Folha de S. Paulo
Não tem sido fácil cumprir as ambiciosas
promessas da democracia
Orbán inspirou líderes populistas e
autoritários como Trump, Erdogan, Modi e Bolsonaro
Democratas ao redor do mundo foram tomados
por enorme euforia com a derrota de Viktor Orbán nas
eleições desta semana na Hungria, após
16 anos no poder. A ascensão de Orbán, em 2010, interrompeu a chamada
"terceira onda de democratização", desencadeada pela Revolução dos
Cravos, em 25 de abril de 1974, a partir da qual dezenas de países ao redor do
mundo transitaram para a democracia.
A democratização de países como Argentina, Chile, Brasil, Polônia, Hungria ou África do Sul não se limitou a almejar o estabelecimento de eleições livres e competitivas. Como contraposição à crueldade, à tortura, à censura, ao racismo ou ao arbítrio, inerentes aos regimes autoritários que sucederam, o Estado de Direito, os freios e contrapesos e os direitos humanos tornaram-se elementos constitutivos das novas democracias constitucionais.
Não tem sido fácil cumprir essas ambiciosas
promessas da democracia. Mesmo as chamadas democracias consolidadas têm sofrido
reveses. Apesar dos avanços, o aumento da desigualdade, a precarização das
relações de trabalho, as sucessivas crises econômicas, além das dificuldades em
lidar com temas como imigração e criminalidade, passaram a contribuir para a
ampliação da desconfiança na capacidade das instituições democráticas de
resolver os problemas da população.
Nesse contexto, populistas antissistema
passaram a ter enorme apelo eleitoral. Eleito em 2010, Orbán degradou a
democracia constitucional estabelecida após o fim do regime soviético.
Restringiu direitos de minorias, capturou os meios de comunicação, alterou
regras eleitorais em favor de seu partido, subordinou o Poder Judiciário e
desafiou a União
Europeia com o objetivo de implementar o que chamou orgulhosamente de
"democracia iliberal". Tornou-se, assim, fonte de inspiração para
outros líderes populistas autoritários e antissistema, como Trump, Erdogan, Modi e
Bolsonaro.
Populistas e mesmo alguns pesquisadores
hiperqualificados têm colocado em dúvida a existência de uma onda de regressão
democrática, apontada por diversos relatórios globais, como o V-Dem ou o
Freedom House. Alegam que a eleição de líderes de extrema direita não leva
necessariamente à erosão da democracia, tanto que em muitos casos, como o da
Hungria nesta semana, os chamados autoritários, uma vez derrotados,
reconheceram os vitoriosos e voltaram para a oposição.
Embora isso não tenha ocorrido nos Estados
Unidos em 2021 e no Brasil em 2023, as instituições foram capazes de recolocar
a democracia nos trilhos, demonstrando-se extremamente resilientes. Assim, não
haveria o que temer.
Penso que os exemplos de resiliência não
desqualificam a preocupação com os processos de degradação da democracia, mesmo
quando algum grau de competição eleitoral é mantido. As restrições aos direitos
humanos e a fragilização do Estado de Direito e do sistema de freios e
contrapesos apontam para um declínio da qualidade da democracia, como propunha
Guillermo O´Donnell.
Mais do que isso, vícios políticos
inaceitáveis, como a crueldade, voltaram a aflorar como política governamental,
tanto no plano doméstico como no internacional. A desumanização de imigrantes,
de grupos vulneráveis e da população civil, em caso de conflitos armados,
demonstra que não mais se busca encobrir com o manto da hipocrisia retórica a
crueldade e o arbítrio como política de Estado: "Uma civilização inteira
morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitada".
Se isso não é degradação da democracia
constitucional, o que será?
Minha homenagem ao meu ídolo Oscar Schmidt
*Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes, 2023)

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