e sumia com o dinheiro. Um pequeno Master.
Há mais bancos, fundos e operadores financeiros de outra espécie que estejam prestando serviços para o crime ou que sejam eles mesmos máfias, como o Master?
Falamos muito de política podre, com razão,
mas há podre na finança, do descalabro na regulação e na fiscalização ao puro
crime. Essas gangues prosperaram durante os anos de expansão daquilo que se
chama vagamente de "fintechs", as muitas empresas que prestam
serviços variados na finança. "Durante" não quer dizer
necessariamente "por causa de".
A expansão das fintechs foi uma
desregulamentação, na prática. Isto
é, regulação muito mais leve, digamos, permitiu a expansão desse setor da
finança. Serviu para aumentar a concorrência, parece. Nesse ônibus,
entraram também bandidos. Como não se multavam ônibus desgovernados ou
dirigidos por gente suspeita, a audácia derivou em parte para o crime. Além de
Master e de BRB, haveria outro banco de verdade no rolo? A relação desse
ambiente de regulação e fiscalização ruim com o crime é questão nacional.
A esquerda quer pegar Roberto Campos Neto,
"RCN", presidente do Banco Central de
fevereiro de 2019 a dezembro de 2024, eleitor de Jair Bolsonaro e tarcisista. O
nascimento e a expansão de fintechs relevantes começam em 2012, 2013. A
digitalização dos tempos da epidemia deu mais impulso ao negócio. A regulação
seria arranjada, digamos, a partir de 2020. Durante o tempo em que RCN comandou
o BC, o Master floresceu e barbarizou. Logo, RCN
seria de algum modo responsável pelo escândalo, no mínimo por omissão,
segue o argumento da esquerda.
De objetivo, o que se sabe de RCN até agora é
isso: nos seus anos de BC, Master e aparentados espalharam imundície. Mas RCN e
outros responsáveis devem ser chamados a explicar como isso foi possível, para
começar uma conversa séria de investigação e reforma. E onde estava a Comissão
de Valores Mobiliários? Aliás, onde está? Continua
sem meios e à beira de ser dirigida por criatura controversa. A
Receita Federal teria tido meios e direito de pescar alguma coisa? E a
fiscalização da Previdência Complementar? Cupinchas de políticos no comando de
fundos de previdência de servidores eram amigos do Master. Parte do TCU
dedicava-se a pleitos do Master.
A
Reag era a maior administradora independente de fundos de investimento. É
acusada de prestar serviços para a gangue do Master, para empresas dos crimes
com combustíveis, talvez ligadas ao PCC. O BRB estava à beira de aceitar a
desova do cadáver do Master.
A atual direção do BC impediu que o BRB
ficasse com a carcaça falida e fraudulenta; pegou executivos do próprio BC
corrompidos por Daniel
Vorcaro. Polícia Federal e Receita tomam atitudes. Mas é muito pouco, mesmo
que o problema se restringisse a crimes financeiros. É necessária reforma de
alto a baixo e cadeia para todos os lados. Pior, pode ser que o mercado do
crime ainda esteja operante. Enquanto isso, parte da cúpula da República tenta
fugir da polícia ou acordões (no caso Master, no caso das emendas, no caso do
INSS etc.).
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