Folha de S. Paulo
Nação mais poderosa do mundo é conduzida por
um desvairado
Ao contrário das autocracias, democracias têm
recursos para conter aspirantes a ditadores
Não poderia ter acontecido, mas aconteceu. A
nação mais poderosa do planeta passou a ser conduzida por um desvairado. A
lista dos desatinos de Donald Trump é
estarrecedora. No plano interno, desorganizou a administração pública;
desencadeou o terror contra os imigrantes; ameaçou as melhores universidades;
pôs em xeque a pesquisa científica; chantageou a mídia e espalhou a incerteza
sobre o que está por vir.
Já no plano externo, virou de ponta-cabeça o comércio mundial; tratou aliados como inimigos; ameaçou anexar nações soberanas; invadiu a frio uma, a Venezuela, e sequestrou seu ditador; iniciou a guerra que incendeia o Oriente Médio; xingou o papa.
Agora, perpetrou mais um ato que lhe daria
direito a uma camisa de força: na segunda-feira (13), estampou na rede Truth
Social uma imagem produzida por IA em que paira fantasiado de Cristo benzendo
um doente.
Ao contrário das autocracias, os regimes
democráticos contam com recursos para conter aspirantes a ditadores —menos, ou
mais, doentes da cabeça. São os famosos freios e contrapesos institucionais e
sociais —entre eles, o impeachment—
e eleições. Todos, porém, têm seus limites. E o que o mundo civilizado, embora
estarrecido, assiste nos EUA é a um grande experimento das possibilidades e
limitações desses instrumentos de contenção.
Freios e contrapesos erguem barreiras ao
poder discricionário do governante eleito. Ganham vida nas prerrogativas do
Legislativo e do Judiciário; na existência de organismos independentes de
supervisão e controle; nas atribuições de governos subnacionais em sistemas
federativos. Ganham forma também na existência de uma imprensa livre e plural,
de redes sociais críticas ao governo e de organizações autônomas da sociedade
civil. Mesmo sob Trump, os EUA contam com freios e contrapesos sociais
azeitados: basta ver as manifestações de massa sob a bandeira do "No
Kings"; as redes de solidariedade que tratam de proteger os imigrantes; a
imprensa livre e a batalha diária nas universidades para assegurar a liberdade
de pensamento.
Já os mecanismos institucionais vêm mostrando
limitada eficácia. Os tribunais inferiores têm conseguido reverter muitas das
iniciativas da Casa Branca, mas a Corte Suprema, de maioria republicana, pouco
fez. Dentro de suas fronteiras, governadores democratas são voz sonora e escudo
de proteção contra os desmandos da burocracia trumpista. Mas a maioria
republicana no Congresso bloqueia qualquer medida mais contundente
—especialmente o recurso extremo do impeachment.
Eleições livres e limpas, embora não tendo
barrado a ascensão de Trump, são uma possibilidade de contê-lo, se os
democratas obtiverem maioria no Senado no fim do ano; ou de abreviar sua estada
no poder, se forem criadas condições para impeachment; ou ainda a oportunidade
despachá-lo no fim do mandato.
Na contramão do pessimismo sobre o destino da
democracia, eleições têm sido um caminho para derrotar populistas autoritários.
Aconteceu no Brasil, na Polônia e, agora, na Hungria. Podem
ser também o caminho para livrar o mundo de quem, mesmo não sendo a divindade
que delira ser, pode nos levar ao armagedon.

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