Valor Econômico
Alguns integrantes do STF se arriscam a dizer
que o que se avista no horizonte pode ser um tsunami
Do alto do anexo do edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, onde estão instalados os gabinetes dos ministros do STF, é fácil perceber para onde vão os ventos da política e se eles estão formando alguma onda.
Na natureza, a mecânica é conhecida. Quando o vento sopra, exerce um atrito na superfície do mar que transfere energia para as partículas de água. Pequenas ondulações se formam, as quais crescem e viram ondas maiores de acordo com a força e a constância do vento, até que o mar fica raso. A parte de baixo da água desacelera, e a de cima continua rápida. Como resultado, a onda fica instável e “quebra”, fazendo a alegria dos surfistas e gerando pavor entre os que não sabem nadar.
Para um ministro do STF, diferentemente do
que ocorreu nos pleitos de 2018 e 2022, a eleição para presidente deste ano não
será ditada por alguma “onda” arrebatadora. Portanto, acrescenta, deve-se
esperar um maior debate sobre propostas. Mas isso não quer dizer que o
Judiciário irá se livrar do escrutínio que os candidatos de direita pretendem
fazer sobre sua atuação, sobretudo com o objetivo de eleger um maior número de
senadores.
A eleição de 2018 foi marcada por uma onda
anticorrupção. Chegou vencedor à praia o ex-presidente Jair Bolsonaro, um
militar reformado que acumulou polêmicas durante o período em que foi deputado
federal, mas que soube catalisar por meio das redes sociais a insatisfação da
população com o PT e a política tradicional.
A onda de 2022 foi na direção oposta. Além de
mobilizar os eleitores que demonstravam receio com os ataques do então
presidente às instituições e à democracia, sua principal característica foi a
rejeição ao modo com o qual Bolsonaro lidou com a pandemia de covid-19. Os
familiares e amigos dos cerca de 700 mil mortos pelo coronavírus jamais
perdoariam Bolsonaro e isso se refletiria nas urnas. Não faltaram alertas de
ministros ao então presidente sobre a onda que estava se formando.
Poucas semanas antes do primeiro turno, cerca
de metade do eleitorado o rejeitava, após esse índice alcançar patamares
recordes em 2021. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surfou a onda e
ainda conseguiu reunir uma frente ampla contra a reeleição de Bolsonaro, a
qual, registre-se, acabou perdendo força e espaço ao longo do mandato.
Hoje, é Lula quem tem dificuldades de
convencer o eleitor de que merece receber um quarto mandato.
Integrantes da equipe econômica chegaram a
falar de uma proposta de reformulação dos programas sociais federais: a nova
arquitetura, que ainda não havia sido submetida ao presidente Lula, prevê uma
fusão de benefícios. Poderia proporcionar uma renda básica a uma parcela
considerável da população, num momento de crescimento da informalidade e
dúvidas sobre o impacto da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho,
e, ao mesmo tempo, abrir espaço para a implementação de mecanismos que
desacelerem o crescimento de despesas obrigatórias. No entanto, não se falou
mais no assunto.
A defesa da soberania tende a ser uma
importante bandeira, levantada já desde a época do tarifaço imposto pelos
Estados Unidos. E outra promessa que deve ganhar corpo na campanha petista é a
tarifa zero para transporte urbano. É pouco.
Confirmado pré-candidato, Ronaldo Caiado
(PSD) adotou como estratégia anunciar de largada que irá anistiar todos os
condenados por golpe de Estado, justamente com o objetivo de abrir caminho para
defender propostas temáticas e fugir de um assunto que exerce papel central no
movimento de polarização política protagonizado por PT e PL. Além de segurança
pública, ele sinalizou também que quer expor suas ideias sobre inteligência
artificial, por exemplo.
Do lado de Flávio Bolsonaro, a cúpula do PL
trabalha há meses em um programa de governo. Fontes comentam que já existem
propostas setoriais para biotecnologia, IA, regulação e educação. Nos
bastidores, aliados do senador afirmam ter as minutas de aproximadamente 800
decretos que seriam editados nos primeiros dias de governo. Para integrantes da
pré-campanha de Flávio, porém, três temas serão determinantes para o desfecho
da eleição: segurança pública, inflação de alimentos e corrupção. Em relação a
este último assunto, inclusive, a expectativa é que as declarações de Flávio
Bolsonaro e seus porta-vozes mirem o Supremo.
Não seria exatamente uma novidade a oposição
atacar o STF. Agora, contudo, a tática vai além: a intenção é colar a imagem de
Lula à do Supremo, em meio aos desdobramentos do caso Master, uma vez que
Executivo e Judiciário jogaram juntos muitas vezes a partir de janeiro de 2023.
Esta onda, aliás, ministros do Supremo já
conseguem antever. E alguns integrantes do STF se arriscam a dizer até que, na
verdade, o que se avista no horizonte pode ser um tsunami.
Para um magistrado, a tensa sessão plenária realizada na semana passada ocorreu diante do receio dos potenciais impactos desses fenômenos na Corte. Por ampla maioria, a decisão de André Mendonça de prorrogar a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS à revelia do presidente do Congresso foi derrubada, sinalizando uma disposição do Tribunal de transpor o discurso de “autocontenção” à prática. Mas as falas dos ministros expuseram as profundas rachaduras já existentes nas relações entre o Judiciário e o Parlamento. A oposição só está esperando a onda “quebrar” para surfá-la.

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