quarta-feira, 11 de março de 2026

Um laranja de chapéu-panamá, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em 2022, Jair Bolsonaro teve a ajuda de um candidato laranja. Era Kelmon Souza, um baiano que se dizia padre pela Igreja Ortodoxa do Peru. Em 2026, Flávio Bolsonaro deve contar com outro adversário de mentirinha. É Aldo Rebelo, ex-ministro dos governos Lula e Dilma.

Aldo é um caso curioso de metamorfose política. Após quatro décadas no PCdoB, trocou a foice e o martelo pela motosserra. Renegou o passado de esquerda e virou porta-voz de latifundiários, garimpeiros e desmatadores da Amazônia.

Para ser aceito no novo clube, passou a atacar o Supremo e defender anistia aos golpistas. Foi recompensado com uma boquinha na gestão de Ricardo Nunes, o prefeito bolsonarista de São Paulo.

Em janeiro, o ex-ministro se lançou pré-candidato ao Planalto. Até aqui, não foi capaz de empolgar as massas. Ele aparece em último lugar em todos os cenários testados pelo Datafolha, com 2% das intenções de voto. Fica atrás até de Renan Santos, o youtuber do MBL.

Fora do páreo, Aldo parece cumprir tarefa como linha auxiliar do bolsonarismo. Na semana passada, usou uma entrevista para fazer ataques a Lula (“amargurado”), Marina Silva (“uma tragédia”) e o PSOL (“atrapalha qualquer governo”).

Instado a apresentar propostas, ele sugeriu aumentar o número de ministros do Supremo. A ideia não é boa nem nova. Já foi testada pela ditadura para subjugar o Judiciário e facilitar a tomada de medidas de exceção.

Deputado por seis mandatos, Aldo chegou à presidência da Câmara como substituto de Severino Cavalcanti. Sua carreira parlamentar é mais lembrada por lances folclóricos, como as tentativas de proibir o uso de palavras estrangeiras e de criar o Dia Nacional do Saci. Há quatro anos, ele tentou voltar à tona como senador por São Paulo. Terminou em sétimo lugar, com 1% dos votos.

Rejeitado nas urnas, o Policarpo Quaresma das Alagoas também tem penado para estacionar num partido. Desde que saiu do PCdoB, já rodou por PSB, Solidariedade, PDT e MDB. Agora aproveitou a aposentadoria do veterano José Maria Eymael para se filiar ao Democracia Cristã.

Em 2022, Kelmon causou espanto ao ir aos debates de batina e crucifixo. Terminou a eleição com o apelido de “padre de festa junina”. Mais discreto, Aldo adotou outro figurino para o papel de candidato laranja. Tem circulado de paletó e chapéu-panamá.

 

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