quarta-feira, 15 de abril de 2026

Astronautas são enorme desperdício, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Missões espaciais tripuladas são até 200 vezes mais caras do que as robóticas

Se a meta é produzir conhecimento científico, prioridade deveriam ser sondas e telescópios

Foi bonita a festa. A Artemis 2 completou com sucesso sua missão de circunavegação da Lua e trouxe de volta consigo, além dos quatro astronautas intactos, vários feitos interessantes. Eles incluem fotos maravilhosas do satélite, novos conhecimentos científicos e o carimbo de "funciona" para tecnologias aeroespaciais recém-desenvolvidas. Avançando para o território dos intangíveis, a missão produziu novos heróis siderais, inspirou uma legião de crianças a interessar-se por ciência e serviu até para suavizar um pouco a imagem global dos EUA, tão castigada pelas trumpices.

Não tenho nada contra esses efeitos mais psicológicos, aos quais acrescentaria a própria busca por uma narrativa de transcendência, tão característica de nossa espécie. Se essas extravagâncias psíquicas viessem a um preço razoável, eu seria o primeiro a aplaudi-las. Mas não vêm. Missões tripuladas são assustadoramente mais caras do que as robóticas. E aí meus ímpetos pragmáticos falam mais alto.

Por curiosidade, perguntei para uma IA qual a diferença de custo entre programas com e sem astronautas. Ela disse que as missões tripuladas podem custar até 200 vezes mais, dependendo do perfil da expedição. Sistemas de suporte de vida e a logística de retorno (sondas em geral não precisam voltar) explicam boa parte do sobrepreço. Mesmo que desconfiemos das contas da IA, acho que elas funcionam como um bom chute informado.

Vale registrar que as últimas décadas, nas quais as agências se concentraram em sondas e telescópios espaciais, produziram uma galáxia de novos conhecimentos que revolucionaram a astronomia e a cosmologia. Tudo considerado, penso que estaríamos melhor se dispensássemos os humanos de viagens espaciais, que servem tautologicamente para dizer que conseguimos levar humanos ao espaço.

É a mesma sensação de desperdício que tenho ao constatar que laboratórios farmacêuticos gastam mais em marketing do que no desenvolvimento de novas drogas ou ao ler descrições das bonitas festas do Vorcaro.

 

 

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