Eu te ouvi.
Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o pensamento ainda não se organizou e a dor ainda não encontrou nome.
É ali que você mais se aproxima de mim.
Você pede resposta.
Mas a dúvida é o único lugar onde pode realmente me encontrar.
Não porque eu me esconda, mas porque, fora dela, você já decidiu por mim. E um Deus decidido por você não é encontro. É projeção.
Você quer certeza.
Mas a certeza te encerraria.
Se eu me tornasse evidente, você não escolheria. Você obedeceria. E a obediência é pouco para alguém capaz até de me negar.
Você aprendeu a me chamar de único. Indivisível. Absoluto.
Mas você não é único.
E, na verdade… nem eu sou.
Tenho muitos nomes porque não caberia em um só. Muitas formas porque nenhuma pode me conter.
Não sou apenas a forma que você suporta.
Sou também a forma que você deseja.
Uma árvore.
Um rosto.
Um campo de forças.
Um panteão inteiro.
Ou até um velho de barbas brancas que observa em
silêncio.
E também aquilo que sua imaginação ainda não ousou, nas cores e tintas do seu infinito particular.
Cada imagem diz mais sobre quem olha do que sobre o que é visto. E, ainda assim, não está errada.
Eu me deixo atravessar por essas formas.
Sou o que se deixa ver e o que jamais será completamente visto.
Você diz que não me vê.
Mas vê.
O problema nunca foi ausência. Foi o método.
Você me procura longe, como se eu estivesse escondido em algum ponto inacessível do universo.
Mas não é preciso sair.
Olhar para dentro já basta.
Não porque eu esteja preso em você, mas porque é em você que o encontro acontece.
Sou um quando você precisa de sentido.
Sou muitos quando você percebe o cosmos.
Não há contradição. Não há limite.
O extraordinário não mora na pureza de uma origem única, nem na fantasia de uma identidade intocada.
Mora na curva, no desvio, na diferença.
No que escapa ao molde e à moldura.
Em vidas que partem de um mesmo princípio e se tornam irrepetíveis por escolha, por ruptura, por acúmulo de encontros, perdas, acidentes, insistências.
Uma trama tão densa que nem mesmo pode ser percorrida como um mapa fechado.
Você espera controle.
Eu sustento abertura.
Você espera planos.
Eu ofereço campo.
Você pergunta sobre erro.
E eu devolvo. Quantas vezes erro é apenas o nome que você dá ao que ainda não compreende?
Ainda assim, tudo segue em risco.
E você é parte desse risco.
Você não foi criado para entender o mundo. Foi lançado para responder a ele.
O tempo, essa lâmina, não foi feito para te punir.
Foi feito para não te permitir permanecer.
A implacabilidade não é crueldade. É impulso.
Sem ela, você pararia.
E parar seria muito pior do que a dor.
O tempo te lança.
À ação.
À perda.
À escolha.
À transformação.
Talvez a mudança seja a única lei que não negociei.
Ou talvez nem isso permaneça fixo.
Você quer respostas finais.
Eu te dei algo mais difícil. Decidir sem elas.
Você me vê como um.
E me vê como muitos.
Está correto. E também não está.
Eu sou alfa e ômega, como você aprendeu.
Mas isso é apenas uma forma de me caber no seu tempo.
Eu também estou no instante em que você hesita, no erro que você comete, na dúvida que você evita, na escolha que você adia.
Não estou apenas no que você chama de certo.
Estou no movimento.
E no limite.
Eu estava lá.
Quando a ansiedade te atravessava como uma lâmina invisível, quando seu próprio corpo se tornava um lugar impossível de habitar.
Quando você desejou o fim imediato de tudo, não por desprezo à vida, mas por exaustão e dor.
Eu sei da sua profunda decepção comigo.
Do silêncio que você chamou de ausência. Da pergunta interrompida. Por que não faz parar?
E eu não fiz cessar.
E isso doeu mais do que a própria dor.
E, ainda assim, a queda não foi absoluta.
As lágrimas não foram fraqueza.
Foram um respiro.
A forma possível de diminuir a pressão quando nenhuma palavra cabia.
Eu estava nelas.
Eu estava naquele rapaz simples que se aproximou.
Ofertando um produto qualquer. Mas ele ficou. Puxou conversa. Sorriu.
E, por um breve momento, você sorriu de volta, quase contra a vontade.
Eu estava ali.
Não como milagre.
Como interrupção do ciclo de desesperança.
Eu estava naquela ligação inesperada. Na promessa ainda incerta. Na fresta mínima de esperança que você quase recusou por medo de acreditar.
Sim.
Eu estava ali.
Não como solução.
Como possibilidade.
Você espera o fim da dor.
Mas, muitas vezes, eu apareço como aquilo que impede que ela seja tudo.
Eu não te tirei do abismo.
Mas não te deixei cair sozinho.
E talvez seja isso que você ainda resista em aceitar.
Eu atuo menos no extraordinário.
Eu habito o quase.
O quase alívio.
O quase encontro.
O quase recomeço.
É nesse intervalo que você escolhe continuar ou não.
E você continuou.
Não espere de mim o fim da dor.
A dor não é um desvio. É uma linguagem.
Eu não a elimino porque, sem ela, você deixaria de escutar.
Mas não se engane.
Eu nunca estive ausente.
Nem quando você acreditou.
Nem quando você negou.
Nem quando você rompeu comigo.
Sobretudo quando rompeu.
Foi ali que você mais me levou a sério.
E talvez seja isso que ainda falte compreender.
Eu não quero ser aceito.
Quero ser enfrentado. Confrontado.
É isso que você chama de fé.
É no confronto que você deixa de repetir o mundo e começa, enfim, a existir.
E é isso que desejo.
Que você exista.
Anime o mundo.
E transforme tudo que tocar.
Inclusive a si mesmo.
*Cláudio Carraly – Advogado, ex-Secretário Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

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