O Estado de S. Paulo
Relevante é um olhar à estratégia em que se conjuguem o desejar e o agir, posto que um sem outro pode redundar em mera perda de tempo
Um mestre do planejamento no Brasil acaba de lançar um livro de referência sobre o tema. Em A Prática da Estratégia, Claudio Porto reúne conceitos fundamentais, dicas e um passo a passo para implementação de iniciativas e estudos de caso – nacionais e internacionais –, a partir de sua experiência de mais de meio século como estudioso e consultor nessa área. Na apresentação, o autor assinala que “o livro foi escrito para pessoas que protagonizam a construção do futuro de algo de interesse comum”. Esses “agentes podem se organizar como entes privados, públicos ou híbridos, formais ou informais”, tendo um “futuro desejado em comum e não efêmero”. Nesse contexto, a estratégia “é o produto ou o instrumento dos agentes para orientar e fazer a construção do futuro que eles desejam”.
Já de começo, ao conjugar numa mesma frase
verbos aparentemente tão distintos como construir e desejar – um, afeito à ação
racional e o outro, vocação para a inspiração, a criatividade e a inventividade
–, bem se percebe a sabedoria em forma de texto, amalgamando razão e
sensibilidade. Como um convite à leitura, compartilho mais alguns trechos que
ilustram a clareza e o saber que só os mestres podem alcançar. Acerca do
conceito de estratégia que, nestes tempos de especialistas da internet, se
multiplica tão grosseiramente quanto velozmente, Claudio Porto ensina com
lucidez e perspicácia.
“Estratégia é uma tríade que articula
antecipação, escolha e ação por parte de um agente intencional, inserido em um
contexto mutante, para um horizonte de longo prazo e sempre sob condições de
incerteza. Essa tríade, quando integrada por um esforço de gestão deliberado e
conduzido por uma liderança inspiradora, focada e agregadora, tem maiores
chances de produzir e entregar, por parte do agente, um desempenho superior e
sustentável no longo prazo.” E ainda: “Estratégia é um instrumento humano,
empregada por agentes intencionais – empresas, governos, organizações sem fins
lucrativos, líderes, comunidade, partidos políticos e/ou grupos de pessoas –
para influenciar a construção do futuro desejado em um determinado campo de
interesse. Toda estratégia envolve um conjunto de agentes e seus contextos (ou
ambientes), externo e interno, e deve ser constituída por dois ingredientes
essenciais: visão de futuro e intencionalidade.”
Tenho a honra de participar do livro, generosidade
que agradeço ao admirável Claudio Porto, em dois momentos. No capítulo sobre
“Escolha”, o autor relata o caso “Espírito Santo: da submissão ao crime
organizado a estado mais pujante do Sudeste”. Aqui, Porto conta a virada
histórica que, a partir das eleições de 2002, com intensa mobilização da
sociedade civil, pudemos liderar no sentido de livrar as terras capixabas dos
grilhões da criminalidade que sombreava os poderes e ainda criar um ambiente de
estabilidade político-institucional que fomentou um novo tempo de
desenvolvimento socioeconômico na trajetória capixaba.
Também participamos no capítulo sobre
“Gestão”, fator crucial no planejamento: “Sincronizar e coordenar a
antecipação, a escolha e a ação – na substância e na alocação de
responsabilidades (sempre especificando quem faz o quê) – em tempo hábil
(determinando claramente os prazos), dedicar-se à execução da trajetória
originalmente planejada, ajustá-la quando necessário e, necessariamente, manter
o rumo é o que possibilitará entregar os resultados almejados”.
No caso narrado – “Paulo Hartung: Gestão de
sinais e pragmatismo” –, Claudio Porto fala do nosso primeiro encontro, no
início do primeiro dos meus três mandatos à frente do Executivo estadual
(2003-2010 e 20152018). E considera o que se seguiu: “Uma história de sucesso
construída com muito trabalho, entusiasmo, energia, foco e método”, e que
“ganhou impulso e visão de futuro de longo prazo com a elaboração do Plano de
Desenvolvimento Espírito Santo 2025”. Mas, com seu olhar estratégico, Porto
alerta: “Nos últimos tempos, porém, o ímpeto do Espírito Santo arrefeceu. (...)
O ímpeto e a agenda predominante estão presos ao século 20. Creio que um novo
impulso no Espírito Santo só deverá ocorrer com uma mudança de geração e do
mindset de suas lideranças. A conferir”.
A Prática da Estratégia já nasce
verdadeiramente com um clássico – na definição de Italo Calvino –, aquele livro
“que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”.
Incompatível aqui é a temporalidade do instantaneísmo e que, por isso mesmo,
refuta o futuro como horizonte passível de formulação e conquista.
Como o futuro é uma dimensão concreta da
existência e que resiste às decretações de seu fim, diante do imperativo
inclemente do agora, o planejamento estratégico mantém-se como “ruído” mais que
relevante, inclusive pelo desprezo e irresponsabilidade com que esta nossa
sociabilidade prisioneira do instante o trata.
Especialmente relevante é um olhar sobre a
estratégia em que se conjuguem o desejar e o agir, posto que um sem outro pode
redundar em mera perda de tempo e tudo o mais de prejuízo que tal desperdício
enseja. Em tempos de liquidez desnorteante e inconsequência política
atordoante, Claudio Porto ensina com maestria o caminho para se vislumbrar,
projetar e conquistar horizontes desejados.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.