Valor Econômico
Medida estrutural faz parte do conjunto de ideias que o governo tem para o setor
O governo estuda ampliar o open finance para
melhorar a avaliação de crédito de pessoas e empresas e, com isso, ajudar a
reduzir os juros nos empréstimos. Essa é uma medida de caráter estrutural que
integra o conjunto de estudos que estão em andamento no Ministério da Fazenda,
com o objetivo de atacar os altos índices de endividamento.
O open banking permite que uma pessoa disponibilize seus dados aos operadores do sistema financeiro para receber ofertas de crédito, explicou à coluna o secretário de Reformas Econômicas, Regis Dudena. O open finance já foi uma ampliação que trouxe mais dados.
“Se a gente conseguir espraiar isso trazendo
valores mobiliários, trazendo seguros e trazendo previdência privada para
dentro, começamos a ter de fato uma pessoa dona dos seus dados e possibilitando
que o sistema financeiro a precifique da melhor forma possível”, comentou. “O
risco é sempre precificado para mais, então, quanto mais informações há, mais
próximo do razoável será a avaliação.”
Ou seja: uma coisa é oferecer um empréstimo
com juro baseado no histórico da relação do cliente com os bancos. Outra coisa
é considerar outros recursos que a pessoa possui, como, por exemplo, uma
previdência privada que pode estar em outra instituição. Ou títulos mobiliários
que usualmente não são aceitos como garantia.
Há outro conjunto de medidas em formulação
que atacam de forma mais imediata o problema do endividamento, como a reedição
simplificada do Desenrola. Como disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan, em
entrevista a Miriam Leitão, na GloboNews, a ideia é beneficiar prioritariamente
pessoas com renda de até três salários mínimos, que teriam desconto em suas
dívidas e possibilidade de refinanciar o restante com novas formas de garantia
que possibilitem juros menores.
Outra iniciativa em discussão no governo é a
regulamentação uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como
garantia nas operações do crédito consignado privado. Espera-se, com isso, que
os juros nessas operações caiam. Além disso, estão em estudo mudanças nos
sistemas que vão facilitar ao trabalhador migrar seu empréstimo para outra
instituição.
A expectativa do governo é que as pessoas
troquem dívidas caras, como as do rotativo do cartão de crédito, por operações
menos onerosas, como é o caso do consignado.
A ampliação do open finance integra uma
discussão muito mais ampla do que o pacote de ajuda aos endividados, embora
possa vir a integrar o conjunto. Trata-se da modernização do arcabouço
regulatório do sistema financeiro.
Há dois anos, o Ministério da Fazenda iniciou
discussões para adotar no Brasil o modelo chamado Twin Peaks. Houve
resistências dentro do próprio governo e a ideia pouco avançou. Mas escândalos
como o do Banco Master e, anteriormente, o das Americanas mostraram que a
supervisão precisa ser modernizada.
No Brasil, a regulação e supervisão do
mercado financeiro é dividida. O Banco Central (BC) monitora bancos, a Comissão
de Valores Mobiliários (CVM), os títulos privados, e a Superintendência de
Seguros Privados (Susep), os seguros. O Twin Peaks propunha outra configuração:
haveria uma autarquia voltada à questão prudencial, ou seja, da solidez das
instituições e outra supervisora de condutas - um “xerife” que, em tese,
detectaria mais rapidamente os problemas como os que levaram aos dois
escândalos.
“Não estamos apaixonados pela solução,
estamos apaixonados por entender o problema e em pensar se separar prudência e
condutas faz sentido”, disse Dudena a respeito do Twin Peaks.
Em vez de insistir nesse projeto, o ponto
central dos estudos passou a ser como melhorar a troca de dados entre os
órgãos. “Por exemplo, hoje me parece que já há um fluxo bastante importante de
informações entre CVM e Banco Central”, comentou. “A comunicação já existe e
pode ser melhorada, mas para isso eu preciso de uma única autarquia? Não sei.
Preciso entender se isso é necessário.”
Os dois projetos, o da ampliação do open
finance e o da regulação do sistema financeiro, devem ser concluídos até o fim
do ano. Até lá, o Ministério da Fazenda pretende dialogar com as autarquias
envolvidas e com os regulados, para ter um texto mais amadurecido.
Garantia é um elemento importante para a definição
do custo do crédito e, nos anos recentes, houve muitos avanços nesse campo.
Durante a pandemia, o Fundo Garantidor de Operações (FGO) deu base às linhas de
crédito para micro e pequenas empresas, o Pronampe. Esse fundo agora pode ser
usado para dar garantia nas renegociações de saldos devedores das famílias
atendidas pela nova versão do Desenrola.
O novo marco de garantias permitiu às
famílias usar um imóvel financiado, ou seu saldo depositado em um fundo de
previdência privada, como garantia para empréstimos, o que reduziu o custo das
operações de crédito. Garantias melhores são também a base do consignado
privado, lançado no atual governo.
Esses avanços têm sido atropelados pelo
cenário macroeconômico. Com juros básicos nas alturas, não há medida para
baratear crédito que se sustente.

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