O Globo
Tentar ler numa pesquisa de abril o
comportamento do eleitorado em outubro é pouco mais que um exercício de
quiromancia, sobretudo quando a Genial/Quaest registrou que há 62% de
indecisos.
Há meses, todas as pesquisas trazem notícias
ruins para Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o, (42% x 40%)
dentro da margem de erro e em um cenário estimulado. O sabor amargo dessa
pesquisa está na rejeição. Lula tem 55% e Flávio tem 52%, novamente dentro da
margem de erro.
A terceira via tem dois candidatos: Romeu Zema, o ex-governador de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás. No cenário de uma disputa do segundo turno, Lula patina na faixa dos 40%, enquanto os dois têm leve viés de alta. Zema tem 36% e Caiado, 35%.
Não se pode cravar, mas a terceira via parece
existir. Zema e Caiado vieram de governos bem avaliados. O mineiro com 47% e o
goiano com 85%. Eles precisam pescar seus votos entre os indecisos e os 42% que
estão com Flávio Bolsonaro. Como sua experiência administrativa, ele limitou-se
à gestão de um sobrenome e de uma loja de chocolates. A campanha pode
favorecê-los.
A ventania das campanhas eleitorais desarruma
previsões baseadas só em pesquisas. A sabedoria convencional trabalha com a
hipótese de um segundo turno entre Lula e Flávio, mas em 1989 aguardava-se um
segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola. Em agosto, Lula tinha
apenas 5% das preferências, com viés de queda. Em setembro, ele chegou a 16%,
ultrapassando Brizola. Dois meses depois, Lula foi para o segundo turno, quando
viria a ser batido por Fernando Collor.
(Naquela eleição, Ronaldo Caiado disputou
pela primeira vez a Presidência e acabou em 10º lugar, com 0,72% dos votos).
Sidônio na frigideira
Assim como aconteceu com seu antecessor, os
ventos da opinião pública sopram contra o Planalto e a responsabilidade é do
ministro da Comunicação Social, o marqueteiro Sidônio Palmeira.
Pensando bem, é para isso que serve o
ministro da Secom.
BC e o BRB
O Banco Central pode ter demorado para agir
sobre o Master, ou não. Uma coisa é certa, o BC não agiu a tempo sobre o Banco
Regional de Brasília, que funcionava como vaca leiteira de Daniel Vorcaro.
O presidente do BRB ao tempo de Vorcaro devia
ter sido preso há mais de um ano.
Um canalha americano
Sai em setembro nos Estados Unidos “Canalha
americano — A Jornada Sombria de Roy Cohn, de Joe McCarthy a Donald Trump”.
Pelo autor, Kai Bird, e pelo personagem, tem tudo para ser um grande livro.
Bird escreveu a saga de Robert Oppenheimer
que serviu de base para o filme sobre o pai da bomba atômica americana. Antes,
ele havia escrito “The Chairman”, uma biografia de John McCloy (1895-1989), o
filho de uma cabeleireira, que se tornou a encarnação do andar de cima dos EUA.
Advogado e banqueiro, foi conselheiro de todos os presidentes de Franklin
Roosevelt a Ronald Reagan. McCloy passou por Pindorama no final de fevereiro de
1964, defendendo os interesses da mineradora Hanna e esteve com o presidente
João Goulart.
A jornada sombria de Roy Cohn começou em
1952. Como promotor, ele mandou para a cadeira elétrica um casal acusado de
espionar para a União Soviética. Daí, tornou-se a alma danada das investigações
do senador Joseph McCarthy (Na sua equipe estava o jovem Robert Kennedy).
Depois da ruína de McCarthy, Cohn submergiu,
advogando em Nova York. Jogando pesado, com uma estampa amedrontadora, dada por
um par de olhos azuis e uma enorme cicatriz no nariz, meteu-se em extorsões e
acabou perdendo a licença para advogar. Entre seus clientes estavam mafiosos,
padres e magnatas do mercado imobiliário. Entre eles, Donald Trump, que fez de
Cohn uma espécie de tutor, com telefonemas diários. Trump agradou-o
presenteando-o com uma abotoadura de brilhante da Bulgari (falsa).
Cohn morreu aos 59 anos, de câncer (segundo
ele) e de complicações da Aids (segundo os prontuários médicos). A última
pessoa com quem ele falou, ao telefone, foi Donald Trump.
Trump e os delinquentes
Donald Trump repete que muitos imigrantes sem
papéis são delinquentes e devem ser deportados.
Tudo bem, mas o governo americano prendeu e
soltou o doutor Alexandre Ramagem.
Ramagem foi condenado pelo Supremo Tribunal
Federal a 16 anos de prisão por ter se metido na armação do golpe de 2022/2023.
A encrenca do Judiciário
Noves fora as farofas, impropriedades e
onipotências de alguns ministros do STF, talvez esta seja a hora de dar um
freio de arrumação na magistratura.
Com a Constituição de 1988, perdeu-se a
oportunidade de transformar o Supremo em Corte Constitucional. Isso se deveu
inclusive ao interesse de alguns ministros que, com a mudança, perderiam poder.
Resultado: o Supremo virou uma quarta instância, recebendo litígios triviais e
acumulando superpoderes que deram no que deu.
Uma série de circunstâncias e ambições
levaram o STF para o centro do palco, um problema inédito e desnecessário.
O Supremo é o topo de uma pirâmide mal
ajambrada. Nenhuma magistratura funciona direito com 80 milhões de processos
tramitando e com 35 milhões de novos casos a cada ano. Daí advém uma sobrecarga
que é metabolizada em penduricalhos y otras cositas más.
O palhaço Tiririca estava errado: o que vai
mal, piorará.
Mariz, 55 anos de advocacia
O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira
lança na quinta-feira, em seu escritório de São Paulo, o livro “Casos e causos
— A trajetória de um defensor”. São 55 anos de advocacia em 272 páginas e 50
casos.
Tem de tudo. A mulher pobre que mata o
companheiro que molestava a filha (absolvida). Como assistente de acusação,
Mariz condenou filhos que mataram a mãe, viu ministro do Supremo maltratando
advogado e promotores mais interessados em acusar do que em buscar a justiça.
Tudo isso e mais uma referência da defesa da princesa Caroline de Mônaco,
ofendida por um grã-fino paulista.
Em sete páginas, Mariz conta o seu caso de
maior repercussão, a defesa do presidente Michel Temer, em 2017. Os dois
partilham “uma amizade que ultrapassa meio século”. Sai mal no episódio o
procurador-geral Rodrigo Janot, com sua famosa frase, “enquanto houver bambu,
lá vai flecha”.
Mariz critica o tratamento dado ao grampo da
conversa de Temer com o empresário Joesley Batista: “Foi apontada a existência
de uma série de interrupções e hiatos na gravação”. Com a defesa de Mariz, a
Câmara dos Deputados rejeitou a denúncia de Janot. Esse caso/causo chama-se “Em
defesa de um amigo”.
“Casos e Causos” repassam 55 anos de trabalho de um advogado que está de bem com a vida. Seus personagens são de carne e osso, mas Mariz pincela passagens com críticas e louvores ao funcionamento do Judiciário. É um curso-relâmpago de Direito.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.