O Globo
Na reunião de emergência do Conselho de
Segurança da ONU, apenas três países condenaram os EUA e Israel pelo ataque:
Rússia, China e Somália
A guerra no Oriente Médio arde. Ao iniciar sua quarta semana de combustão, pode dar a impressão de ter expansão errática, moto próprio e embaralhar nossa percepção de quem é o agressor, quem é o agredido. Em benefício dos fatos concretos, convém eliminar qualquer manipulação ideológica: foram os Estados Unidos e Israel que escolheram atacar o Irã dos aiatolás, ponto. As consequências históricas decorrentes dessa opção deverão ser cobradas de seus respectivos líderes, Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Importa pouco se o ocupante da Casa Branca foi ou não arrastado por “Bibi” para deslanchar a ofensiva — Trump abraçou a aventura com doses iguais de “fúria épica” (nome da operação) e leviandade. A jornalista e historiadora Anne Applebaum acerta quando escreve na revista The Atlantic que o 47º presidente americano simplesmente não sabe pensar — nem estratégica, nem histórica, geográfica ou racionalmente.
A gravidade de ter no Salão Oval um espécime
desprovido de senso de responsabilidade se traduz em seu linguajar doentio. Na
sexta-feira, quando mísseis e drones iranianos já tinham expandido para 11
nações da região sua retaliação ao ataque sofrido, Trump anunciava em devaneio:
“Estamos indo superbem no Irã. A Marinha deles está liquidada, a Força Aérea
está liquidada, os radares também. Seus líderes estão liquidados, o segundo
escalão também, e o escalão seguinte está quase liquidado”. Recorre à zombaria
para aludir aos assassinatos cirúrgicos que decapitaram o poder em Teerã:
“Estamos com dificuldade em conversar [sobre paz] com eles porque não há com
quem falar. Ninguém mais quer ser líder por lá. Ninguém”.
Talvez. Mas alguém no Irã ainda consegue
lançar ataques a mais de 25 bases militares americanas no Oriente Médio, fechar
o Estreito de Ormuz e fazer disparar sirenes em Haifa, Tel Aviv, Jerusalém e na
Cisjordânia ocupada por Israel. Por via das dúvidas, os Estados Unidos também
preparam unidades da 82ª Divisão Aerotransportada, especializada em ataques
paraquedistas, como eventual reforço, e o Departamento de Estado oferece
recompensa de US$ 10 milhões para informações sobre figuras-chave da Guarda
Revolucionária Islâmica.
Na reunião de emergência do Conselho de
Segurança da ONU, convocada para o mesmo 28 de fevereiro da deflagração da
guerra, apenas três países condenaram os Estados Unidos e Israel pelo ataque:
Rússia, China e Somália. Detalhe: dos dez membros não permanentes com mandato
de dois anos, nove abrigam bases militares americanas em seu solo. Não
surpreende, uma vez que a superpotência tem bases em 80 nações do planeta. Na
Somália, não. Nem pretende ter tão cedo. Apesar de miserável e eternamente convulsionada
por guerras intestinas, o marginalizado país africano é sinônimo de trauma para
o estamento militar americano. Um trauma que já dura 33 anos.
A batalha fazia parte da operação Serpente
Gótica e foi desencadeada na manhã de 3 de outubro de 1993. Tinha por missão
capturar dois oficiais do general Mohamed Farrah Aidid, que derrubara o ditador
de plantão e era procurado por combater a presença de tropas da ONU no país. A
operação contava com o deslocamento de 19 aeronaves, veículos terrestres e 160
soldados de infantaria aquartelados na periferia da capital, Mogadíscio.
Segundo o plano original, a coisa se resolveria em 30 minutos. Paraquedistas da
Força Delta desceriam de três helicópteros Blackhawk no local visado,
capturariam os alvos e reembarcariam com eles a bordo.
Deu tudo errado. No momento da partida, um miliciano somali disparou um foguete lança-granadas (RPG) e atingiu um dos helicópteros, que se estatelou na rua. Minutos depois, outro disparo derrubou um segundo helicóptero. As equipes da Força Delta se viram cercadas, encurraladas, imobilizadas, quase sem munição em pleno centro urbano, para onde acorriam centenas de milicianos e somalis armados. Seguiram-se 18 horas de combates alucinantes até a força-tarefa americana conseguir desfazer o cerco. No chão, 18 companheiros de farda mortos, 75 feridos e a humilhação nacional de vê-los arrastados como troféus pelo inimigo. O episódio rendeu livro, filme e levou o presidente Bill Clinton, que à época ocupava a Casa Branca, a ordenar a retirada de tropas, sacramentando o fracasso tático e político da missão. Deveria ter ficado entendido que intervenções terrestres em cenários complexos e hostis, ou combates urbanos sem apoio combinado, acabam mal para o agressor.

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