Por Ricardo Abreu, g1 e TV Globo
Documento foi divulgado nesta terça-feira (17). Ele estabelece os eixos da campanha para a reeleição do presidente Lula e marca uma guinada na linha de ação do partido.
— Brasília - A cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou nesta segunda-feira (16) uma resolução política que oficializa a mudança de postura da legenda para o ciclo eleitoral de 2026.
O documento, aprovado pela Comissão Executiva
Nacional, vai na contramão da cautela do Planalto, e coloca o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) como alvo opositor, classificando sua pré-candidatura como
uma ameaça democrática e um projeto "autoritário e antipopular".
A ofensiva ocorre em um momento em que pesquisas internas e levantamentos recentes indicam um empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro, o que acendeu o alerta entre integrantes da ala mais à esquerda do governo e dirigentes petistas.
Esse setor tem demonstrado dúvidas sobre se a
estratégia adotada até aqui, priorizando a divulgação de agendas positivas e
entregas sociais — é suficiente para alavancar a intenção de voto de Lula em
seu projeto de reeleição.
Na resolução, o PT abandona as generalizações
contra o movimento que apoia a família Bolsonaro e foca nominalmente no filho
do ex-presidente, afirmando que: "A candidatura de Flávio Bolsonaro
representa a continuidade do mesmo projeto autoritário e antipopular que o
Brasil derrotou nas urnas (...) Sua candidatura simboliza apenas a tentativa da
extrema direita de manter vivo um projeto político baseado no ataque à
democracia."
Para a cúpula petista, a vitória em 2026
depende não apenas de vencer a disputa majoritária, mas de impedir que o grupo
de Flávio domine o Legislativo. O texto define como 'condição fundamental' a
criação de uma barreira institucional no Congresso:
"Eleger bancadas comprometidas com o
povo brasileiro é condição fundamental para assegurar governabilidade,
enfrentar o poder do rentismo e da extrema direita no Parlamento."
O 'Fator Master' e o Centrão
Um dos pontos centrais da resolução é o uso
do escândalo envolvendo o Banco Master. No documento, o PT busca nacionalizar o
caso, associando a expansão da instituição ao governo anterior, de Jair
Bolsonaro, com a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central.
"Por que o Banco Central, então sob a
gestão de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, não tomou as medidas
necessárias para intervir e proteger o sistema financeiro e os recursos
públicos?"
Nos bastidores, interlocutores do partido
afirmam que a estratégia petista é associar o banco ao "bolsonarismo"
para neutralizar o avanço de Flávio nas pesquisas.
Embora o banco possua conexões históricas com
lideranças do Centrão, o texto do PT foca estrategicamente na "relação
estreita" com governadores e parlamentares da extrema direita, citando
doações de campanha e o uso de aeronaves do dono do banco por aliados da
família Bolsonaro.
O partido classifica o episódio como um
sistema de proteção a privilégios:
"Esses elementos revelam que não se
trata de um episódio isolado, mas de um sistema de relações promíscuas entre
operadores políticos, interesses financeiros e setores do Estado que protege
privilégios de poucos em detrimento do interesse nacional."
Cerco no Congresso e Faria Lima
O texto também faz um diagnóstico duro sobre
o atual papel do Legislativo. O PT acusa a influência do setor financeiro —
rotulado politicamente como "Faria Lima" — de capturar parlamentares
para travar pautas sociais e manter juros altos. Segundo a resolução, o endividamento
das famílias está diretamente ligado a esse poder:
"É fundamental estabelecer limites ao
poder do rentismo, fortalecer a renda do trabalho e dinamizar o mercado
interno, além de assegurar a redução da taxa Selic pelo Banco Central."
A resolução destaca que a eleição de uma
maioria democrática e popular no Congresso em 2026 é tratada como "questão
de sobrevivência" para o projeto petista. Nos bastidores, dirigentes
admitem que o foco no Parlamento visa neutralizar dois riscos principais:
Impeachment no STF: O receio de que um
Congresso com maioria da extrema direita avance com pedidos de deposição de
ministros da Suprema Corte, desestabilizando a atual correlação de forças.
Travamento de políticas: A percepção de que o
Orçamento e as reformas sociais estão reféns de parlamentares alinhados aos
interesses do mercado financeiro.
No documento, o PT afirma que o sucesso de um
eventual novo mandato depende de mudar a cara da Câmara e do Senado:
"Eleger bancadas comprometidas com o
povo brasileiro é condição fundamental para assegurar governabilidade,
enfrentar o poder do rentismo e da extrema direita no Parlamento e aprofundar
as transformações que o país necessita."

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