segunda-feira, 6 de abril de 2026

A guerra e a História, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Pensar a História descartando a guerra como categoria de pensamento e como forma da natureza humana é um luxo que não mais podemos nos dar

Pensar a guerra, eis uma tarefa primordial de nosso tempo. Tempo de profundas transformações, em que o arcabouço vigente desde a 2.ª Guerra Mundial está desmoronando a olhos vistos. O que valia começa a cessar de valer, com os referenciais geopolíticos explodindo. Os interesses dos Estados, sobretudo os mais poderosos, simplesmente se afirmam enquanto tais, com os demais devendo se acomodar a essa nova situação. Trilhar a diplomacia num contexto desse tipo exige grande habilidade, quando não o silêncio, diante de circunstâncias que são incontornáveis. De nada adianta, como faz a diplomacia lulista, confrontar retoricamente Trump se não tiver força para fazer valer a sua posição. O Brasil será apenas o grande prejudicado.

Ocorre que os referenciais que estão explodindo são os de um pensamento que expressava uma época que está deixando de existir. O mundo geopolítico tal como o conhecemos recolocou como problema central a questão da guerra, quando muitos achavam que ela estava deixando de ser uma questão. Ingenuidade de pensamento certamente, mas fruto, entretanto, de uma realidade em que a paz parecia se impor. Paz entendida como ausência de guerra, como se a violência entre os Estados pertencesse a uma época revoluta.

Chegou-se a protagonizar o fim da História, como se a era liberal fosse um estágio final da História, doravante voltada à satisfação material dos Estados que tinham conseguido chegar a uma ordem democrática capitalista. Os Estados, doravante, estariam voltados para o contentamento de seus cidadãos e, em relação aos outros Estados, os contenciosos seriam resolvidos por relações comerciais frutíferas para todos. No início do século 19, Benjamin Constant, um pensador liberal francês, já afirmava que a guerra se tornaria desnecessária, visto que a destruição de exércitos entre si e as mortes daí decorrentes nada aportariam de positivo. Mais ainda, seriam perniciosas ao comércio que tudo poderia equacionar com menores custos.

Parafraseando Clausewitz, segundo o qual “a guerra seria a continuação da política entre Estados por outros meios”, poderíamos dizer que o “comércio doravante seria a continuação da política entre Estados por outros meios”. Observe-se que Clausewitz não afirmou que a guerra seria a continuação da política por outros meios, somente a política entre Estados. Logo, a guerra não seria a prolongação da política partidária, por exemplo, por outros meios. Clausewitz, general prussiano, contemporâneo de Hegel e leitor de Kant, apresentava-se não somente como estrategista militar, mas como “filósofo da guerra”. E a considerava como um fato de história que deveria ser pensado enquanto tal.

Tratava-se, todavia, de uma reflexão arrojada para a sua época e, talvez, para além dela, pois o pensamento que então se afirmava estava alicerçado na ideia de que a História teria uma finalidade, a ser realizada num Estado ou numa sociedade melhores, seja a ideia da liberdade, segundo Hegel, ou a ideia de um Estado comunista, segundo Marx. As categorias que aí emergiram estavam estruturadas conforme essa ideia de finalidade atribuída à História, condicionando concepções e comportamentos. Do ponto de vista geopolítico, isso fez com que lideranças políticas e pensadores cessassem de pensar a guerra e, se o fizessem, seria para lhe atribuir uma posição de segundo plano.

Isso fez com que Freud e Einstein, quando interrogados sobre o fenômeno da guerra, tendo como pano de fundo a 1.ª Guerra Mundial – antes, portanto, da 2.ª –, se sentissem desnorteados. Como falar da guerra, escreviam em sua correspondência, quando foram formados segundo a ideia de uma Aufklärung, de esclarecimento, de perfil alemão. A humanidade estaria entrando num movimento progressivo, de alta cultura, de comportamentos morais e de satisfação material dos povos que estariam trilhando esse caminho. Diante do alto morticínio da 1.ª Guerra, se confessaram literalmente perplexos, apenas elaborando algumas hipóteses, no caso de Freud, a ideia que formaria posteriormente segundo a qual, na natureza humana, convivem uma pulsão de vida, Eros, e uma pulsão de morte, Tânatos.

A cultura e a sociedade, em geral, podem, portanto, fazer com que Eros impere segundo certas organizações políticas, não se podendo descartar que Tânatos também imponha a sua dominação como no totalitarismo comunista, no nazista e no terror islâmico. Em todo caso, a História não teria um curso assegurado, tudo dependendo do “esclarecimento” humano e de seus regimes políticos e valores. A guerra não somente expõe o fim de uma certa concepção de História como exige dos desavisados e dos líderes políticos e militares que a pensem. Pensar a História descartando a guerra como categoria de pensamento e como forma da natureza humana é um luxo que não mais podemos nos dar. 

*Professor de filosofia na UFRGS

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