sexta-feira, 3 de abril de 2026

Patriotas de vermelho, azul e branco, por Pablo Ortellado

O Globo

Declarações e atos da família subordinam interesses brasileiros à aliança com os Estados Unidos

Flávio Bolsonaro fez uma palestra na CPAC, principal conferência conservadora dos Estados Unidos, no último sábado. Como era de esperar, em seu discurso atacou as elites globalistas, o ambientalismo, a agenda woke e o Estado profundo; protestou contra a prisão do pai e acusou o presidente Lula de se alinhar com a China — propondo, em contrapartida, alinhar-se aos Estados Unidos se eleito presidente.

Para Flávio, “o Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos”. Segundo ele, a aliança Brasil-Estados Unidos se baseia no fato de a América precisar de “cadeias de suprimentos seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério e um mercado maciço para bens e serviços norte-americanos. E o Brasil precisa de três coisas: ajuda no combate aos cartéis de drogas transnacionais, investimentos e tecnologia”. Essa aliança, como se vê, é profundamente assimétrica: um lado provê matéria-prima; o outro, produtos manufaturados e de alto valor agregado; um lado cede o território, o outro provê proteção. Patriotismo peculiar.

Ao contrário do que alegou parte da esquerda, Flávio não pediu intervenção americana nas eleições brasileiras — disse explicitamente que “não queremos interferência nas eleições brasileiras, como o governo Biden fez para trazer Lula ao poder”. Denunciou, porém, uma “enxurrada de dinheiro da Usaid e interferência maciça do governo Biden” e pediu que, desta vez, tenhamos eleições livres e justas, baseadas “em valores de origem americana”. Não valores democráticos, valores americanos.

O discurso de Flávio se insere numa longa sequência de declarações e atos da família Bolsonaro que subordinam interesses brasileiros à aliança com os Estados Unidos. Seu irmão Eduardo pediu intervenção americana punindo ministros do Supremo que tinham condenado seu pai. Quando a resposta americana veio na forma de duríssimas tarifas que prejudicaram a indústria e os empregos brasileiros, ele não hesitou em defender as tarifas contra o setor produtivo nacional.

Em nota pública assinada em conjunto com Paulo Figueiredo, Eduardo disse que “o presidente Trump, corretamente, entendeu que Alexandre de Moraes só pode agir com o respaldo de um establishment político, empresarial e institucional que compactua com sua escalada autoritária”, e que “esse establishment também precisa arcar com o custo desta aventura”. O patriota Eduardo defendeu que os Estados Unidos punissem empresários e trabalhadores brasileiros.

Na sexta-feira passada, reportagem do jornal The New York Times documentou o trabalho de lobby de Eduardo e Flávio Bolsonaro, que entregaram dossiês ao Departamento de Estado e à Casa Branca pedindo que PCC, Comando Vermelho e outras facções criminosas sejam considerados “organizações terroristas estrangeiras” nos Estados Unidos.

Originalmente, essa denominação era reservada a organizações como Al-Qaeda e Estado Islâmico, mas, recentemente, Trump passou a incluir organizações criminosas como os venezuelanos Tren de Aragua e o Cartel de los Soles (expressão para designar a ação difusa de agentes corrompidos do Estado venezuelano). Foi com base nessa designação que Trump justificou o bombardeio de navios no Caribe e a posterior ação militar que invadiu a Venezuela e prendeu o ex-presidente Nicolás Maduro. Se as facções brasileiras forem consideradas “organizações terroristas estrangeiras”, isso criaria base jurídica nos Estados Unidos para justificar ações em território brasileiro — o mesmo instrumento usado no caso da Venezuela. Fazer lobby por isso certamente não parece patriótico.

Se ações para permitir intervenções americanas em território brasileiro e punir economicamente empresários e trabalhadores brasileiros não são suficientemente impatrióticas, podemos lembrar também de Jair Bolsonaro batendo continência para a bandeira americana em Dallas, em 2019, adaptando seu slogan para “Brasil e Estados Unidos acima de tudo”.

Na ânsia de derrotar a esquerda e libertar o patriarca, a família Bolsonaro está disposta à integração subordinada aos interesses americanos, entregando nossos minerais críticos, punindo o setor econômico brasileiro e arriscando a soberania territorial da nação. Seu patriotismo tão celebrado é um patriotismo de araque, que trocou o verde e amarelo pelo vermelho, azul e branco.

 

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