Valor Econômico
Caiado se apresenta como mais eficaz que Flávio para derrotar Lula
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, agora pré-candidato exclusivo do PSD à Presidência, definiu na segunda-feira (30) no evento do partido em São Paulo qual a linha divisória que pretende traçar na campanha para se diferenciar do senador Flavio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL: a experiência. Todo o discurso de Caiado centrou-se neste raciocínio: é ele, com seus 77 anos a serem completados em setembro, seus cinco mandatos de deputado federal, oito anos como senador e oito anos com governador, que dará ao Brasil governabilidade pela direita.
Caiado começou sua exposição contando um
diálogo que teria tido com o pai, Edenval Caiado, em 1989, quando decidiu
concorrer à Presidência na primeira eleição direta no Brasil depois da
redemocratização. O governador disse que ouviu um apelo para desistir da
aventura. O pai teria frisado que o filho, se eleito, não poderia aprender
administração no cargo mais alto da República. Precisaria subir a escada degrau
por degrau. Caiado não deu ouvidos ao pai, concorreu e ficou em décimo lugar. O
vencedor, Fernando Collor, tinha a mesma idade que ele e fez um mal governo.
“Deu no que deu”, comentou Caiado, dando razão retrospectiva ao pai. Flávio
Bolsonaro tem 44 anos e só administrou uma franquia da Kopenhagen no Rio de
Janeiro, suspeita de lavagem de dinheiro, acusação que o senador nega.
Prosseguindo no raciocínio, Caiado disse
ainda que ganhar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva “é fácil”, em uma
eleição de dois turnos. Difícil é construir governabilidade sem experiência
administrativa, de forma a que Lula “nunca mais volte”. Sobre o fato de
existirem no momento dez eleitores de Flávio para cada eleitor de Caiado,
segundo as pesquisas, o governador goiano comentou que “bolhas existem para
serem furadas”.
Caiado ao longo de sua trajetória política é
uma linha reta: é um direitista sem nuances, sem concessões ao centro, um
conservador na acepção do termo. Foi assim quando fundou a União Democrática
Ruralista (UDR) para frear a reforma agrária no governo de José Sarney, quando
ficou ao lado de Collor até o instante final no processo de impeachment em
1992, quando trabalhou pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e quando
apoiou Jair Bolsonaro em 2018. O governador goiano não tem como se deslocar
para o centro, sem trair a própria história: resta a ele tentar construir a
terceira via como uma alternativa dentro da direita.
Caiado se apresenta como mais eficaz que Flávio
para derrotar Lula
O governador goiano, neste primeiro momento,
fala aos bolsonaristas, e só a eles. Garante que apoiará a anistia aos
golpistas de 8 de janeiro e diz que ele milita no mesmo campo com a experiência
política e administrativa que Flávio não tem. Ele e o filho de Bolsonaro são
remédios para a mesma doença. Caiado diz que a sua dose é mais segura e eficaz.
Não representa mais moderação, tenta representar mais eficiência. A terceira
via que Caiado quer construir não rompe a polarização. Ao contrário, a reforça.
Quanto ao PSD, o cálculo da opção por Caiado
não parece propriamente eleitoral, mas sim político. A sigla é uma das quatro
forças que disputarão o controle da Câmara dos Deputados no próximo ano. Duas
dessas forças, o PT e o PL, são mais frágeis, porque jamais poderão combinar
entre si. As outras duas - Federação União Progressista e PSD - concorrem em
posição de vantagem porque podem fazer todas as combinações possíveis. Tanto
com os partidos da polarização nacional quanto entre si, ou com legendas
menores.
Situações regionais afastam o PSD e o PL. Em
todo Brasil, apenas em São Paulo deve ocorrer uma convergência de interesses
entre as duas siglas, em torno da reeleição do governador Tarcísio de Freitas
(Republicanos). A candidatura de Caiado, por ser de direita, abre uma porta
para uma aproximação entre o PSD e o PL, caso Flávio Bolsonaro confirme o
favoritismo que se desenha nas pesquisas e vença o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva em outubro. Essa aproximação com certeza aconteceria no segundo turno,
mas pode se dar ainda no primeiro turno, desde que seja nos próximos três
meses. A história brasileira tem muitos precedentes de candidaturas retiradas
durante o processo eleitoral. Uma vez passado o prazo das convenções nacionais,
não há registro de recuos.

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