O Estado de S. Paulo
A desancoragem das expectativas de inflação é
ameaça que paira sobre a decisão do Copom
Paira uma ameaça iminente sobre a decisão do Copom de hoje: a desancoragem das expectativas de inflação. A esmagadora maioria dos analistas aposta em um corte de 0,25 ponto porcentual da taxa Selic, para 14,50%, mas o que está em jogo é o que o Banco Central irá sinalizar no comunicado sobre os próximos passos da política monetária. O tom da mensagem será decisivo para interromper ou não a piora recente nas projeções de inflação para 2026 e 2027.
O impacto da guerra no Irã – a disparada no
preço do petróleo e de outros insumos importantes, como fertilizantes –
contribuiu para o salto nas estimativas para o IPCA deste ano, contaminando,
por tabela, as previsões para 2027. Na semana que antecedeu o início do
conflito no Oriente Médio, a pesquisa Focus mostrava uma projeção de 3,91% para
a inflação deste ano. Agora, essa estimativa subiu para 4,86%, acima do teto da
meta perseguida pelo BC. E essa é a mediana das previsões. Há quem projete
inflação acima de 5% em 2026. Para 2027, a expectativa subiu de 3,80% para
4,0%.
Sem falar que a inflação corrente vem
surpreendendo para cima, mesmo com os analistas já esperando maior pressão dos
preços de combustíveis. O IPCA de março, que subiu 0,88%, superou até a
projeção mais pessimista do mercado para o mês (alta de 0,82%).
O IPCA de fevereiro (alta de 0,70%) também
veio pior do que o consenso do mercado e perto do teto das projeções (de
0,72%). Ou seja, dois meses de números muito ruins dos índices de preços.
É bom lembrar que, na sua última reunião, em
março, o Copom foi criticado por ter sido bastante tímido na sua projeção de
inflação para o horizonte relevante da política monetária, o terceiro trimestre
de 2027. Esse número foi revisado de 3,2% para apenas 3,3%. Há, agora, uma
ansiedade do mercado em relação a uma revisão maior dessa projeção de IPCA.
Aliás, a expectativa de inflação do Copom para 2026 também está bem defasada:
3,9%. Outro ponto de atenção é como será a avaliação do BC sobre a atividade
econômica, cujos dados no primeiro trimestre do ano vêm apontando para uma
reaceleração – ao contrário da visão do Copom na última reunião.
Assim, não há outra opção a não ser uma mensagem mais dura no comunicado, incluindo a projeção de inflação e a avaliação sobre o ritmo da economia. Isso vai dar pistas sobre o tamanho total do ciclo atual de corte de juros. O mercado prevê a Selic em 13% ao fim do ano. Mas a esse nível, as projeções de IPCA seguem acima da meta na pesquisa Focus. Na briga pelas expectativas, quão duro precisará ser o Copom?

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